[crônica] De onde nascem os causos

Imagem de capa. Causos. Montagem fotográfica.

Ruído Vermelho, Fabiana Pedroni, 2018. Sobreposição de fotografias de Maria Angélica Pedroni impressas em papel vegetal e recorte de papel couchê branco.

Texto de Fabiana Pedroni

 

Sempre que eu ia à casa de meu avô, gostava de ouvir os causos de sua juventude.

Era um tal de cavalo pintado que fica borrado na chuva, era vaca fugida, fruta roubada, bicho de pé zangado. Tinha de tudo. 

Era tanta história, que algumas não batiam.

Minha mãe, só no olhar, já as desmentia, em silêncio, pois um causo bem contado não pode ser contestado, senão vira outro causo. 

Meu avô, com sua voz arrastada, era um bom narrador para pessoas pacientes. Às vezes, ele demorava para puxar os fatos da memória ou para construí-los naquele instante.

Com a idade já mais avançada, começamos a contribuir nos causos. Quando ele esquecia o nome do primo, minha mãe o lembrava, quando esquecia a próxima ação, eu o guiava: — Aposto que foram tomar banho no rio depois, não é vô? — Se sim, a história seguia pelas águas, se não, ele já sabia para onde conduzir.

O mundo caipira que meus avós me apresentaram não tinha nada de bucólico. Na roça, a inocência era capciosa, a sutileza de roubar as frutas do vizinho era seguida de muita correria. Nem sempre isso era só molecagem. Tinha vezes que o pular da cerca era acompanhada de mesa vazia, da perda de colheita, mas isso não entrava no causo. Estava tudo escondido por trás do riso.

De uma outra roça eu vim, de outras histórias, mas aquelas de meu avô me mostraram como narrar é revelar valores, aquilo que se acredita, aquilo que se preza.

Poucos foram os causos em que meu avô contava das vezes que correu atrás de crianças que pegavam frutas no seu pomar, porque ele queria sempre ser a criança que corria.

O causo tem o poder de narrar vontades expor realidades. Como narrativa, atenta-se não só para o que se conta, mas, como se conta e para quem se conta.

E meu avô sabia escolher o causo.

Se estava chovendo, era dia de contar sobre as goteiras e o vendaval. Se era dia quente, ele falava sobre o banho no riacho. E se ele sabia que eu estava desinteressada e cansada, era o causo do dia em que ele e os irmãos entraram dentro de uma carcaça de vaca morta. Essa história tem tantos detalhes, que me desperta na mesma hora. E ele sabe disso.

O causo tem seu próprio tempo para acontecer. Às vezes ele vem por um pedido do ouvinte. Foi assim que meu avô me contou a história da cadeira vermelha. É uma cadeira da casa de meu avô que gosto muito, de tinta já desgastada. Em algumas partes é possível ver a madeira nua. Ela não é tão firme, nem tão confortável, mas, é A Cadeira Vermelha de meus avós.

Meu apreço era tão grande que já tinha um causo gravado na memória, criado por um intenso desejo de corporificar a existência de minha avó nela. As memórias da paciente de Alzheimer aos poucos sumiam, e a cadeira as abraçava. Era uma cadeira que veio de gerações, que veio com os poucos móveis do norte do Estado do Espírito Santo. Caminhou quilômetros, as pernas ficaram bambas, mas ela resistiu. Agora acolhe minha mãe, a alimentar minha vó na poltrona confortável. Um dia será meu corpo que acomodará. Meio bamba, mas a resistir com seu vermelho descascado.

Era este o causo que eu esperava, do retirante, da resistência, do acolhimento. Quando, finalmente, chegou o dia de meu avô me contar a origem da Cadeira Vermelha, entendi o que era um causo:

— Ôh, mas essa cadeira nem velha é! Tá capenga, mais velha, na família, num é. Não sei que causo contar de algo que veio da rua. Eu só tava na janela, espiando o moço da mandioca. Já tava desconfiado que ele escondia as bicha nova e me dava a mais dura e aguada. Vi daqui de cima que era isso memo. Vê só, acha que sô besta. Ele tava dando as mandioca véia pra vizinha! Desci pra comprar e pegar umas novas pra ela. Aí que quando ia subir, vi a cadeira vermelha na rua. Olhei pros lados, não entendi. Perguntei pra dona Marlene e ela disse a cadeira tava ruim, se abestava a bambar e a filha dela disse que era um perigo. A pobre cadeira foi despejada! Aí eu perguntei ‘mas, a sinhora liga se eu levar ela pra casa?’, oxi que não, ela me deu a cadeira. Tava no lixo, mais era melhó perguntar. Vai que a danada fica nova e alguém fica sabendo e acha ruim. Então que trouxe pra casa. Dei uma lavada, pra tirar as lasquinha de tinta. Taquei um taquinho de madeira na parte de trás, pra segurar a bambeira e, pronto, tava formosa. Agora ela tá capengando de novo, mais, ainda dá um caldo! Senta aqui pra vê!.

Como eu imagino uma pessoa que não é dos causos contando a história:

— Essa cadeira eu peguei na rua. Tava no lixo. Limpei, ajeitei as pernas e ficou boa.

Um contar que não mostra um passado de poucas cadeiras, o medo do conflito de se recuperar um objeto para depois perdê-lo, nem o zelo pelo outro, pela comunidade.

A Cadeira Vermelha, por mais que não seja aquela de minha memória, passada por gerações em minha família, é a marca de que um causo comunica mais que um fato. Fala de uma cultura, de um hábito, fala de um querer pelo outro e pelo riso.

Começo a compreender e querer mais do riso frouxo. E, quem sabe, começar a criar uns causos.

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