[crônica] Técnicas para acreditar

Borboleta morta. Uma morte de uso gratuito por https://pixabay.com/

Texto de  Fabiana Pedroni

Inspire! Puxe forte todo o ar que conseguir, até que as borboletas voem do estômago para o coração. É o modo mais simples de aumentar o tesão na vida.

Foi a resposta que Nori acabara de me dar, à 1h da manhã do dia de hoje.

Sentadas na varanda, observando o vento e as luzes de natal, não me restava mais nada além de chorar. Finalmente a rua estava vazia. Minto, havia ainda dois homens que vigiavam um quiosque na reta final de construção. Vigiavam para que ninguém roubasse cadeiras de plástico ou cimento. Vigiavam, porque a pandemia não existe para todos.

A resposta de Nori me fez notar, ainda com maior nitidez, a existência daqueles dois homens. Eles se expunham para proteger os bens de outro. São vítimas de uma situação muito mais complexa, que os coloca como vilões. E neste jogo, apenas me desinteressei pelo futuro.

Como se faz para voltar a se importar pelo futuro? foi a esta pergunta que Nori me respondeu. Para ela, parecia simples aumentar o tesão na vida. Para mim, eram palavras distantes. Borboletas, eu só as via em livros infantis ou memórias de infância. Para trazer do estômago, virariam vômito jogado ao chão. Não havia caminho para o coração que não passasse através da ânsia de vômito.

Fiquei em silêncio novamente. Esqueci dos homens sem máscara e vi minhas plantas da varanda. Há meses as ignoro. Rego uma vez por semana. Apenas o mínimo. Elas estão morrendo.

Mas, as borboletas já morreram. Elas me deixaram há algumas semanas. Talvez por isso as plantas estejam morrendo.

As plantas morrem porque você apenas espera a morte delas.

Sim. Continuo a observar os fungos a se espalharem. Você viu, Nori? A cidreira que era apenas um toco seco voltou à vida para agora morrer de um jeito tão sem graça. Achei que a culpa seria da bromélia ao lado, mas, o fungo que ela pegou abriu espaço para os pulgões. Acho que será assim a sua morte. Deve faltar pouco.

O remédio está na despensa. Comprado há dias.

Sim, está.

Continuo a observar o vento nas folhas murchas. Amanhã precisarei regá-las. Precisarei estender um pouco mais este tempo da espera.

Nori, quando foi que paramos de acreditar? pergunto, como quem coloca a última questão, já cansada de conversar. Ela parece entender o tom retórico da voz e o leve movimento de meu corpo, um sinal para se levantar e ir dormir. Ela insiste numa resposta. Ela quer sempre ter a última palavra.

Você ainda acredita. Se não acreditasse, não esperaria respostas de um cachorro, enquanto chora disse ela, com um leve sorriso, enquanto meu corpo já estava quase de pé para deixar essa dor pra lá.

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