[crônica] A vida de um bicho do mato

Crônica. Fotografia de arquivo.

Imagem de capa. Retrato de infância de Fabiana Pedroni. Fotografia de arquivo, 1993.

Texto de Fabiana Pedroni

“Criança bicho do mato”, era como meu pai me chamava. Queria que fosse um elogio. Era pra ser, mas não era. Ser chamada de bicho do mato significava correr como quem corre atrás da caça, ser ligeira e se esconder a cada barulho desconhecido.

E não deixava de ser verdade. No caminho pra escola, cada gente que passava, eu me escondia no matagal. Podia estar de carro, de cavalo, de burro ou a pé. Eu me atirava no mato e dali não saía até estar novamente sozinha, o mato e eu. Anos depois, soube que eu não era assim tão ligeira. “Seu Jorge, sua fia tava no mato de novo, seu Jorge!”. Achava que o povo era sorridente, mas estavam apenas rindo daquele cisco de gente que eu era.

Não consigo mensurar o quanto essa expressão “bicho do mato” me afetou. Mas, sei que quando fui morar na capital, eu não dizia muito sobre minha infância para os colegas da escola. Apesar de sempre sentir falta do mato, do quentinho do fogão a lenha, do sentar na soleira da porta e ver a roupa estendida no varal balançar com o vento… Eu fingia que esquecia. Não falava sobre minhas origens.

Omitia, para mim mesma, que eu queria ouvir o canto da viola caipira, que um “r” queria insistir entre algumas palavras.

Mas, por que omitia? Por que a vergonha em dizer que era da roça e à roça pertencia, mesmo quando pisava em chão de asfalto?

Os debates sobre feminismo, os debates sobre negritude e sobre questões de gênero foram os responsáveis por eu compreender que “bicho do mato” era uma ofensa e uma ameaça. Essas pautas foram de extrema importância para  que eu questionasse, um questionar de tudo. TUDO!

Chamar uma criança de “bicho do mato” era ofensa, era afirmar um discurso dominante, que colocava a criança como ser alinhado, bem vestido, cheio das gramáticas e comunicativo. Tudo o que eu jamais conseguiria ser enquanto corria descalço com lama pra mais de três metros!

Comecei a me questionar por que, durante muito tempo de minha vida, eu não dizia que era do interior. Em que momento comecei a me punir e não ouvir a música que queria ouvir, comer a comida que queria comer, a sotaquear o que queria dizer?

Não sei quando isso começou, mas sei que terminou.

É gostoso demais sentir a mudança e entender que o passado não deve ser romantizado.

Foi depois de uns tapas e um arrastão seguido de “sai daí, bicho do mato”, que entendi que ser do mato, ser caipira, não pode ser uma ofensa. É como dizer “Ô seu ser humano de cultura caipira!”. Sim, isso mesmo, é uma afirmação óbvia de que caipira é um termo que inclui uma cultura complexa e múltipla.

Esse pensamento não teria se concretizado sem tantas lutas e debates de resistência dos quais tenho me aproximado.

A live com o Rodrigo Retka, no canal Arte de Segunda, no Youtube, foi uma concretização de tudo aquilo que tenho pensado sobre a importância da memória, dos causos, das origens e, principalmente, de questionar sem idealizar o passado.

 

Os encontros fazem isso com a gente: sacodem nosso chão. Não adianta achar que você conseguirá manter os pés no chão, como uma garantia de estabilidade. O chão não é estável, e é bom que não o seja.

Isso quem me mostrou foi o podcast Cinem(ação). Numa conversa sobre o filme O Auto da Compadecida, me vi como aquela que ainda carregava percepções estereotipadas do outro, como se o outro fosse um distante desconexo. Eu me aproximei do Auto e descobri que precisava pensar ainda mais sobre linguagem, sobre origens. E o causo, certamente, continua.

O modo como sofremos…

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2 pensamentos sobre “[crônica] A vida de um bicho do mato

  1. Comigo foi exatamente o contrário, por eu ter nascido em São Paulo e ter crescido em uma cidade do interior. Eu era o “caipira da cidade”. E durante um bom tempo, quando eu voltava a São Paulo, eu tive o sotaque misturado. Não era nem inteiro da cidade nem da roça. E foi fundamental pra que eu entendesse as duas culturas e visse como ambas são bonitas. Falta empatia para entender a cultura do outro. E amor pra não esconder a própria cultura. Gostei do texto, e vou ouvir o podcast!

    • [Fabiana Pedroni] Eu nasci na capital, mas pouco recordo dela. Fui criada na roça, depois voltei para a capital do ES. Nas brincadeiras e na escola, não era o “caipira da cidade”, mas, assim pensavam de meus pais. Como se sempre fossem estrangeiros no próprio lar. Nunca existe uma só cultura, mesmo dentro de nós. Seu comentário me fez lembrar dessas tensões e como é importante reconhecermos o desafio. Nem só lá, nem só cá, mas lá e cá. ❤ que bom que gostou do texto, espero que se divirta com o podcast!

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