Polaroids

Texto escrito por yurie yaginuma

[mais textos de yurie aqui ]

Polaroids

Polaroids “Natal, 2016” e “eu, Louren, Natan e Barbosa fotografados pela Thais, 2014”

memória-mentira, memória-buraco, memória-escape, memória-desenho, memória-verso, memória-construção. memória espectro dessa certa esquizofrenia arrogante, uma invenção fragmentada e labiríntica, donde perde-se começo, meio e fim.

memória exige do tempo a sua mais sincera unidade, presente é passado e futuro. é sempre um voltar-se sem sair do lugar. e talvez, nesse retornar, sejam então os fatos futuros que nos movam. memória é esse devir-vazio, preenche-se e transborda até estaca zero.

ela pode ser meio suicida, tão como assassina. assim: perigo. perigo não é boa palavra pra ser usada adjetiva — é feita pra botar vida na ação, vestir autoria, ser potência de palavra substantiva. então memória é perigo, esse danado risonho.

memória exige interlocução com o real pra fazer dele brincadeira, ficção ou bruxaria: expandindo-lhe dimensões, usurpando-lhe territórios. eu nasci em fukushima e vim para o brasil com dez anos de idade, vestido de soldadinho e soletrando os fonemas da tabuada do sete, emprestando pros tios uma entrada na migração e a minha saudade eterna de casa.

eu já fui guarani juremeira fumadora do catimbó, intermediária entre os nervos do rio e o coração do homem, entre a língua da lua-nova e a língua das crianças. eu já corri nas terras dos tarahumaras, já recitei catulo com a corda no pescoço, eu já fui tantas quantas vozes abafadas da américa latina, já fui parra, whitman e um filme do wong kar-wai — e nada disso sou.

memória é, dentre os tantos abismos, o maior deles: uma potência. um multiplicador de potências. os engendramentos verdadeiramente potenciais, paradoxos, impossíveis que nos permitem múltiplos e mútuos. lacunares e embicados pelo futuro: mais reais que nunca.

(quando escrevia esse texto, percebi que a minha verdadeira caixa de memórias é a escrita.)

Em resposta à uma memória

Texto escrito por Fabiana Pedroni

Ainda lhe parecia estúpido chamar isso de caixa de memórias. Por mais que o nome pareça poético, uma associação metafórica de se guardar relíquias sacras ou jóias, a expressão exibe sua crueza ilusória de se conseguir enfiar em caixas aquilo que não se guarda. No máximo, a memória será a própria caixa. Guarde e esqueça. De fato, é um perigo.

Sartre diria que é tudo imagem e imaginação, Pierre Nora encontraria lugares pra memória ocupar, mas a menina, coitada, já sentada no pouco que restava da sombra, não fazia a menor ideia do que poderia chamar de memória. Ela ouviu a expressão “caixa de memórias” e tudo lhe pareceu absurdo, e não sem razão. Sentou-se aos pés do carvalho com a ilusão de que a origem mítica da árvore das árvores lhe daria conhecimento para se convencer de que era possível ter uma caixa de memórias.

Sentou-se no começo da manhã… Já era quase 11h e não conseguia se convencer se ela teria ou não memórias. Lembranças, talvez, recordações, mas aquela memória que é celebrada ritualisticamente, que faz abrir a caixa e dali brotar histórias, aquela memória que tem cheiro, que tem voz… Essa, talvez ela tenha perdido. Não seria de se espantar, em uma família de alzheimerianas, que a memória fosse algo sagrado, mas não entendia porque apenas ela ainda não tinha construído a sua. A memória de sua avó estava em cada trama de costura, em cada bordado tecido e espalhado pela casa. A de sua mãe, era uma memória da fala e do riso, mas ela tinha aquela caixa no alto do armário, com itens memoriais. E a memória da neta e da filha?

Com pouco tempo, no risco de perder-se sob o sol, ela fez uma lista. “Onde encontrar uma memória”. Criou um mapa, traçou referências, habitou a cartografia, inseriu sentimentos, mas, ainda assim, não era uma caixa de memórias. Ideias, talvez, ficção. Já não sabia se aqueles pensamentos despejados no mapa eram reais. A relação entre memória e realidade responde mais ao instante suspenso que a qualquer tempo ou realidade. Ela tinha, sim, alguns objetos, que chamava de pormenores possessivos, pelos quais a pequena criatura absorvia seu mundo, seu entorno. Fotografar uma gota de chuva, guardar um pequeno galho de Ipê no tronco do jacarandá, criar novos caminhos para deixar os observadores confusos, tudo poderia ser uma memória. Ainda assim, não faria sentido guardar ações e fragmentos contextuais em uma caixa, mesmo que metafórica. Como boa alzheimeriana, uma parte da verdade já era ficção. Então, para quê acreditar em algo que só é potência de uma vontade?

O sol continuava a adentrar pelas folhas e a invadir seu espaço. Inquieta com a falta de solução, ela recolheu seus papéis. Listas, mapas, anotações, desenhos do bairro onde morou, fachadas das casas dos amigos, pequenas histórias que lhe contaram… uma infinidade de desdobramentos e recordações que poderiam se desfazer num instante.

Como todo bom enigma, ele se desfaz a instante da desistência. Diante de tanto papel, a pequena reconheceu, ali, um cheiro. Era cheiro de papel, era cheiro de escrita, era cheiro de vontade. Ela não precisaria guardar nada numa caixa, porque sua memória era a própria escrita e a vontade de escrever.

Como uma ação, a memória existe apenas nesse tempo suspenso, que não é passado, nem futuro, mal chega a ser um presente. A cada palavra, uma letra escrita já se ia e a futura já adentrava no papel. Sua memória não é a materialização da ideia, em palavra ou imagem, mas o tempo suspenso do desejo de escrever.

Finalmente pode deixar o carvalho, às pressas, para encontrar mais papel e escrever sobre sua descoberta. Talvez tentasse escrever com linha e pegar para si outras memórias.

 


Estes dois textos são resultado da disciplina de História da Arte III, ministrada na Universidade Federal do Espírito Santo no primeiro semestre de 2017. O primeiro, “Polaroids”, foi escrito pela aluna yurie yaginuma e o segundo texto foi uma resposta minha (a professora) à aluna. ^^

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