Conservar as Tradições

04.06.2013

Li uma reportagem sob a manchete “Pessoas menos inteligentes tendem a ser mais conservadoras e preconceituosas” e tendo a concordar. Mas, algo me incomoda na leitura. Em verdade, mais de uma coisa. Por que não dizer pessoas burras ao invés de pessoas “menos inteligentes”, ou simplesmente pessoas estúpidas e desagradáveis, ou ainda “conservadores tem dificuldade de raciocínio”. A afetação politicamente correta da chamada me incutiu curiosidade.

A praga politicamente correta afeta nossas relações com o mundo de uma maneira constrangedora e exasperante. Opiniões e pesquisas reconhecidas como científicas surgem pautadas na dicotomia bem/mal com o pressuposto de que o bem sempre está no mais fraco e o mal sempre presente no mais forte. Não pretendo um esforço de por abaixo esse ponto de vista, pois a humanidade já perdeu a luta contra a sociedade. A partir do momento em que a maioria deixou de se questionar sobre o funcionamento de uma máquina e tornou-se partidária da destruição da máquina ou de seu assalto, abandonamos o pensamento. Intento evidenciar a relação ignorada entre o conservador, a tradição e os fracos.

            Ouço choro e gritos, vejo bandeiras e passeatas, acompanho a formação de grupos e políticas públicas sob o pedido pela proteção e conservação das culturas populares. O que viria a ser “práticas populares”? Certamente não aquelas vigentes com a maior parte da população. Afinal, a mídia de massa promoveria um controle agressivo sobre a população e imporia o gosto das camadas superiores da pirâmide. Definitivamente o gosto e as práticas do grande povo são pop, jamais populares. Gosto da cultura pop, pois ela se transforma constantemente e eu não sou conservador.

            Argumenta-se que o gosto massivo é resultado das determinações de grandes empresas, que o lucro regeria a produção da indústria cultural. Pergunto o que determina as constantes e aceleradas mudanças dos gostos promovidos pelas poderosas empresas dessa indústria cultural. Umas das repostas que me são dadas diz que as mudanças de gosto da população determina as mudanças da indústria cultural como resposta ao desejo da massa. O desejo da massa seria então modificado também pelas disputas entre as empresas e estas modificadas pelas disputas entre os blocos da massa. Esse jogo ocorreria relacionado em primeiro e último grau ao capital, que sempre é um meio para quem o possui e um objetivo para quem o deseja. Gosto do jogo com o capital, pois assim como os instrumentos mediam nossa relação com o mundo o capital media as relações entre as pessoas.

            Vejo como um problema o fato de sermos muitas pessoas num só planeta e nossos instrumentos terem se transformado em aparelhos. Posto que a carnificina e a destruição não são consideráveis, permanecemos num formigueiro que cada vez mais abomina a morte ou mesmo nega sua existência. O esforço conservador para a manutenção é triste, pois baseia-se no medo e em último grau gera raiva, violência e uma ilusão inquebrantável de certeza e verdade. Os conservadores creem ser donatários do conhecimento do Bem e de uma Verdade que tornaria todo o Seu mundo Belo. Não os detesto, porém, não sinto pena quando constato que, por mais sólida que seja sua ilusão de certeza e verdade, isso não impede seu desaparecimento.

            Quem são os conservadores?

            São aqueles que efetuam a resistência. Conservar é resistir ao desgaste, resistir a influência do meio, manter como está. Na ilusão dos conservadores, manter como está e sempre esteve. Os conservadores são aqueles que idolatram as bases, os fundamentos da geração que os precedeu e consideram ofensiva a influência do meio que pode corroer, degenerar e agregar sentidos diversos e mesmo opostos aqueles de sua criação. Conservadores prezam pela manutenção daquilo que consideram tradicional (Sua tradição), pois tem medo da perda e choram como crianças enganadas pela notícia de que a mãe foi embora. Por serem incapazes de compreender novas diretrizes, parâmetros judicativos, modos de fazer e descobrir o mundo, os conservadores lutam pela manutenção e conservação.

