[transcrição] Como não perder o direito de reclamar

Imagem de capa. Podcast. Arte e Política. Tessa Thompson.

Tessa Thompson, como Detroit, no filme Sorry to bother you. Dirigido por Boots Riley, 2018. Mulher negra sorrindo, com brincos feitos com as seguintes frases: Tell homeland security, na orelha direita, e We are the bomb, na orelha esquerda.

Transcrição do podcast Não Pod Chorar 26: Como não perder o direito de reclamar

Texto de Rodrigo Hipólito.

Quando a gente começou a gravar esses episódios do Não Pod Chorar, a ideia não era tanto contar histórias tristes ou fazer as pessoas chorarem enquanto escutam.

A palavra chorar era mais uma brincadeira com o sentido de reclamação. Na ideia inicial, a gente gravaria algumas reclamações sobre situações que vivenciamos faz tempo ou que aconteceram recentemente e a coisa toda terminaria com o tom um pouco mais bem-humorado.

De certo modo, o Não Pod Chorar cumpriria a função de desafogar pensamentos que não cabiam no formato dos episódios de temporada. Nesse meio tempo… bom, nesse meio tempo a vida aconteceu e vocês sabem muito bem o estado em que o mundo se encontra hoje.

A realidade se tornou trágica o suficiente pra que as reclamações se tornassem exercícios mais íntimos, mais densos e com os quais muita gente tem motivos suficientes pra se identificar.

Os episódios gravados pela Fabiana, aliás, costumam fazer com que as pessoas chorem literalmente. Já no caso dos episódios que eu gravo… Bom… eu tenho uma tendência forte pra direcionar a maioria dos meus sentimentos negativos pra raiva. Eu sei que nem sempre isso é positivo.

Mas, honestamente, do jeito que as coisas tem andado, eu prefiro alimentar essa tendência.

Acontece que sentimentos como tristeza, medo e frustração fazem com que eu perca a capacidade de agir. Eu detesto ficar sem ação! E esse tipo de sentimento, tristeza, medo e frustração, me faz ficar parado e depois me empurra pra afasia… pra desistência.

Daí que…quase como uma estratégia de sobrevivência, eu aprendi que a raiva e a revolta não me deixam desistir. Acho que foi assim que eu passei responder ao que acontece de ruim a minha volta.

Certo! Não acontece assim em todos os casos, é óbvio!

Algumas situações não podem ser mudadas. Há situações que exigem aceitação. Só que, esse tipo de coisa, isso deve ser a exceção, não a regra. A maioria das coisas ruins podem ser resolvidas. As situações de merda podem e devem mudar. A revolta serve pra isso, mesmo quando você não tem a resposta.

Você pode reclamar mesmo quando você não sabe qual é a solução pra algum problema. Isso parece meio bobo de se dizer e deveria ser uma declaração até infantil. Infantil, no sentido de que deveria ser algo que nós aprendemos quando criança e não nos esquecemos.

Infelizmente, o mundo da exploração quer que a gente não compreenda essa afirmação simples e, caso você tenha compreendido, esse mundo quer que você se esqueça do seu direito de reclamar.

Outro dia, eu recebi uma mensagem igual a centenas de outras mensagens das empresas nas quais trabalhei. Eu acredito que, se você já precisou trabalhar pra se manter, você já deve ter lido ou ouvido coisas parecidas.

Era uma mensagem do patrão. O patrão queria uma reunião com os funcionários. O patrão reclamava do mal andamento dos ganhos da empresa. O patrão reclamava que os clientes pararam de pagar. A empresa começou a ficar em uma situação financeiramente difícil.

A culpa dessa situação financeiramente difícil, de acordo com o patrão, era da falta de comprometimento dos funcionários. O patrão disse que os funcionários não curtiam ou compartilhavam as postagens da empresa em redes sociais. O patrão comentou isso em tom de exigência.

“Que absurdo! Vocês nem curtem as postagens no face e no insta! Onde já se viu isso? É por isso que a empresa não vai pra frente! Vocês não amam o trabalho de vocês? Os funcionários lá da outra empresa demonstram que tem orgulho da empresa. Vocês não tem orgulho de trabalhar aqui, não? Que absurdo! Onde o mundo vai parar?”

Você já pode imaginar que essa não é uma das funções para quais os funcionários desse empresa foram contratos. Os serviços desses funcionários não envolvem curtir postagens da empresa ou ter qualquer sentimento de identificação com ela.

Só que esse não é o ponto da mensagem. Esses são apenas detalhes que deixam a coisa toda mais irritante. O ponto da mensagem é que a suposta reunião presencial teria o objetivo de verificar quais dos funcionários verdadeiramente SÃO A EMPRESA.

