[crônica] Comi um livro vencido

Imagem de capa. “Livro vencido”. Rodrigo Hipólito. Desenho sobre papel e intervenção digital. 2020.

 

Texto de Rodrigo Hipólito

 

Este texto é uma espécie de reclamação.

Não é fácil sentir vontade de produzir. Quando aquela energia estranha se move na boca do estômago e atravessa nosso peito, num nervosismo que precisa se transformar em algo concreto, é como se tudo fosse possível. É como se a criação já fosse real e estivesse pronta para ser descoberta.

Eu gosto dessa sensação e gosto do que vem depois. Sentir que algo saiu da minha mente e se tornou uma nova parte do meu corpo que vaga pelo mundo, é tanto assustador quanto gratificante. Eu sinto orgulho de ter produzido algo para o qual consigo dar valor. Também me agrada quando essa nova parte do corpo é compartilhada, por não ter saído apenas da minha mente.

Isso tudo é muito prazeroso e não é fácil manter a energia necessária para que esse prazer aconteça. É como chegar ao gozo depois do esforço do sexo. Produzir um texto, um de-senho, uma fotografia, uma ilustração, um podcast ou um trabalho sem categoria, na minha experiência, sempre foi algo similar ao prazer físico.

Trabalhos de arte me atingem de um modo físico. Consumir trabalhos de arte afeta a minha vida de maneiras enervantes. Nesse tipo de relação, há uma série de riscos sobre os quais precisamos ter consciência. Nós precisamos saber, minimamente, com qual espécie de produção de arte vamos entrar em contato, pois há riscos.

Não vou gastar mais linhas deste texto para explicar que trabalhos de arte não estão no mundo para servir ao público como uma fuga da realidade. Eles podem funcionar como escape, mas dificilmente serão mais eficientes nessa função do que um tempo de férias, o convívio despreocupado com as pessoas amadas e uma boa quantidade da sua comida predileta.

O meu problema, aqui, é de outro tipo.

Hoje, eu terminei de ler um livro e essa foi uma experiência horrível.

O livro que eu terminei de ler sugou minha vontade de produzir. Eu sei bem qual é o tipo de conteúdo que causa, em mim, esse efeito. Eu sei quais tipos de produção me fazem desistir de realizar qualquer coisa e me levam a querer dormir até que o mundo se esqueça de que faço parte dele. Eu evito esse tipo de conteúdo sempre que possível. Só que, às vezes, eu cometo o erro de consumir esses alimentos que me deixam doente.

Caso eu não estivesse em um momento de minha vida em que um dos meus objetivos é escrever ficção, essa leitura não teria me incomodado tanto. Como público e como

produtor, eu desejo experiências que expandam minha compreensão da realidade. Não se trata de sempre ter algo novo, mas de evitar aquilo que você já sabe que te degrada e te derruba.

Eu não direi o título do referido livro. Basta saber que a narrativa estava em primeira pessoa e que mais de noventa por cento do texto era composto pelos lamentos de um artista, homem, branco, hétero, homofóbico, nos seus cinquenta e poucos anos, rico, de família rica, viajado e morador do Sul do país.

Por que o autor escolheria esse personagem? Porque o autor dedicaria quase todas as páginas do livro a dar voz para as dúvidas e memórias, em primeira pessoa, desse personagem? Ele tenta desconstruí-lo? Ele estava interessado em evidenciar os problemas de sua história e de seu perfil socioeconômico? Esse personagem possuiria algo que o tornasse interessante para alguém fora do seu perfil? Todas essas possibilidades e muitas outras estavam postas. Mas, a escolha não foi essa.

Já faz tempo que perdi a paciência com os dilemas existenciais desse tipo de personagem. Quando eu leio esse tipo de livro, quando eu assisto esse tipo de filme, quando eu visito esse tipo de exposição, minha primeira reação é a de vontade de ir embora. Isso me enche de preguiça, de desânimo, de vontade de desistir.

Naquele livro, eu sou a empregada negra, que só aparece na história em duas páginas e como subterfúgio para o protagonista nos informe de que ele tem consciência de que é racista e gostaria de mudar. Naquele livro, eu só existo para servir ao autoconhecimento do homem branco de meia idade.

Eu sei que eu posso usar esse incômodo para produzir alguma coisa e é por isso que escrevo este texto. No entanto, não é este texto que eu gostaria de escrever. Produzir este texto não me dá prazer e, neste momento, eu preciso daquela sensação sobre a qual eu comentei no começo.

Talvez, agora, todos nós precisemos de um pouco dessa sensação.

Eu vou voltar a evitar me entupir de coisas que me fazem mal.

Há algo engraçado no meio disso. Eu terminei aquele livro por um motivo besta. É um daqueles motivos bestas que podem virar outra coisa. A cada dia, eu tenho me admitido mais supersticioso. Quando comecei a ler o maldito livro, o mundo começou a desabar a minha volta. O que poderia acontecer caso eu não terminasse de ler aquela porcaria? Pre-firo não pensar nisso. Talvez eu escreva uma história sobre isso.

Parece que já me sinto melhor.

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