Lanterna de Vagalumes

Acordei com uma sensação estranha de peso nas pernas. Um desconforto que me seguiu até o banheiro, olhou-me escovar os dentes, pentear-me, trocar de roupa. Com o corpo mais ereto e sem o pijama, pensei que este incômodo me deixaria. O café estava fraco? Era disso que o peso reclamava? Sem saber, decidi ignorá-lo, afinal, havia muito o que fazer durante o dia.

Lista de tarefas:

– Responder e-mails mais urgentes (Não esquecer de responder Daniel!);

– Tarefas domésticas: lavar roupa (meias urgentemente!) / varrer o quintal (folhas malditas);

– Prazos: Entrega de relatório (conferir carimbos e assinaturas) / Inscrição em curso de curta duração – secretaria / Concluir resumo de experiência / Coleta de dados do equipamento 43xHO / concluir o

“Concluir” certamente não era uma palavra adequada ao momento. Havia pouco tempo até para uma lista simples. Estava atrasada. Tarefa mais urgente: encontrar o último par de meias e correr para a reunião. E agora? Será que já passou o 801T-10? Ou posso pegar o 704T-20? Nossa, todos os ônibus parecem lotados. Será que essas pessoas não poderiam ir a pé para seus destinos?! Se minhas pernas não doecem, poderia eu mesmo ir a pé. Não, não teria tempo para isso.

Esses eram meus pensamentos hoje pela manhã, antes de me encontrar com aquele homem pálido e entender o peso estranho de minhas pernas. Seu nome eu não sei. Saberia, se tivesse perguntado, mas não pude. Ninguém poderia interromper sua busca. Ele havia quebrado um dos objetos mais sólidos de nosso imaginário urbano. O homem pálido havia entrado na escada rolante. Daqui um tempo esta imagem será marcante por nunca mais tê-la visto. A escada não era mais impenetrável, seus dentes estavam expostos e mostrava-se indefesa. Deveria existir um termo exato para dizer da importância das escadas na vida de todas as pessoas que desejam subir e descer entre mundos.

Treze anos atrás deixei cair um punhado de moedas entre os degraus da escada rolante. Corri o máximo que pude, recebi ajuda de uma amiga (saudades para além dos trópicos), mas os risos nos enfraqueceram e perdemos a batalha. Algumas moedas foram engolidas (ou erramos a conta? que importa…).

Quando criança pulava o último degrau por medo de ser engolida. Anos se passaram e os saltos tornaram-se raros. A expedição do homem pálido de pés ainda no chão me fez querer abrir e expor as entranhas para encontrar aqueles saltos. Não falo de um retorno a uma inocência, mas um desejo de lutar contra o desencantamento do mundo. Querer encontrar um refúgio, um laço de repouso suspenso e encantado. Um lugar onde as lembranças não se somariam como parágrafos soltos, como relatos, apenas. Elas seriam tesouro e instrumentos do dia a dia.

caracol 03

Será que é entre os degraus das escadas rolantes que se esconde aquilo que já não vemos mais? Quando foi a última vez que vi uma lesma? Não aquelas pequeninas de alface, mas as carnudas, que apesar de lerdas em nosso referencial, te encaram como donas do mundo.

E os vagalumes? Espanta-me ouvir essa palavra em uma canção pop, “vou caçar mais de um milhão de vagalumes por aí, pra te ver sorrir”, pois não existem mais vagalumes nem damas que possam receber esse presente. Se existem, ou se escondem ou já nos tornamos cegos para eles.  Uma lanterna de vagalumes, hoje, pela manhã, seria apenas um pote cheio de insetos. Uma lesma seria apenas um molusco, tão sem graça quanto lerdo. Antes do homem pálido, a lesma não teria uma baba cósmica corrosiva capaz de derreter pedras alienígenas.

É uma sensação de tempo que envelhece depressa. Sim, meu amigo Tabucchi, as marcas impressas na memória são mais profundas pela ausência e pela cegueira. Aquele homem pálido de lanterna nas mãos devia estar à procura desse tempo perdido nos cantos mais inimagináveis. Se em períodos bucólicos nossas lembranças eram presas em troncos ocos de árvores mágicas, hoje onde estariam?

A observação que durou menos de 20 segundos fez-me chegar a uma conclusão que mudaria toda a história do meu dia: eu nunca me sentei numa escada rolante.

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