Pedir que os funcionários SEJAM a empresa não é nada muito diferente do velho e manjado “vestir a camisa”. Isso não é nada muito diferente de chamar os empregados de colaboradores ou time ou família. Isso não é nada muito diferente de fazer malditas dinâmicas, no começo e no final do expediente, pra que os funcionários sintam que trabalhar 8, 10, 12, 14 horas por dia é, de alguma maneira, o mesmo que participar de uma porcaria de uma gincana!

Em parte, essa estratégia, dinâmicas e mudanças de termos frios por termos genéricos, tenta fingir que trabalhar é algo divertido, que trabalhar é uma espécie de competição esportiva voluntária. Para o patrão, deve ser muito divertido imaginar a jornada de trabalho como um eterno passa ou repassa, no qual, a invés de levar torta na cara, você leva um saco de cimento na cabeça.

Para o patrão, não basta que você execute o serviço que você se dispôs a fazer. O patrão só acredita que você merece o seu salário se você passar por algum tipo de humilhação. Se essa humilhação for pública, melhor ainda.

Quando o patrão não te humilha publicamente, quando essa humilhação fica só nos grupos de conversas e nas reuniões privadas, quando essa humilhação não é explicita, mas incutida nas exigências de compromisso pessoal… quando acontece assim, o patrão se acha a melhor pessoa do mundo! Quando a humilhação não é pública, o patrão se acha magnânimo, hiper decente, um ser humano melhor do que a maioria. Quando a humilhação na é pública, o patrão acredita que ele é diferente de um senhor de escravos e não entende por que raios os funcionários não estão beijando os seus pés e balançando bandeiras com o logo da empresa nas esquinas durante o seu horário de descanso.

Bom, se você pensou que isso é um pouco de exagero e que, como é que mesmo que se diz? “Nem todo o patrão é assim”. De repente, isso que eu disse pode parecer meio exagerado… Agora, tente imaginar se você ou qualquer pessoa teria a liberdade pra dizer para o patrão, de modo despretensioso e corriqueiro, que você não gosta da empresa, não gosta de trabalhar e só faz isso porque precisa se sustentar. Imagina quais seriam as reações se você pudesse falar sem travas.

Será que você segura opiniões e expressões que você considera que feririam os sentimentos empresariais do patrão? Será que, quando você conversa com seus colegas de trabalho, fora do ambiente da empresa e da vigilância do patrão, você reclama de um jeito que você sabe que jamais reclamaria lá dentro? Será que, lá no fundo, tem uma parte de você que considera que falar que você não gosta de trabalhar, que você não ama a empresa e que, se ganhasse na megasena, pararia de trabalhar na mesma hora… que essas falas são eticamente erradas, ofensivas ou imorais?

Trabalhar não é algo que possa ser divertido. Eu já comentei sobre isso no Não Pod Chorar 22: Como não ter um passatempo. Então, esse também não é o ponto que eu vou ressaltar agora.

Tem outro aspecto curioso incutido naquele tipo de mensagem. Esse aspecto diz respeito ao problema da empresa. No caso, a empresa começa a perder lucro e a culpa, imediatamente, é jogada sobre os funcionários. Mais ou menos isso.

Nesse caso, não dá pra jogar a culpa nos funcionários, pois eles, aparentemente, estão cumprindo as suas funções muito bem. Então, o patrão não teria como reclamar do trabalho para o qual ele contratou seus empregados. Quando o patrão não pode fazer isso, quando o patrão não pode jogar a culpa de um problema sobre os ombros dos empregados, o patrão simplesmente responsabiliza os empregados sem qualquer justificativa. Simples assim!

O comportamento do patrão de exigir mais compromisso, mais engajamento, mais preocupação com a empresa é algo típico do neoliberal. Esse tipo de patrão acredita que o salário do funcionário é uma espécie de lucro. Esse tipo de patrão acredita que o seu lucro é comparável ao lucro do funcionário, como se cada um de nós fosse não apenas uma empresa, mas tivesse responsabilidade ESPIRITUAL com o lucro.

Não é apenas jeito de falar quando essas pessoas dizem que o lucro é sagrado, que a propriedade privada é sagrada. Pra esse tipo de gente, o lucro é o verdadeiro Deus.

Se o lucro é Deus, então, todos devem ter responsabilidade com relação a Ele. Se o lucro é Deus, então, todos passam a ter um compromisso moral de solucionar os problemas de acesso a Ele.

Tudo isso está pressuposto naquela simples mensagem. Aquela mensagem pressupõe que o correto é que os funcionários SEJAM a empresa e assim se comportem em momentos de risco. Aquela mensagem pressupõe que, caso os funcionários não protejam a empresa com a própria vida, eles não são dignos de estarem empregados.

