[ensaio] O que há no canto da parede?

Mosaico. Rato. Ensaio. Roma.

Piso não varrido (asàrotos òikos). Detalhe de mosaico feito com pedaços de vidro e mármore colorido. Origem: Monte Aventino, Roma, século II. Fonte: Prates, 2011, p.44. Imagem completa: Museu do Vaticano.

 

Texto de Fabiana Pedroni

 

Eles se reuniram em volta do sorriso para encontrar o melhor adjetivo. Modesto, sincero, debochado, enigmático, feliz, genuíno. Mas, a felicidade se expressa do lado esquerdo e a autenticidade de um sorriso eleva as bochechas e os músculos ao redor dos olhos, o que não era visto em sua face. Horas a posar para uma pintura, seu sorriso só poderia ser falso. Foram anos de pesquisa, anos a dissecar um corpo inexistente, para compreender que a assimetria de seu sorriso indica que metade de Mona Lisa é feliz e a outra é neutra.

Essa pintura tornou-se ícone por vários motivos, os quais não vem ao caso aqui, mas ela nos serve para sintetizar toda a preocupação figurativa e iconográfica que jorra das mesmas fontes de dinheiro que a mantém. O interesse por compreender a esticadinha lateral milimétrica de seu sorriso, através da neuropsicologia da emoção ou a anatomia dos músculos da face, atropela sua presença como objeto cultural dentro da História e da História da Arte.

Mas, este não é um texto sobre Mona Lisa e seu sorriso safadinho. Este é um texto sobre aquilo que não se vê, aquilo que permanece ocultado pelo brilho glamouroso e lucrativo que embaça a vista. Sim, embaça pelas hierarquias de valorização social e acadêmica, bem como pelo cerne financeiro que tudo movimenta no capitalismo. O que lucra mais, uma visita ao Louvre para dar um Oi pra tia Mona ou um passeio no espaço público, gratuito, para ver um pixo?

De tudo o que nos resta de artefatos históricos antigos, nos resta aquilo que quisemos encontrar, aquilo que quisemos perceber, capitados por seu brilho. Para cada pintura famosa citada, é possível dizer que há algo em sua margem, seja dentro do próprio quadro, seja para além dele.

Quando falo de Pompeia, seu imaginário resgata todo o brilho possível de uma extensa narrativa já enraizada. Imediatamente, um vulcão entra em erupção, corpos são petrificados em posições de morte e de riso, seu olhar imaginário vê mitos romanos representados em afrescos, arquiteturas elaboradas com profundidade e perspectiva. Se formos ainda mais específicos, e a depender do que está na sua bagagem cultural, pode ser que você imagine uma casa romana ou até a Casa dos Mistérios. Mas o que há para além disso tudo? O que está no cantinho escondido à margem dessa narrativa?

Além de potes e jarros, elementos do cotidiano hoje valorizados pela História da Arte em seu encontro com a Arqueologia, há grafites que exigem ser encontrados de perto para serem notados. Não precisa de lupa, basta atravessar a espeça nuvem brilhante do glamour figurativo, para encontrar narrativas sufocadas. São sulcos feitos na parede com um estilete (graphium, em latim), que trabalham o cotidiano, as brigas, os xingamentos, os amores. Não se espante ao se aproximar dessas narrativas e encontrar um grafite do século I a.C. que é bem parecido, em discurso, com aquilo que você escreveu no banheiro da escola.

Ao nos aproximarmos do ínfimo e corriqueiro, perceberemos algo não tão barato quanto um risco na parede, mas também ignorado. Mosaicos e pinturas com cenas eróticas foram censuradas nas escavações. Augusto Mau, em 1882, propôs um sistema evolutivo cronológico de estilos dos achados de Pompeia:

– Estilo 1, “Estrutural ou mármore fingido”, do século III a.C. até século I a.C. (relevos que criavam a impressão de uso de placas de mármore);

– Estilo 2, “Estilo arquitetônico”, século I a.C. (perspectivas falsas, colunas e outros tipos de imitação arquitetônica);

– Estilo 3, “Estilo ornamental”, final do século I a.C. até início do século I d.C. (ornamentação rica e delicada, muitos motivos egípcios);

– Estilo 4, “Estilo fantástico”, início do século I d.C. (estilo rebuscado e forte presença de elementos da mitologia). (Garraffoni, 2007, p. 154)

O que esse sistema nos diz? Primeiro que é evolutivo e, nessa palavra complexa, incluímos a noção de que o que surge é diverso e melhor que o anterior. Um sistema cronológico nos ilude para dizer que, por essa evolução, há uma substituição de um por outro, o que significaria que, no século I d.C. (estilos 3 e 4), não poderíamos encontrar imitações arquitetônicas (estilo 2), o que não é verdade. Mesmo que a valorização de uma forma ou modo de se expressar aconteça, não aniquila completamente expressões anteriores. Você diz top, eu digo massa, minha mãe diz show e minha avó, supimpa, no mesmo dia.

