Minhas não tão sinceras desculpas

Um dia fui acusada de “não situacionar”. Esse dia já está um tanto distante, mas como toda boa percepção de tempo, ele foi neste exato momento de anos atrás. A advertência cresceu como um tapa ao me ver na escrita que não situa o sujeito. Eu estava aqui, sentada diante da minha folha A4 digital, branquinha, a visualizar mentalmente um conto. Tudo se encadeava, os personagens nasciam, alguns cresciam e comiam outros, até que “Mas, em que situação isso aconteceu?”. Tudo desapareceu num instante, na falta de sentido das coisas. De certo, o conto deveria começar com alguém diante de uma porta, muitos dos meus contos começam assim. Mas, ao me perguntar que porta, de que casa? Era uma casa? Em que bairro? Era uma realidade em que existem bairros, cidades?… Não sei onde foi parar o personagem, talvez tenha desistido da porta.

Às vezes, para não matar o foco do personagem, prefiro não me atentar aos significados de tudo o que é construído na cena. Se digo, “O sujeito estava diante de uma porta” e não a defino, é justamente porque eu já a visualizo e não quero interferir na imagem alheia. Para mim, ver uma porta de madeira levemente escura, com ornatos vegetais na lateral esquerda e que, em questão de segundos, ela se torna vermelha, e volta a ser marrom, é porque minha memória está em tensão para o que é mais importante nessa imagem construída. Aquele marrom da madeira da varanda da minha casa de infância, ou aquele vermelho da cadeira da minha avó ou aquele ornato vegetal tão estudado durante o mestrado e que eu já via antes mesmo de saber que não era só decoração, tudo isso, faz parte de uma história que ultrapassa a narrativa. Quando me atento aos significados dos detalhes da imagem mental, me perco nas memórias e o sujeito desiste de abrir a porta, ou nem mesmo se coloca diante dela, porque ela deixa de ser uma porta.

Imagine se eu tentar situacionar o leitor para uma pequena descrição de como seria esse sujeito diante da porta. Afinal, não é apenas a porta que está em cena, mas aquele que detém a ação. Neste momento, o sujeito é um homem, de cartola preta na mão, uma roupa tipicamente burguesa das representações pictóricas do século XIX. Provavelmente, porque minutos antes de pensar no sujeito, a reminiscência que o encarnou veio da aula de história da arte sobre romantismo, e o sujeito parou diante da porta como o caminhante diante do mar de névoa, de Friedrich. E ele teria que ser um homem, porque ao mesmo tempo em que o caminhante andava sobre o canto esquerdo do olho, o Conde de Monte Cristo andava sobre o direito. Noutros momentos, o sujeito seria a senhora do chá, que já apareceu antes em meu imaginário discursivo.

E resta-me a dúvida de como eu solucionaria a questão de situar o leitor. Preciso dizer quem é este sujeito diante da porta? Preciso dizer que é um homem? Que sentido faria para o leitor absorver essas reminiscências do autor, as quais podem atropelar as suas próprias criações? Para o leitor, talvez faria mais sentido pensar em outro sujeito, específico de sua realidade, de seu imaginário, de suas reminiscências. E dar a este sujeito a liberdade de sofrer as ações que direciono na escrita. Quão mais interessante seria um sujeito criado pelo leitor, fusão de suas próprias tensões, sofrer a ação do que observar o caminhante romântico parado na porta? O resultado seria o mesmo de ver determinado sujeito subir as escadas e se descobrir como um ser de orelhas azuis e marcas de vulcão?

A escrita deste último parágrafo, admito, foi sofrida. Porque sofro a inversão de intencionalidade do título. Se eu o situasse, leitor, às minhas reminiscências, e o fizesse criar nexo emocional com o personagem que visualizo, sim, possivelmente faria tão mais sentido contar os detalhes que escondê-los ou ignorá-los. Portanto, o que em uma primeira escrita seria uma advertência irônica da não aderência do leitor à sua liberdade, torna-se um pedido de desculpas. Escrevo tudo isso para me desculpar ao leitor que parou no meio do caminho e se colocou diante de uma porta, sem se decidir, assim como eu, se ela seria marrom ou vermelha e que, ao pensar nisso, transformou toda a leitura em ato de névoa, um embaraço para você e para mim. Minhas sinceras desculpas por tais ações e por tal resposta tão sem nexo como qualquer outra porta.

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