Há muito mais estupidez contida naquelas poucas palavras.

Aquele tipo de mensagem, que pede para os funcionários se responsabilizarem por problemas que estão além das funções que eles ganham para executar, arrasta outro tipo de crença. E esse é um tipo de crença que pode ser ainda mais pernicioso.

Você já deve ter ouvido a seguinte expressão: “Não me traga problemas, me traga soluções”. Se você nunca ouviu isso com essas palavras, pode ter ouvido algumas das infinitas variações dessa mesma balela.

Esse é o tipo de máxima que serve muito bem pra manutenção de hierarquias. Hierarquia é algo que só funciona em cima da mentira de que chefes são responsáveis e responsabilizados caso subordinados cometam erros. A realidade, infelizmente, mostra o contrário.

Na primeira oportunidade, chefes jogam as suas responsabilidades sobre as cabeças dos funcionários. Além de chefes não precisarem ter responsabilidades, eles também não são responsabilizados. Não é assim que as coisas funcionam na prática.

Caso o problema da empresa não seja resolvido, o chefe perde parte do seu lucro ou até mesmo perde a empresa. Afinal, o objetivo da empresa não é produzir… o objetivo da empesa não é gerar renda para quem produz… o objetivo da empresa não é manter a qualidade de vida de quem produz… o objetivo da empresa não é sustentar a sociedade da qual ela se alimenta… o objetivo da empresa é dar lucro para o patrão. O patrão fecha a empresa e segue a vida!

Já o trabalhador e a trabalhadora, eles perdem o emprego, passam fome, pegam uma doença maldita e morrem sem atendimento médico. Depois disso, o chefe abre outra empresa e vai lá explorar mais trabalhadores, até que morram.

Patrões nunca são responsabilizados pelos seus erros, porque eles vivem sob a máxima de que quem não estiver satisfeito pode pedir pra sair. É óbvio que a pessoa não pode pedir pra sair, porque ela está acorrentada ao trabalho pela necessidade. A única pessoa verdadeiramente inútil nessa história, como sempre, continua a ser o patrão.

Curiosamente, apenas o patrão parece ter o direito de reclamar sem apresentar soluções. O patrão sempre reclama e a única solução que ele é capaz de apontar é mandar os funcionários trabalharem mais e resolverem os problemas dele.

Caso o empregado reclame de problemas, lhe é requisitado que apresente alternativas melhores, que apresente soluções. Caso o patrão reclame, ele apenas precisa dizer que a culpa dos problemas é a falta de compromisso dos funcionários. O patrão serve ao lucro e quer que trabalhadores ajam como fiéis. Afinal, O neoliberalismo é uma seita suicida.

***

Esse é o principal ponto do episódio de hoje: o direito de reclamar.

Você tem o direito de reclamar, mas o sistema ainda te escraviza. Você tem o direito de reclamar, mas as correntes da necessidade continuam a te prender ao trabalho indigno. Você tem o direito de reclamar, mas o medo faz com que você abaixe a cabeça e faça orações para o Deus-Lucro do patrão.

Parece inútil dizer que você tem o direito de reclamar. Só que, não é inútil.

Você não precisa se comportar de modo religioso com relação a empresa na qual você trabalha ou ao patrão. Não há pecado em fingir. Não há pecado em mentir. Apenas se cuide para não acreditar no seu próprio fingimento.

É necessário compreender que o direito de reclamar não é apenas individual. Esse é um direito coletivo. Como todo o direito coletivo, ele pode ser perdido quando é individualizado ao extremo.

Se eu resolvesse responder às mensagens de patrões com o que eu falei até agora neste episódio, eu já teria sido demitido. Acontece que eu não preciso me preocupar em tratá-los com a mesma confiança e compromisso com que eu trato as pessoas que eu amo.

Se eu for demitido será ruim pra mim, mas isso não significa que eu precise aceitar o jogo cujo único resultado é a minha mais profunda escravização. Se eu aceito esse jogo, se eu aceito a responsabilidade moral pelo fracasso do patrão diante do Deus-Lucro, eu vou trabalhar em dobro, receber uma plaquinha de funcionário do mês e abrir margens para que meus colegas também sejam mais pressionados.

O modo como eu converso com o patrão jamais será igual ao modo como eu converso com os meus companheiros de classe. Eu reclamo com os meus companheiros de classe e juntos nos mantemos a cabeça no lugar. Quando nos exercemos o direito de reclamar em conjunto, nós somos capazes de fazer barreiras e exigir que os fiéis do Deus-Lucro paguem pelos seus pecados.