Mas há outro ponto importante que esta classificação nos mostra, ou melhor, não mostra. Ela oculta toda a produção erótica e popular que os envolvidos em sua classificação não queriam preservar como um dos aspectos da cultura romana. A produção popular não incluía apenas os grafites, mas também pinturas de elementos cotidianos que não entravam nos 4 estilos, nem lançavam um estilo próprio. Quando repetimos uma suposta eficácia dessas classificações, esquecemos que elas também são produto histórico e pertencentes a um tempo.

Após a confirmação das ruínas de Pompeia no século XVIII, quer dizer, sua existência tornar-se pública, as escavações foram marcadas por saques e pilhagens, que atendiam a um costume de colecionar antiguidades da época. Por mais que tenha havido esforços em tornar as escavações menos destruidoras, como os de Fiorelli no século XIX, ainda encontramos momentos arrasadores, como a atuação de Amadeo Maiuri. Ele ocupou o cargo de superintendente das escavações entre 1924 e 1961 e, com o financiamento do governo fascista de Mussolini, retratou a cultura romana como uma heroica herança italiana. Isso significou esconder as produções eróticas e ignorar as produções populares, além de deslocar de contexto várias imagens que corresponderiam ao desejo de superioridade italiana, retiradas das casas romanas, de um cotidiano histórico, para acervos pessoais e museus. (Garraffoni, 2007, p. 151-152).

O que há no canto da parede, que não foi percebido, mesmo que de forma curiosa, pelos pesquisadores? O que eles têm escondido da população, omitido na ausência de divulgação científica, e que colabora com os apagamentos?

Por que não nos voltamos para o chão de Pompeia e buscamos por ossos vitrificados em representação de um cotidiano de banquetes, já encontrados também em outras partes da Itália, ao invés de apenas estender nossa atenção para Dionísio e acreditar que ali se completa uma história?

Detalhe de piso não varrido. Pompeia, mosaico, I a.C.

Piso não varrido (asàrotos òikos). Detalhe de mosaico feito com pedaços de vidro e mármore colorido. Frutas, garras de lagosta, ossos de galinha, frutos do mar, ratinho a roer casca de noz. Origem: Monte Aventino, Roma, século II. Fonte: Prates, 2011, p.44. Imagem completa: Museu do Vaticano.

Ao colocarmos estes questionamentos dentro de uma História da Arte eurocentrada, que ainda apaga a sua própria história, que não dá atenção para o chão italiano com a mesma intensidade que para os deuses romanos, nos questionamos qual a amplitude da força de apagamento quando este é ainda mais intencional para com outras culturas.

Censurar, apagar, esquecer, esconder, destruir, estereotipar, fetichizar são verbos recorrentes, mas obscuros dentro da ciência da imagem. Enquanto não percebermos que a imagem possui um lugar, seja espacial (localização em um espaço, no chão ou parede específica), seja da experiência (localizada em um tempo histórico), não conseguiremos compreender o que ela pode nos falar. Continuaremos a fazer as perguntas erradas, a sermos tolhidos por um glamour do retorno financeiro e status de uma elite patética e falida socialmente.

O que há no canto da parede para qual você se volta, mas não consegue perceber?

 

Notas:

Para saber mais sobre o que também está à margem da História da Arte: NPT S03E10: Natureza-morta e panos de prato.

GARRAFFONI, Renata Senna. Arte Parietal de Pompeia: Imagem e cotidiano no mundo romano. Domínios da Imagem, Londrina, v.1, n.1, p. 149-161, nov. 2007.

PRATES, Katia. A natureza-morta. In: _______. A imagem rarefeita: entre o vazio e o infinito. 2011. 168p. Tese (Doutorado em Artes Visuais) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul, p. 38-73.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s