[conto] A visita dos vagalumes

laptop 08

Imagem de capa. Recorte de “Quanto mais brilhava”. Rodrigo Hipólito. Desenho sobre papel e intervenção digital. 2016.

Conto de Fabiana Pedroni

 

Quanto mais brilhava, mais coçava. Depois de tantos anos sem ver vagalumes, não me incomodei com as sequenciais picadas de mosquitos-monstro. Em 2014, eu vi um vagalume solitário. Custei, na época, a acreditar que era mesmo um, por mais que continuasse a piscar em meio aos neons da cidade de São Paulo. Desta vez, em 2018, ele não estava só. Espalhados no pasto, eles eram pontos de memória.

Comecei a contar quantos anos haviam se passado desde que vi o mesmo pasto com tantos vagalumes. Foi quando me dei conta de que o pé de limão galego já tinha mais de 20 anos e de que as roseiras, amparadas pela janela da sala, tinham 26 anos.

26 primaveras. 26 podas anuais. Não é de se espantar que, naquele ano, elas estavam cansadas de dar flor. A janela, apesar de ser o resultado de uma reforma mais recente, parecia um pouco triste com a sua primeira ausência de rosas. O lamento, acredito, era pela falta dos elogios.

As rosas vermelhas ornavam o beiral azul e não conseguíamos ficar ilesos àquela sensação de prazer. Sem as rosas, deixamos de ver a janela. Quase esquecemos a paisagem, até que eles chegaram. O primeiro brilho, vi de relance pela janela, com o cantinho do olho. Ao abrir totalmente a paisagem, senti a madeira quente. Meu suspiro pode ter sido um elogio e uma companhia.

A casa, por nós pouco habitada, ganhou novas manias e moradores. A viuvinha se irritou assim que abri a porta de casa. Não esperava visitas. Suas antecessoras, de uma longa árvore genealógica da lavadeiras mascaradas, fizeram parte da rotina desta casa quando eu era criança. Quando nos mudamos para uma casa no morro da frente, aqueles pássaros nos seguiram. Mas, quando fomos para a cidade, uma mudança de muitos quilômetros e um carro a perder de vista, não nos vimos mais.

Tentei explicar toda a história para a viuvinha irritada, mas ela não quis me ouvir. Ela não aceitou o causo como uma ligação afetiva e deixou bem claro que não éramos bem-vindos.  Afinal, a memória era só minha.

E a perereca, bem, essa parecia curiosa com nossa chegada. Acredito que ela queria nos ver de perto e, por isso, subia no alto da parede. Em uma casa sem forro, a parede é como um muro, lugar perfeito para espiar. Ser observada enquanto durmo não era um incômodo impossível de suportar, mas os pleque-pleques que ela fazia com suas ventosas eram aflitivos.

De madrugada, quando nós duas dormíamos, a perereca caiu. Rolou direto do alto da parede ao chão da cozinha. Não levantei, mas pouco depois, ela tentou se aninhar na minha coberta. Gelada, barulhenta e curiosa. Não adiantou expulsá-la de casa. Subiu a parede externa, que também é muro, e já estava dentro. Foi uma longa noite.

Chewie disse que o tormento veio por causa dos vagalumes. Não tive muitos argumentos para explicar que um vagalume não era um ser mágico que poderia influenciar na rotina do lugar.[1] Ele sempre foi um cachorro cético, mas desde que soube que as plantas hotu do Taiti brilhavam,[2] ele passou a desconfiar do poder da existência.

Se adotá-lo mudou completamente a minha vida e a rotina da minha casa, por que a presença de tantos seres piscantes não alterariam a desta pequena casa na roça? Não encontrei resposta. Chewie seguiu o raciocínio, latindo que a perereca podia até mesmo ter chegado na casa por causa dos vagalumes, por eles terem iluminado seu caminho desde a mata.

Se a perereca acreditar que foi a mágica dos vagalumes que a fez chegar na casa, ela se sentiria curiosa para compreender o que havia de tão especial dentro dela e seria muito insistente, como o foi. Novamente, eu não pude argumentar. Fazia sentido e eu não tinha muitas explicações. Minha preocupação maior ainda era sobre como eu dormiria na próxima noite.

Chewie, empolgado com a atenção voltada pra suas ideias caninas, bolou um plano. A condição era de que a solução não prejudicasse a saúde de ninguém, nem irritasse ainda mais a viuvinha. Chewie explicou que queria intensificar a ocupação humana. A expressão chamou a atenção da viuvinha que queria nos ignorar. A princípio, trocar as lâmpadas do jardim, queimadas há anos, era um absurdo. Clarear intensamente e ofuscar o trabalho dedicado da lua era um insulto, mas todos concordamos que os pleque-pleques eram uma afronta ao sagrado momento do sono. Todo mundo devia ter direito a um sono tranquilo.

Trocadas as lâmpadas, a lua se apagou e os vagalumes também. Sem um caminho mítico, a perereca perdeu o interesse e voltou para a mata. Finalmente, a casa pode dormir em silêncio. Até que a primeira lâmpada estourou…

Imagem de capa. Recorte de “Quanto mais brilhava”. Rodrigo Hipólito. Desenho sobre papel e intervenção digital. 2016.

 

[1] É importante dizer que eu conheço a ideia de que os vagalumes seriam seres fantásticos, capazes de cortar o tempo e modelar memórias. Confesso que tenho simpatia pelas teorias de fatiação temporal e modelagem de memória. No entanto, eu prefiro não alimentar esses interesses na mente já efervescente do Chewie, pois ele poderia cair em poços de pseudociência. Esse é um risco que prefiro não correr. Por enquanto, para qualquer palavra que se diga sobre este texto, vagalumes continuam a ser apenas vagalumes.

[2] Ele soube dessa flor enquanto eu lia o texto “Gênese de uma pintura de Paul Gauguin: manifesto e autoanálise de um pintor”, de Dario Gamboni. Mas o ceticismo só foi embora quando passou por algumas experiências que julgou ser sobrenaturais. Talvez, um dia, eu o convença a me deixar contar sobre tais experiências.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s