No fim das contas, é pra isso que devem servir os sindicados e outras organizações políticas.

Reclamar é também um exercício que deve ser praticado sem culpa. Você não tem obrigação de compreender os mecanismos internos de um problema pra reclamar da existência dele. Muitas vezes, essa compreensão surge durante o próprio exercício da reclamação.

Não caia na ideia de que a resiliência é amiga do silêncio e da aceitação. A resiliência está mais próxima do drible, da ginga, da esperteza de rir pelas costas de quem tenta de enganar. A resiliência é contrária a estagnação. A resiliência segue de mãos dadas com a revolta.

***

Pode ser meio difícil se lembrar dessas coisas quando a gente fica muito tempo afastado das conversas com as pessoas que não nos pressionam para solucionar os problemas, mas alimentam nossas reclamações. Esse tipo de convivência, pra mim, sempre esteve ligado ao bar.

Eu sinto saudade de estar em um bar com meu pessoal. Perder esse tipo de experiência por tanto tempo faz com que a realidade fique mais difusa, menos palpável… isso afasta o horizonte.

Quando eu era bem pequeno, meu pai me levava com ele até o boteco de balcão de madeira. Era um povo rabugento, suado, com cheiro de cimento, terra e mato. Aquele povo reclamava de tudo! Eles bebericavam a cachaça deles, enquanto eu comia minha maria-mole.

Meu irmão mais velho me levava pra me sentar com os amigos dele no bar, quando eu ainda era criança. Eu ficava na minha própria cadeira de plástico, com minha Coca-Cola. Eles discutiam muito e, quase sempre, aquelas discussões eram sobre assuntos bestas… músicas, livros, fofocas, politicagem municipal. Todo mundo tinha uma opinião forte. E eu percebia que as opiniões mais fortes e que faziam mais sentido, costumavam partir de uma reclamação.

Em muitos casos, você pode até chamar reclamação de crítica.

Por falar em crítica, em bar e em convívio, me lembrei de um trabalho que fiz com uma amiga minha, Mariana Zamborlini. Isso foi lá em 2007, talvez 2006. O nome do trabalho foi “Teatro do convívio”.

Aquela proposta envolvia performance, vídeo e texto. Na prática, o que a gente fez foi reunir algumas pessoas pra beber em um bar. A gente estendeu uma tela em branco sobre a mesa do bar e, enquanto os movimentos dos copos deixavam marcas de tinta, a gente se embebedava e filmava as conversas.

Depois disso, o vídeo editado e montado foi projetado junto da tela-toalha-de-mesa e da leitura de um longo texto sobre os raros lugares e momentos de puro convívio que a gente tem depois de adulto.

Aquilo foi divertido.

É curioso que, muito antes de saber da existência de podcasts, eu quis fazer um maldito podcast. E, de novo, envolvia reclamação e envolvia um bar.

Isso deve ter sido ali pela mesma época em que a gente fez o “Teatro do Convívio”. Eu não faço ideia da data exata e eu não me lembrava disso até resgatar uns arquivos antigos, que estavam gravados em CD.

Em um começo de noite, depois do trabalho, quando os ainda celulares estavam muito longe de serem espertos, a gente se reuniu pra beber e reclamar da vida. Eu deixei o celular sobre a mesa pra gravar a conversa. Eu me lembro que eu fiz isso não porque as coisas que a gente dizia eram muito interessantes. Os motivos eram outros.

Primeiro, eu quis gravar as nossas conversas por um sentimento simples de não perder o momento. Depois, eu quis gravar porque nada daquilo tinha importância , nada daquilo tinha grandeza, e a gente raramente se preocupa em registrar os momentos sem importância.

Na medida em que a gente conversava, eu quis continuar a gravar só porque não dava pra saber o momento em que a gente teria uma ideia. Uma ideia que poderia virar um maldito projeto de arte! E a gente tinha muitas ideias! E essas ideias, quase sempre, partiam de… reclamações.

Quando não dava pra gravar áudio ou vídeo, eu anotava. Eu passei a dar atenção a todo o tipo de reclamação dos meus amigos e amigas. Teve muito projeto que saiu disso e ainda acontece mais ou menos assim, até hoje.

Reclamar é uma parte fundamental do meu processo criativo. Só que não basta reclamar sozinho. Reclamar em diálogo é uma parte fundamental do meu processo criativo. Em alguma medida, eu acredito que reclamar é um dos passos iniciais pra que muita gente possa exercer a criatividade.

Se a gente parar de reclamar, eu tenho a impressão de que a gente vai parar de se importar. Se a gente parar de reclamar, poder ser que a gente não consiga construir mais nada ou derrubar alguma coisa.

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