[conto] Começou com uma lagarta

Imagem de capa. Conto. Fora da linha. Fotografia.

Quando apareci distante. Rodrigo Hipólito. Fotografia digital, 2014.

Texto de Rodrigo Hipólito

Eu o observei acordar pela última vez. Puta merda! O desgraçado era bonito pra caralho! Ele sempre acordava depois que eu abria a janela. O vento balançava as cortinas verdes e o tecido roçava no seu rosto. Ele que insistiu pra colocar aquelas cortinas no quarto e por conta disso eu acordava primeiro. O sol batia naquela porra daquele pano e parecia um refletor com cor de marca-texto. Como não acordar com dor de cabeça? Confesso que dava um prazerzinho quando ele abria os olhos assustado com o pano batendo na cara. Naquele dia, quem ficou assustado fui eu. Eu detesto inseto.

A gente tava de conchinha e eu vi uma coisa amarela brilhando e se contorcendo perto da orelha dele. Era a porcaria de uma lagarta do tamanho de um mindinho inchado. Ela tava tão perto do meu rosto que entrava e saía de foco. Os anéis rechonchudos brilharam quando ela se retraiu e se esticou pra dentro do ouvido dele.

Acordei de vez, afastei a cabeça e prendi o ar. Com certeza eu tinha sonhado. Como ele ia continuar dormindo se um bicho daquele tamanho tivesse entrado no ouvido? Quando eu era criança, uma aranha caiu do teto de telha colonial e se enfiou no ouvido da minha mãe. A velha parecia que ia arrancar a cabeça fora! A enfermeira do posto tirou o bicho injetando água com uma seringa sem agulha. Nunca mais dormi com a cabeça descoberta.

Depois de me acalmar, abri a janela pra ele acordar. Quando o dia nasce pra ser ruim, a merda só cresce. Achei que algum vizinho pé-no-saco tava inventando moda. Deviam ser a república do segundo andar. Era uma fumaceira lilás como se tivessem acendido um sinalizador. Fechei a janela. Ele já tinha acordado, sorria e se espreguiçava.

Eu dei beijo de bom dia, na testa, na bochecha, no nariz. Abaixei a cabeça sobre seu peito e fiquei olhando a barriga subir e descer. Queria controlar a taquicardia pra descontar. Com o tempo, a gente aprende quando tá irritado com o mundo e não com quem a gente ama. A diferença não muito grande e é fácil transformar em alvo quem tá todo dia com você, desprotegido e relaxado. Felizmente, ele se levantava rápido, porque era impossível sustentar uma cena romântica naquele inferno fluorescente.

Foi durante o banho que eu notei que o dia seria bem mais estranho. O chuveiro tava no frio, mas a água tava pelando! Até aí, tudo bem. Só que, quando eu fui abrir o basculante, eu quase cai pra trás. Tinha um enxame de moscas se amontoando do lado de fora. Centenas? Milhares? Aquilo devia fazer um zumbido horrível. Como é que ele foi ao banheiro antes e não ouviu nada? E não era mosquinha não! Eram umas varejeiras azul elétrico maiores que grão-de-bico.

Eu devo ter gritado, pois quando sai do banheiro, ele colocou os pratos sobre a mesinha da cozinha e perguntou se tava tudo bem. Deixei pra lá. Preguiça de explicar. Além disso, era só na janela do banheiro e as outras tavam fechadas. As faixas coloridas de fumaça deviam ser pra espantar as moscas.

Quando cheguei na cozinha, ele já tinha servido meu café no copo. A gente só tinha um copo americano em casa. Ele tinha comprado no dia em que eu me mudei pra lá. Logo quando a gente se conheceu, eu comentei que só tomava café em copo americano. Cinco anos depois, ele ainda se lembrava.

Eu apontei para os olhos dele, que lacrimejavam e ele não parava de coçar. Se fosse conjuntivite eu já tinha pegado! Mas o vermelho era diferente, mais vivo e invadia as pálpebras. Eu não me lembrava de ele ter alergia. Além do quê, só tinha café, pão e manteiga na mesa.

Eu me lembrei da lagarta. Não foi sonho. Eu deveria ter falado. Mas ele iria acreditar? Eu iria acreditar?

Ele largou a caneca com todo o cuidado sobre o porta-copos bordadinho que eu fiz de presente de aniversário. Nunca vi alguém cuidar tão bem de um porta-copos. Mas, o cuidado acabou aí.

A faca cheia de manteiga caiu no chão. Ele apontou pro peito e pra garganta e tentou explicar que tava sem ar. Os gestos engolidos pelo desespero. Ele tremia e as veias brotavam no pescoço e na testa. Uma baba roxa ou púrpura escorria do canto da boca e ele saiu correndo pra sala. Eu fui atrás e tentei segurar. Ele batia no peito e apertava a garganta. Eu abri a janela e me virei pra pegar o celular, as chaves e ir bater na porta da vizinha. Só que ele puxou meu braço.

Seus olhos tomados de vermelho e seus lábios quase pretos brilhavam com aquele líquido que escorria até o pescoço. Ele fez questão de me olhar.

A parte de trás da cabeça se abriu como um balão de festa estourando em câmera lenta. O rosto tombou em direção ao queixo e uma nuvem de pó turquesa cobriu tudo.  Eu senti a mão dele me soltar e o corpo descer pesado. Quando o vento puxou a nuvem de pó, eu já tinha me afastado e estava grudado na parede. Eu chorei? Não sei. Olhei pra baixo numa reposta involuntária. O corpo dele dava uns tremores, apoiado nos joelhos e com o rosto no chão. Não havia sangue. Foi tudo reparei antes de notar o movimento do bicho.

As asas cresceram e se abriram, cada uma do tamanho de um prato, amarelonas com manchas púrpuras e verdes. Era como ver uma dobradura de papel ganhando vida. As patas se esticaram, as antenas se desenrolaram, a cabeça retilínea girou, encaixada no corpo liso e, com um balanço do abdômen peludo, a borboleta voou.

Eu demorei um tempo com o olhar perdido sobre o corpo dele. Mas, eu não me abaixei, eu não gritei e não o abracei aos prantos. Lá fora, a fumaça colorida aumentava. Aquela não foi a única cabeça que explodiu naquele dia.

 

*Este texto foi pensando como uma ficção relâmpago, para uma chamada de trabalhos da newsletter Faísca. Não foi aprovado, mas deve virar outras coisas.

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