[transcrição] Como não ser cruel com você

Morro de terra e serração. Fabiana Pedroni. Ilustração. Aquarela sobre papel, 2020.

 

Este texto é a transcrição do podcast Não Pod Chorar 18

Texto de  Fabiana Pedroni

 

“Tem dias que a gente se sente
Um pouco, talvez, menos gente
Um dia daqueles sem graça
De chuva cair na vidraça
Um dia qualquer sem pensar
Sentindo o futuro no ar
O ar, carregado, sutil
Um dia de maio ou abril
Sem qualquer amigo do lado
Sozinho, em silêncio, calado
Com uma pergunta na alma
Por que nessa tarde tão calma
O tempo parece parado?

[…]

Está em qualquer profecia
Que o mundo se acaba um dia
Um dia.” Raul Seixas.

 

Nas últimas semanas, por várias manhãs, eu acordei com essa música na cabeça. Acordava e ouvia minha voz a dizer que é normal, Tem dias que a gente se sente um pouco, talvez, menos gente. Acordo com a sensação de que estou sentada na beira da calçada, numa rua conhecida e vazia, estou sentada e, mesmo sem poder fazer nada, continuo a riscar itens concluídos da minha agenda.

Se sentir menos gente… A moça que programa, gera códigos todo dia, mas ela se sente menos programadora; a moça que escreve palavras fantásticas, se sente menos autora; a professora que educa, se sente cada vez menos educadora; o artista se sente menos cantor a cada palavra cantada… É uma farsa o que estamos fazendo?

Não dá pra negar a dificuldade gigantesca em compor um texto que virará podcast para resmungar sobre algo no spin off do Não Pod Chorar. Praticamente um mês e nada saia de mim, simplesmente porque me sinto menos podcaster a cada dia que a pandemia avança sobre nós. Me irrito, provavelmente como muitos de vocês quando alguém diz que precisamos de mais leveza, que vai ficar tudo bem, a vida não pode parar, vai ter ENEM, foca no seu projeto de vida, no seu futuro. Estamos enlouquecendo.

Desde quando vida virou um projeto?! Eu entendo que há aspectos da vida que precisam ser planejados, organizados, como guardar documentos que possam lhe garantir uma aposentadoria, mas, a expressão “projeto de vida” não é isso o que quer dizer. É você reduzir sua experiência com o mundo, frase tão poética, à uma descrição de etapas a serem cumpridas dentro do empreendimento vida. Faz-se um esquema, delineasse fases, atividades e marcos a serem alcançados.

Vá lá, diga para sua avó que te liga toda preocupada e com saudades, pra saber se você está bem e responda “Sim, vó, estou executando a fase 3 do meu plano de gerenciamento de projeto vida. Tive alguns contratempos com a pandemia, mas graças à gestão de crises, as atividades estão mantidas e executadas regularmente”. Mentira! E se estão, não entendo bem por que você é ouvinte deste podcast [e leitor do Nota Manuscrita] e que ideais de vida você assume diante da morte de milhares de pessoas para continuar inabalável.

Estamos abalados, estamos aos prantos, engasgados, estressados, estamos sobrecarregados. Um novo mundo se abriu diante de nós. E esse novo mundo não é um mundo maravilhoso e belo, como uma grande novidade fantástica e esperada, por mais que na verdade os cientistas já esperavam um desfecho como este na narrativa, mas quem são os cientistas, pra que servem, não é?

Esse novo quer dizer que há novas exigências, uma mudança de paradigma, como alguns dizem. Porém, estamos num limbo entre as novas necessidades para sobrevivência e as velhas normativas, inadequadas de um plano falido. Falido, mas ainda muito lucrativo para poucos. Essa não é nem a primeira, nem a última pandemia que a humanidade viverá, porém, essa é a primeira que eu e você vivemos. Falamos aqui de vivência intensa de uma pandemia, porque passamos quase desapercebidamente por outra, a gripe suína, causada pelo vírus H1N1, de 2009. Não só foi menor a quantidade de mortos como também o impacto nesse “projeto vida”. A pandemia de covid-19 nos mostrou algo com um belo tapa na cara: o mundo é desigual e o ser humano pode ser podre.

