[crônica] Um pássaro voou para dentro de mim

Imagem de capa. Koen Vanmechelen. The Cosmopolitan Chicken. Crônica

Imagem de capa. Koen Vanmechelen, The Cosmopolitan Chicken, 1999-. Um galo e uma galinha em primeiro plano, olhando para a câmera, com fotografias de outros galos e galinhas organizados na parede branca ao fundo como uma árvore genealógica.

Texto de Fabiana Pedroni

São raros os momentos de total concentração. São tantas informações que nos atravessam que não sei se estou dispersa com tudo ou concentrada em tudo. Recentemente, mudei minha mesa de trabalho para ficar próxima da janela. Saí do escritório compartilhado e me isolei, porque, segundo eu mesma, trabalho melhor quando estou sozinha. Ainda de acordo com esta importante teórica da concentração dispersa, olhar para o mundo, como observadora, faz a escrita voar mais ligeira.

Depois de um árduo estudo comparativo entre o posicionamento dos andares e a iluminação solar, conclui que o 4º andar do meu prédio tem a melhor iluminação para plantas de meia sombra. Nesse estudo, tive que fazer a catalogação das plantas de todas as varadas visíveis. Noutro momento, anotei padrões de abertura e fechamento de janelas, que será base importante pra compreender o padrão de voo das cortinas brancas pelas paredes externas e o nível de sujidade captado. Hoje foi dia de notar os posicionamentos dramático e estético de bicicletas nas varandas, além do desmanche revolucionário de uma bicicleta rosa por uma menina (um nítido ato contra o patriarcado).

Tudo isso flutua, lá fora, com a minha escrita.

O elemento mais característico de escritas de janela é que elas desmancham na chuva. Úteis como cristalização de sal de maresia, são passageiras. Você não percebe que elas foram escritas.

A roupa que quara no sol, o lençol que, por pouco, não voa com os pregadores traiçoeiros, a espuma sobre a grama. Tudo isso está lá fora, contido na imagem de um varal de teto aprisionado numa área de serviço de poucos metros.

Como seria ter galinhas na varanda? Aquele varalzinho super dava um bom poleiro. Se bem que a hierarquia seria difícil de se manter. Não basta estar suspenso, o poleiro precisa de degraus para que as galinhas expressem sua organização social. As mais poderosas no alto, as mais fracas, subjugadas. Elas ficam deprimidas sem a hierarquia. A saúde delas implica hierarquias de poder.

Esses prédios são tão altos.

Tenho saudades de Luana. Ela era uma galinha preta de pescoço pelado super carinhosa. Ela sempre me esperava voltar da escola. Tirávamos uma soneca na varanda, principalmente em dias ensolarados e de leve vento. Luana não estava nem aí pra hierarquia. Talvez ela fosse uma galinha de classe mais baixa, que expressava sua discordância de um jeito muito interessante.

Assim que Luana observava a movimentação de entrada no galinheiro, ela se posicionava na porta. Era comum todas as galinhas subalternas entrarem primeiro e ficarem um tempo na areia e pó de serra do chão. Elas criavam certa multidão para acompanhar a subida aos poleiros. Afinal, de que adiantaria subir até o último se ninguém fosse assistir?

Sempre tive a impressão de que Luana pensava muito sobre isso. Ela esperava todas entrarem. Quando a última penosa da realeza entrava, Luana passava correndo por todo o galinheiro e subia toda desengonçada até o último degrau do poleiro. Depois de uma breve pausa dramática, ela se virava e saltava de asas abertas, de volta ao chão,  onde dormia tranquilamente.

Eu só fechava o galinheiro depois do salto de Luana. Mais do que apenas dormir no poleiro mais baixo, ela circulava por todos, sem permanecer. No começo, eu achava que ela seria solitária. Mas, nunca pareceu se queixar disso.

Já deve ter mais de 25 anos que Luana morreu e ainda penso sobre o salto. Hoje, em especial, enquanto olho a organização das varandas de acordo com o andar do apartamento, Luana parece tão viva. Hoje, em especial, quando a frase “Um pássaro voou para dentro de mim” me foi dita por mim mesma, Luana fez tanto sentido.

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