[crônica] Um corpo bagaçado e feliz

Café Kosuth. Fabiana Pedroni, 2021. Intervenção digital em fotografia da obra Uma e três cadeiras, de Joseph Kosuth. Na esquerda da imagem uma fotografia de cadeira de madeira pendurada na parede, com uma colagem de foto de xícara de café. Ao centro uma cadeira de madeira com uma colagem de ilustração de xícara de café. Na direita superior uma placa com texto que define uma cadeira, abaixo, um balão com o seguinte texto: “Cafezinho da Vó: m.q. hora de prosear. Adjetivo para algo carinhoso. Usado também em performance”.

Texto de Fabiana Pedroni.

— Meu corpo tá um bagaço, mas meu cérebro… — disse Seu Bianchi, gesticulando um sinal de explosão com as mãos próximas à cabeça.

Os cabelos brancos e a pele envelhecida de Seu Bianchi diziam mais que a sua admiração e afeto pela educação em artes ao elogiar sua professora Luciana. Conversar, estar junto, criar vínculos não é simples, nem imediato. Conhecer é cultivar um jardim em que você não sabe quais tipos de sementes estão colocadas na terra, mas, mesmo assim, cuida para que todas germinem.

A explosão no cérebro de Seu Bianchi foi a linha que costurou outras narrativas do dia. Tem aqueles dias em que você ouve muito, pensa muito, e então aparece um gesto na sua frente que te leva a dizer

— Nossa, sim! — essa é a costura.

Desde o início de minha atuação na educação, tive uma preocupação com aquilo que esquecemos ou deixamos de lado. Nas artes, e no mundo de forma geral, a criatividade (e a proatividade, ou some aqui qualquer palavra que caiba entre o gênio artístico e o empreendedorismo coaching) é uma qualidade trancafiada dentro da juventude. Às vezes, ela aparece na infância, mas é comum interpretá-la como criança arteira e, logo, cai em um sentido negativo ou tende para uma criatividade idealizada de pequeno jovem e não-criança.

Ser bonito é ser jovem; para ser criativo tem que ser jovem; para ser artista, é bom que seja jovem; se for velho, a arte tá velha também e já não serve mais. O que uma pessoa com mais de 40 anos cria, artisticamente, será jogado numa gaveta de cômoda véia, juntos dos panos de prato e paninhos de retalho. Pode ser até que essa gaveta receba uma etiqueta de “Artesanato”, para garantir que nada do que seja ali jogado corra o risco de ser encarado como criativo, de valor estético e artístico. Como se panos de prato não fossem maravilhosos.

Na aula de desenho, durante a minha graduação em Artes Visuais, o professor avaliava os trabalhos.

Minha mesa: jovem de 20 e poucos anos, mulher, branca.

— Fabiana, esse seu traço precisa melhorar aqui e aqui. Pegue estas referências aqui, folheie estes livros. Viu a sombra? É aqui que você precisa se dedicar para dar maior volume nas suas imagens. Depois quero conversar com você sobre um projeto que acho que vai te interessar.

Próxima mesa: Teresinha, senhorinha de cabelos brancos com seus mais de 70 e tantos anos.

— Oi, Dona Teresinha. E os netos, estão bem? Tá bem bacana esse desenho aí. Continue assim.

Próxima mesa: Beth, funcionária de banco aposentada, na faixa dos 50 e poucos anos.

— Beth, cuidado que daqui a pouco esse seu desenho vira um quadrinho de paisagem. Eu encontrei seu filho ontem na rua, muito inteligente ele, parabéns!

Nem é preciso muito esforço para perceber as consequências da separação entre arte e artesanato, ou melhor, Arte e artesanato. Não precisa nem mesmo estar no Mundinho da Arte para perceber essa separação zombeteira. Antes mesmo de pisar numa sala de aula na graduação em artes, estas mulheres já eram classificadas como mães e avós, antes de qualquer outra coisa.

A ocupação histórica e colonizada da mulher como produtora de artesanato cria esse espaço de julgamento e esquecimento. Não importará os motivos pelos quais uma mulher na terceira ou quarta idade entra na Universidade, ela sempre será encarada como aquela que quer estudar porque os filhos saíram de casa. Mas é a eles, ainda, que toda a sua imagem de sujeito é subjugada e que toda a sua produção é destinada. Se você desenha, se você pinta, se você faz qualquer coisa, deve ser para a sua família.

Quando minha mãe, com mais de 50 anos, se interessou por performance, foi um caos para a Universidade. Como ela iria pendurar, em uma moldura, uma performance?

Velho produz arte velha, que a poeira tornou artesanato. Ninguém verbaliza isso diretamente, mas o gesto, o corpo, a educação praticada dizem isso de uma forma violenta. A educação para a terceira e quarta idade articula o que há de pior de jogos de poder e violência.

E se há poder e violência envolvidos, eles serão mediados, também, por questões de gênero. Também seria por questões de raça, mas são raríssimas as pessoas negras ou indígenas da terceira idade que estudam artes.

Vamos para a próxima mesa: Pio, senhor branco de cabelos grisalhos, com 60 e tantos anos.

— Cara, que bacana isso aí. Como que você começou a fazer interferências em fotografias? Muito interessante você unir desenho e fotografia. Já pensou em jogar cera sobre isso aí? Continua assim que logo você estará expondo em galerias.

Corre que dá tempo. A esperança do professor era clara: investir o máximo na criação daquele artista, porque a sua idade era um chamariz exótico para os galeristas. Começou a estudar na velhice e alçou voo rapidamente para a fama, apoiado por seu querido professor que sempre acreditou em seu potencial. Esse discurso transparecia nos olhos do professor, que se dirigia, com desânimo, para a próxima mesa, de mais um jovem que acha que já é artista, pois desenha desde criança.

A atividade artística se torna um meio de julgamento e separação social. De um lado, coloca-se jovens que precisam aprender, de outro, velhos que só estão de passagem e ocupam espaço dos jovens.

O corpo bagaçado de Seu Bianchi, agitado pela arte educação que o alcançou, é um ponto de curva que eu tanto esperei acontecer. Pode ser que seja apenas uma pontinha de acaso, um caso em um milhão, como dizem, mas é um.

A educação para a sensibilidade não deveria cessar, nunca. E as formações dos educadores deveriam dedicar-se também a atuar com essa faixa etária, sem ignorá-los, sem criar uma suposta inclusão que é guiada apenas por números. Raramente encontro materiais didáticos que articulam as artes para idosos sem pautar por um caminho terapêutico ou do artesanato. Um caminho que aponto em um sentido menor, do julgamento hierárquico que recai sobre ele em detrimento da Arte, aquela com A maiúsculo.

Eu não imaginava que este texto tomaria um tom de desabafo, mas, tem dias em que a gente se cansa. E tem dias em que uma fala nos traz a energia para continuar se incomodando e se esforçando para praticar e formar para uma educação sensível.

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