Talvez você, assim como eu, tenha chorado na última eleição, e continue a chorar toda vez que buzinam na sua porta dizendo para irmos para a rua. Se isso é ser gente, eu me sinto um pouco menos gente.

Às vezes mordo a orelha do Chewie, meu cachorro, e ele não entende minha necessidade de ser menos gente. Fico em dúvida se passo hidratante nos pés ou se jogo adubo pra tentar me fortalecer e criar brotos, porque todas as vias humanas estão falhando.

O tapa que a pandemia nos deu foi certeiro: mostrou o pior do ser humano em um sistema desigual. Fomos atingidos de modos diferentes, de acordo com o poder de capital, a cor da pele e o gênero daquele que sofre. Uma busca por igualdade de direitos nunca se tornou tão clara e necessária. E no meio disso tudo, vem a porcaria do ódio, porque há muitos sem poder aquisitivo que continuam a defender um governo ilegítimo. Isso parte o coração, tira as energias e me faz sentir menos podcaster quando fujo da responsabilidade de criar conteúdo. Porque é, sim, uma grande responsabilidade.

O que você tem feito no seu dia a dia para amenizar o sofrimento? Perceba que não estou perguntando como você ignora ou finge que não existe um problema. Você está sofrendo e, mesmo que use mil recursos, seu corpo por inteiro está a tremer com a pandemia. Para escrever este texto, demorei quase um mês a fugir, porque o Não Pod Chorar faz isso, de confrontar sentimentos e ranços. Não sei se tenho equilíbrio emocional para assumir a responsabilidade de trazer à tona um problema a ser discutido. Enquanto escrevo, parei, a cada parágrafo, para jogar uma partida de um joguinho bem legal chamado Brawl Stars. E, ainda assim, enquanto jogo penso no quão privilegiada sou por ter um celular, de trabalhar em casa, e quantos dos meus alunos não tem acesso à internet de casa, que usavam o computador do trabalho para estudarem. Eu trabalho em Ensino a Distância, aquilo que estão achando ser a salvação para a pandemia na área da educação. Eles, que assim acham, no plural, forma uma entidade absurda e desumana. Até isso é difícil de lidar. Como improvisar um novo mundo?

Mas eu consumo, consumo vídeos no youtube, consumo música, consumo podcast, consumo livros, ou pelo menos contos breves que não exijam tanto da minha atenção, consumo jogos, filmes… E daí vem a responsabilidade, eu produzo algo que vão consumir.

Estar abalada pela pandemia é extremamente justificável, ter dificuldades em organizar as ideias, em fazer uma gravação, em articular a fala depois de tanto tempo do dia em silêncio solitário… mas isso não me faz menos podcaster. E eu preciso me lembra disso a todo instante.

Esse sofrimento e paralisia não te faz menos autora, não te faz menos contadora, não te faz menos cientistas, menos encanadora, menos padeira, menos – insira aqui qualquer outra profissão. Isso lhe faz mais humana. Não deveríamos nos sentir um lixo por isso. Mas, nos sentimos, sabe por quê? Porque o sistema baseado em geração de lucros te disse que não se pode parar.

E não vamos, não vamos parar porque ainda dependemos desse sistema que usa o dinheiro como sua base. Precisamos por pão na nossa mesa, como se diz, ainda mais num país em que o governo nos sabota na luta pela sobrevivência. Essa é uma realidade. Mas, não é essa realidade massacrante que tem imobilizado muitos de nós. É o peso da utilidade gritando mais alto. Para que vou escrever? Para que vou cantar? Para que vou compor? Para que vou dar aulas? Para que vou criar um design de uma cadeira? Para que vou corrigir um erro no site que vende máquinas que embalam pasta de dente? Qual o sentido de sua vida em tempos de pandemia? É a pergunta que nos paralisa.

O prazer em produzir entrou em conflito com a obrigação em ser produtivo. E uma vez mais o detalhe do dia é o que nos mantém vivos. O detalhe coloca, como disse o historiador da arte, Didi-Huberman,  uma questão importante, a de onde olhar. O detalhe faz uma referência profunda ao todo, ao invés de fragmentá-lo. É pelo detalhe que sentimos o todo.

