[crônica] A criadora de lembranças

Fotografia. Fabiana Pedroni. Mar. Horizonte.

[“direção única” ou “presente de insônia]. Fabiana Pedroni. Fotografia. 21.11.2012. Horizonte com nascer do sol. Nuvens alaranjadas tomam a maior parte da imagem, com tons mais claros ao centro. Uma linha de nuvens mais escuras divide a imagem de lado a lado, próxima da parte inferior. O mar, na parte baixa da imagem, aparece em reflexos alaranjados, com a silhueta de navios na linha do horizonte. A imagem termina com uma faixa preta.

A primeira versão deste texto foi escrita como apresentação dos processos criativos da mostra Chronologia Kairológica. A versão atual foi editada e complementada, de modo a relacionar pensamos e memórias de 2012 com 2021.

Texto de Fabiana Pedroni

“Quando eu for embora, vou sentir saudades do mar”.

Foi dessa sensação futura que criei certa obsessão pelo registro. Por relatos anteriores, criei uma memória de saudades em tempos de espera. Ainda não havia deixado o mar e mudado-me para São Paulo. Ainda assim, todos os dias, eu criava uma lembrança a partir da observação das ondas e do encontro céu-água. Eu criava aquelas lembravas para que, quando estivesse longe, pudesse me lembrar das sensações-imagens.

E então eu o fotografei. Eu vigiei o mar semana após semana, até o dia anterior à minha mudança. Agora, num momento quase presente, iço aquelas lembranças por um fio poroso, aberto às interferências.

Lembro-me da primeira foto tirada, mas acrescento a ela uma romantização de origem. Foi num momento de insônia, atenta ao clarão do amanhecer. Vestida em longo traje púrpura, com cabelos soltos, tocados pelo vento, a mão trêmula encontrava, no parapeito da varanda, o apoio necessário para a criação do registro fotográfico único. Matéria que, apossada, constituiria a síntese de tudo o que pudesse vir a sentir de saudade – do o mar, das pessoas e dos grãos.

Esse dia passado existiu, como os outros dias. A foto foi tirada, mas a lembrança, criada e rememorada tantas vezes, se perdeu em detalhes impossíveis de se comprovar.

A obsessão em contar o tempo, em preencher a ansiedade pela mudança com registros de resgate, tornou possível a existência contínua de um passado; de um tempo contado como uma memória imaginada.

Dessa romantização da espera passada, eu não imaginei que a próxima seria tão cruel. O mar que me despertava saudades era, então, o indicador de desesperança. Enquanto muitos caiam mortos, o mar estava ali, pleno, acolhendo os assassinos sorridentes. Aglomerados, quentes na pele e no toque.

Eu poderia gritar. Eu até gritaria.

Então, comecei a observar e registrar outra saudade. Cada centímetro de terra inabitada, virou um paraíso. A batata-doce começou a crescer. As formigas a atacaram. Da terra vieram novos brotos. Os pássaros voltaram. Eles sabiam que eu estaria ali para registrar a sua cantoria.

Não tenho mais um longo traje púrpura, nem cabelos soltos ao vento. O chapéu me protege na capina, a galocha de borracha acolhe o pé cansado e encardido de terra. Planto. Observo o crescimento e não desanimo, mesmo quando sei que, possivelmente, não verei alguns frutos.

Fotografias. Plantação. Crônica. Memória.

Três fotografias. À esquerda, mulher branca, de camisa, calças e galochas, abaixa-se para plantar uma muda, no meio do mato alto, acompanhada de cachorro caramelo peludo e de porte médio e de pinscher preta. À direta e acima, flor de pétalas com pontas brancas e centro roxo e amarelo. À direta, no canto inferior, flores arroxeadas em jardim, observadas pelo mesmo cachorro da primeira foto, com gramado e parede branca de casa ao fundo.

A romantização não teve espaço. A pausa pode trazer um respiro de vento gelado. Eu sei que, em seguida, a luta continua. O fluxo de vida é intenso e difícil. As plantas morrem de sede se a água falta. As formigas devoram tudo se o solo se desequilibra. E essa é a observação mais justa que eu poderia fazer, num momento em que espero um tempo sem esperas.

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