Intrusos

 

Passo a mão no rosto e sinto um ardor. Já havia coçado o ponto tão violentamente que sentia o sangue na ponta dos dedos. Percorro a mão pela testa, desço pelas têmporas, parece que levei um tiro. Até chegar a mão direita à nuca, estava toda molhada. Sangue? Suor? Cochilo, fraca, sem conseguir acender a luminária.

Quando adolescente, lembro-me de sentir presenças fantasmáticas, aquela pressão de uma nuvem sobre o corpo, seguida de um abandono do físico. Era o que mais queria quando acordei novamente, com outro zumbido no ouvido. Uma horda de loucos sanguinários e famintos me atacavam. “Sai! Vai pra outro corpo, só tem cadáver por aí?! procurem bem, praga do inferno!!”. Certamente eu os teria amedrontado se eles entendessem a minha língua. Talvez tenham entendido. Mistérios da natureza. Mas, tenho a certeza característica do devaneio de que um dos insetos riu de mim.

Não compreendo muito bem o efeito do riso sobre o sono, mas costumo acordar quando alguém ri. Às vezes converso dormindo, respondo perguntas, teço relações e conspirações, anoto recados, mas basta um riso para todo o trabalho inconsciente estancar. Não que isso seja de fato interessante, não tenho provas de que esse trabalho tenha rendido qualquer ideia que desse dinheiro ou que gerasse felicidade. Nada frutivo. Frutivo? acredito que essa palavra não exista. Uma vez cortei uma ameixa ao meio, exatamente ao meio, enquanto dormia. Fiquei espantada no outro dia quando vi sobre a bancada a meia-ameixa. Tantas vezes tentei cortar uma semente de ameixa, abri-la sem que a faca escorregasse sobre os outros dedos… talvez meu inconsciente fosse frutivo nesse sentido. O que me preocupou durante dias foi o destino da outra metade da semente. Ela não abandonou meu corpo, talvez não tenha nem entrado. Talvez eu a tenha enterrado em algum lugar da sala. O que me faz lembrar de que preciso capiná-la. Não entendo como tanto mato insiste em crescer perto do sofá. Certa vez (construção clichê de discurso) meu irmão me disse que isso era carma, uma resposta do universo ao meu intuito de enterrar balas dadas por estranhos debaixo dos bancos das praças. Eu era uma criança desconfiada. Toda bala, de Cosme ou Damião, do senhor João, de qualquer Ão, eu enterrava. Poderia não ser uma bala, poderia ter substâncias injetadas por micro-seringas,  poderia ser um alimento que funcionasse como sementes de melancia. Quando duas sementes de melancia se encontram na barriga, elas explodem, te estraçalham de dentro pra fora, espalham suas tripas por todos os cantos num raio de 50m. Na dúvida, preferia enterrar. Sim, talvez meu irmão estivesse certo e esse carma me levasse a enterrar também a meia-semente, porque não existem meias-sementes, se não existem, podem ser perigosas, precisam ficar cobertas, de preferência debaixo de um banco (ou sofá).

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Meu medo de sementes de melancia já foi tão grande que eu fiquei bons minutos paralisada ao ver um senhor, no intervalo do seu trabalho, sentado dentro de uma escada rolante, a comer um pedaço de melancia. Como dizem os jovens, eu buguei. Sementes poderiam cair, ou pior, encontrarem-se dentro do senhor e explodirem-no, explodir a escada, o prédio, eu. Ainda tenho receios de escadas rolantes. Se elas não explodem, elas sugam os calçados, as moedas, as folhas, as ferramentas, até os galhos. Subo receosa e desço em pulos. Alguns riem, mas não me importo. Nunca serei explodida. Gostaria de que insetos comecem melancias por diversão…

Definitivamente preciso capinar a sala. Outro dia deixei meu prato de comida ir ao chão por tropeçar num ramo de erva daninha. Elas parecem tecido puxado da cartola de um mágico.

O corpo pesa, novamente. O estado de vigília ainda não é praticável. Preciso juntar mais energias para levantar bem, disposta a encontrar a horda de mosquitos e me vingar ao estilo John Wick.

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