            Naquela reportagem havia a indicação de que o pensamento de direita representava o pensamento conservador. Isso é curioso e bastante equivocado. Sempre há um lado conservador e outro transformador em toda a movimentação humana, em larga ou estreita escala. Em algum momento da história os papéis parecem ter se invertido no ocidente. A conservação das tradições, o orgulho do passado, o medo dos avanços tecnológicos e principalmente o Grande medo da transformação pela influência do meio, pode ser encontrado nos partidaristas da atual esquerda.

            Por mais desagradável que isso soe, um indivíduo que defende a manutenção, conservação, preservação, proteção, ou seja lá qual termo encontrem, é conservador e medroso. Um indivíduo que não admite a possibilidade de existir sem estar integrado a uma tradição, uma comunidade, um grupo, uma tribo é conservador e medroso. O indivíduo que fecha-se por qualquer estratégia a influência do meio e busca a representação da fixidez de seus valores no seu mundo é conservador e medroso.

Para compreender em que pontos você é conservador, pois um pouco disso todos temos, basta observar do que você tem medo e o que gostaria de manter caso tudo mudasse. Nossas contradições internas são sinais de que estamos vivos e pensantes. Caso um indivíduo tenha medo suficiente da influência externa e das transformações que podem ser infligidas ao mais fraco pelo mais forte ao ponto de lutar pela conservação de seu meio, ele é perigosamente conservador. Esse perigo não é um problema nem merece muita atenção, é apenas triste. Esse perigo incide sobre o próprio conservador, impedindo-os de transformar o restante do mundo.

Coisas surgem, coisas morrem, práticas existem e desaparecem. Outras coisas surgem e morrerão, outras práticas saem das anteriores, ou são exigidas pelos novos ambientes, todas elas desaparecerão. Isso não é uma discussão. Não há o que ser discutido. É uma constatação do óbvio. Deus tenha piedade daqueles que fogem do tempo e querem que os céus sejam na terra.

Ainda mais desagradável é perceber que, por essas últimas pesquisas ditas científicas, além de medrosos os conservadores são burros.

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6 pensamentos sobre “Conservar as Tradições

  1. Ei, Rô! Para ser sincera, concordo com o autor da manchete… se a “inteligência humana” se define, muito genericamente, como a capacidade humana de adaptação ao mundo que se apresenta, uma pessoa “menos inteligente” tende a se adaptar menos e a conservar mais, sendo vista, assim, como “conservadora”.
    Isso não quer dizer que ela é menos evoluída ou inferior, só conservadora e menos inteligente (eufemismo para “burra”, rs, como você tão bem observou).
    E sinceramente, de novo, creio que essa tal hierarquização de pessoas e desejos (maravilhoso, mais ou menos, escória do mundo), assim como julgamentos de valor baseados em tradições pessoais é tipicamente conservadora. E são essas as mesmas pessoas que tendem a se surpreender e a sofrer muito ao perceber que o mundo não atende essas considerações e expectativas pessoais.
    Um conservador, aliás, é SEMPRE pego de surpresa por aquilo que já era óbvio. Capacidade de previsão certamente não é o seu forte. rsrs
    Enfim, também não os odeio, mas como ficou bem nítido na nossa compartilhada experiência de trabalho, meu pavio (para eles) é consideravelmente curto. hehe

    Parabéns pelo blog! Abraço!

    • Voltando de férias do site agora…rsrs
      Tem uma coisa que sempre me incomodou, mas somente há cerca de três anos ficou mais evidente: mentiram pra mim por quase toda a vida. Disseram que conservadorismo significava uma coisa ena verdade significa outra. Disseram que progresso significava uma coisa e na verdade significa outra. Como fizeram isso? A educação no Brasil é mais fajuta e mais leviana do que parece. Fiquei chocado ao perceber que os autores da chamada direita sequer são publicados em português, alguns nunca foram. Aprendemos na escola uma visão unilateral marcada por uma só moral: o socialismo cristão. Russell Kirk , Alexis de Tocqueville, Chesterton, Edmund Burke, M. Weaver, Kuehnelt-Leddihn, Trilling, O’Rourke…são tantos nomes fundamentais para a história da humanidade, que não me assusta agora as coisas que acontecem no mundo serem tão estranhas ao povo brasileira. Agora, somente agora, noto porque nossa massa de pessoas sempre fica a gritar contra o governo, a choramingar esmolas, a odiar os EUA, a rememorar o tempo de colônia, a erguer monumentos ao passado. Todos os brasileiros já ouviram falar em marxicismo e socialismo, mas quantos já ouviram sobre o egoísmo consciente de Rand, ou sobre a Imaginação Liberal, ou sobre “A democracia nas Américas”? Vivemos numa bolha de informações no Brasil que é muito pior que aquele na qual dizemos que os EUA vivem. Tenho vivido uma série de embates e contradições nos últimos anos, para tentar superar toda uma vida de ensino errado, a qual excluiu meu raciocínio da verdadeira filosofia e da verdadeira realidade.Enfim, tenho tido muita dificuldade de aceitar autores que não mostrem referências multifacetadas. O risco de cair na doxa brasileira é grande. Hoje, quando olho para trás, não posso crer que vejo na tv e na escola, desde criança, a defesa de que todos devem ser iguais. E pior, isso é tido como algo bom e belo no Brasil. Ora, a ideia de que todos devem ser iguais é uma ideia assumidamente fascista. Enfim, enfim…só parei pra responder porque foi você que comentou…rsrsrs

