Os Caminhos Para o Outro

 

Texto curatorial publicado no Jornal A Gazeta referente à mostra coletiva “CaminhosParaOutro”, realizada entre 20.11.2013 e 20.01.2014 no Espaço Transitório de Arte – Artéria. Referência completa: HIPÓLITO, Rodrigo. Os Caminhos Para o Outro. A Gazeta, Caderno Pensar, Vitória, ES, p. 6 – 6, 23 nov. 2013.

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Apontar para o que vemos é uma atitude de tal potência reflexiva que tende a representar a própria visão sobre um mundo já posto diante dos olhos. Esse raciocínio, parcialmente inocente, está contido na crítica empreendida por Hal Foster ao artista como etnógrafo. Devemos sempre considerar uma anterioridade do sujeito que vê, do contrário recairíamos no equívoco de uma utopia do olhar desinteressado.

A caça por um mundo íntimo movimenta artistas em viagens interculturais das quais florescem trabalhos inevitáveis. Muito acima da possibilidade de compreensão de uma cultura (aberta, fechada, híbrida ou mestiça) está o desejo de travar contato. Junto a esse desejo vem a vontade de levar o próprio corpo aos mundos imaginados. Antes de aportar numa cidade nova os sonhos do porvir já afligem o inventor do outro.

A cineasta finlandesa Eija-Liisa Ahtila, na videoinstalação The House (2002), traz uma personagem envolvida pelo problema da distinção entre os limites de sua imaginação e a realidade exterior. Este é um bom exemplo de como perguntar-se sobre a distinção entre as vozes internas e externas é uma estupidez que pode levar a esquizofrenia. Em toda a situação nos interessa o diálogo ou o repúdio, seja nosso interlocutor real ou ilusório.

Os artistas que se debruçam sobre os mundos do “outro” constroem continuamente a realidade em que pode viver. Sua arte, quase sempre, demonstra o valor de entrar em contato e juntar peças para construir um lugar pessoal e móvel. O melhor modo de iniciar um inventário é aceitar uma invenção.

O antropólogo e historiador James Clifford fala de uma meta-etnografia, caracterizada pelas diversas formas de pensar e escrever sobre a cultura do ponto de vista da observação-participante. Esse é um pensamento confluente com a ideia de ficção foucaultiana, que escamoteia o sentido de fábula para firmar-se como forma de relato.

Construir a realidade através da variação constante de vozes confere firmeza para discursos de uma arte comprometida com o encontro entre os “eus” e os “outros”.

O que encontramos hoje na mostra “CaminhosParaOutro”, aberta pela Artéria – Espaço Transitório de Arte, é um complexo conjunto de modos de atingir, representar, contar e inventar mundos pelos quais os artistas passam no caminho de construção de si mesmos. Em meio a fotografias, objetos, esculturas, cinema e instalação permanece a impressão de que, ao caminhar por paragens geográficas e historicamente longínquas, os artistas compartilham do tecimento de uma fina trama de subjetividades simultaneamente frágil e densa. O formigueiro de vozes pontua de um ideário indiano fisicamente vivido por artistas viajantes aos mitos heroicos da nobreza quilombola de São Mateus, dos fios de sonoridades entre abstração e reconhecimento à relíquia familiar ornamentada pelo presente, do corpo americano quase-europeu a distante sensibilidade de uma juventude húngara.

Atravessados pela desterritorialização, descentrados por um fluxo de informações que distorce continuamente o sujeito e empenhados numa urgente revisão da própria história os artistas atuais parecem sempre de passagem. No trajeto para o domínio de si, por vezes esses artistas encontram-se em meio à multidão, por vezes isolam-se, como quem prende a respiração para ouvir seus batimentos.

Com fotografias de Chicow, Christel Bautz, Felipe Araújo, Flávia Arruda, Hudson Duarte e Rogério Medeiros, esculturas de Tião Fonseca, instalações de Fabiana Pedroni e Marcus Neves e curta metragens de Gábor Hörcher, a mostra inaugura a parceria entre a Artéria – Espaço Transitório de Arte e a loja Etnia. A curiosa e enriquecedora relação estabelecida entre raridades da tapeçaria oriental e registros de viagens tão particulares estrutura o espaço como uma alternativa ao já conhecido ambiente de galeria de arte. A formulação minimal definitivamente não é o caso.

E talvez seja mesmo necessário partir dos efeitos de um elemento n’outro, dentro e fora dos trabalhos de arte, para ter acesso a experiências tão personais como as desses artistas, não no papel de um observador apartado, mas sim como integrante das conversas. Lembro-me das palavras do “duo” MauWal, em entrevista a Glória Ferreira, quando diziam realizar “investigações estéticas sobre os encontros com o outro”. No caso de “CaminhosParaOutro” há uma inversão dessa fala, pois os encontros são fruto menos de investigações e mais de belos sonhos.

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