Quando, depois de muitos anos me encontro na cozinha, a assar um pão caseiro com minha mãe, me agarro a esse sopro de fazer algo gostoso, que me alimenta, e ao mesmo tempo me dá esperanças de ainda conseguir dar corpo a alguma coisa, mesmo, que na verdade, esta ação me coloque diante da minha impossibilidade de ir à padaria. Porque se eu saio de casa, tenho de assumir a responsabilidades sobre as vidas que ponho em risco. Quando parto esse pão pela manhã e sento-me na varanda para tomar café, em busca de um ar fresco, me coloco na frente de várias pessoas que andam nas ruas sem máscaras. Despreocupadas e irresponsáveis sem amontoam como a provocar minha sanidade. As perguntas mais filosóficas de por que vivemos, para que vivemos, se resumem a um pequeno detalhe que significa estar vivo pelo momento.

E é nesse momento, nesse detalhe, que você não se torna menos autora, menos educadora, menos podcaster porque não consegue trabalhar como antes. A vida não é como antes.

Estamos sobrecarregados por tentar dar conta de duas realidades distintas: um antes e um durante a pandemia. Esse conflito me faz rir quando uma professora envia uma mensagem no grupo a dar graças por receber uma prova com questões em branco. Outros professores, eu, inclusive, fico ansiosa e com vontade de encontrar várias provas assim, para não ter que passar mais tempo a corrigir questões dissertativas.

É terrível assumir esse lado desumano, porque quando rio e espero que as provas todas estejam em branco, na verdade, estou esquecendo que por traz daquele formulário digital está uma aluna, ou aluno, que não conseguiram responder à uma pergunta. Muitos não conseguem responder, não conseguem superar o analfabetismo funcional, são o resultado de uma educação problemática e eu, fico feliz, por um pequeno instante com essa resposta em branco. Me sinto menos gente, menos educadora, mas, na verdade, me sinto mais humana, porque admito que, como o aluno que não consegue escrever, eu não consigo ler, nem corrigir.

Ora afirmo que somos o que trabalhamos, ora caio em contradição, porque é assim que sinto. Um vai e vem de tentativa de manter-se são.

Quando nos demos conta dessa contradição no grupo dos professores, o clima pesou, respiramos, e voltamos às correções, para dar resposta àqueles que estão com muita força resistindo, não por heroísmo, mas por necessidade. Você pode achar que o que você faz é sem importância, mas acredite, não é, não mesmo!

Já gravamos vários episódios do Não Pod Chorar que pra mim se tornaram relevantes atualmente, sobre cansaço, produtividade, frescura, trabalho, desigualdade, preconceito, tantos assuntos que se misturam com a importância de existirmos sem sermos devorados pela realidade.

Se você, assim como eu, começou a semana sem saber por que ela começou, se você se sentiu menos gente, um inútil, uma mentira, não faça isso consigo. Não se sabote.

Se você puder dizer que conseguiu fazer uma mínima ação, por mais banal que seja, ela já é seu detalhe, ela já é mais do que se espera em meio à uma crise como esta. Não se cobre, não se culpe, não se desespere. Não vou trazer esperanças, nem promessas vazias, só vou te dizer que você é importante para você.

Se você, assim como eu, está com um nó na garganta, que expulsa lágrimas quentes do seu corpo, te digo que é porque você entendeu o quanto é importante para si mesmo. Você entendeu que essa dor que está sentindo é humana e eu agradeço por ela. Mas essa dor não pode te destruir, nem te fortalecer, como nas histórias fajutas de heróis. Você não deve receber esse agradecimento como um agrado. Essa dor vai permanecer enquanto não soubermos lidar com essa nova realidade. Agradeço sua dor, porque assim podemos reconhecer que estamos juntos. Isso parece brega, eu sei.

E essa situação pode durar anos. O quanto você conhece de si para saber lidar com o pânico, o que você pode fazer por si a cada momento em que lhe falta ar? Cada um terá uma resposta. E todas elas serão acompanhadas do seguinte pensamento “não seja cruel com você mesmo”.

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