      • Só agora fui entender o conteúdo do seu artigo. Isso também ficou mais ou menos evidente pra mim quando frequentava fóruns de discussões com brasileiros que haviam cursado o ensino médio e os anos de universidade nos EUA.
        Só não concordo que a “doxa brasileira” é mais acrítica e perigosa, mas entendi seu raciocínio.

      • Tenho medo de, às vezes, exagerar para outro lado. Ser extremista não é bom. Do mesmo modo que percebi que era extremista sem saber, para um lado…posso me tornar extremista para outro, também sem notar. O nível da certeza do “extremismo inconsciente” brasileiro é que considero perigoso. Nessa espécie de disputa de classes, na qual não se permite que os mais qualificados cresçam para não intimidar ou humilhar os menos qualificados, a bondade, a maldade e a justiça já estão tão cimentadas na alma, que qualquer mudança de pensamento soa demoníaca. Vejo pessoas serem atacadas por indivíduos que se dizem os “mocinhos” da história. Pessoas atacadas apenas por dar opinião, por dizer que talvez seja melhor discutir o assunto antes de tirar conclusões. Vejo que muitos que querem discutir as notícias, ao invés de gritar “morte à ordem”, são repudiados como demônios.
        Quando a comunicação se torna apenas a propagação de manchetes e a reação do público, permitida pela internet, se resume a gritos e outras expressões furiosas, não há qualquer diálogo humanamente positivo.
        Numa das reuniões de nossa Secretaria, ouvi sobre um fato, acompanhado de uma opinião, que me deixou triste e ainda me irrita. Um dos nossos professores pôs-se a reclamar dos parâmetros da PRPPG para distribuição de bolsas de iniciação científica. O professor dizia, revoltado, que não havia como competir com os professores que publicavam “muito”, pois eles elevavam tanto as notas que impedem que os professores que publicam “pouco” possam se elevar aos olhos da PRPPG e da CAPES. O professor dizia, com uma expressão de vítima, que o fato de existirem professores “muito” bons era ruim para os professores “pouco” bons. Todos pareceram ser da opinião de que o corte para receber investimento não deveria ser aquele elevado, mas que deveriam distribuir os investimentos captados pelos que publicam “muito” para compensar a alta nota de corte.
        Entende como isso é assustador. Mas, essa espécie de opinião é corriqueira é típica do universo de valores brasileiros. O que realmente me causou tristeza e me incomoda ainda é que, de fato, a PRPPG modificará seus parâmetros e, de algum modo, nossos bons professores terão, cada vez mais, de suportar em suas costas a preguiça, o choro, a incompetência e a mal-criação dos demais.
        No meio disso, aqueles que sustentam verdadeiramente toda a estrutura, colocados como escravos, ainda tem de ouvir, continuamente, em todos os cantos de nossa sociedade, que são vilões, que são maus por serem tão “bons”.
        A isso podemos chamar de “sustentar os próprios carrascos”.

  2. Voltando aqui mais de um ano depois para dizer que hoje entendo perfeitamente sua colocação e exemplo. rsrsrs

    O site está muito bom! Parabéns para vocês! 😉

    • sou péssimo pra ver e responder rapidamente comentários.
      você pode imaginar o quanto fico feliz só pelo fato de você guardar esse texto e essa discussão na memória!!

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