Texto de Rodrigo Hipólito
Este texto é um arranjado de anotações deixadas durante a construção dos cinco contos que compõem o livro Bingo Brasil. Fico até sem jeito de escrever uma frase tão objetiva para introduzir o fuzuê de referências e caminhos perdidos que os processos de criação acumulam pelos cantos.
Recentemente, a professora e artista Cláudia França me falou sobre a distinção que faz entre arquivo e coleção. O assunto era a influência no processo criativo das coisas que artistas acumulam em seus ateliês durante anos de pesquisa. Anotações, cadernos, trabalhos acabados e inacabados, materiais, objetos de memória, parafernália, presentes, catálogos, livros, ferramentas gastas e quebradas, móveis marcados, pastas, rabiscos. Ela me lembrou de que um ateliê quase sempre não é apenas isso. No seu caso, o local de construção também é sua casa e os objetos domésticos e coletados pelo mundo se misturam em uma coleção distante das leis enciclopédicas e arquivísticas.
Para cada artista isso funciona de um jeito diferente, embora todas as pessoas acumulem algo, nem que sejam esquecimentos. Eu gosto de organizar e retorno aos meus arquivos com a intenção de trabalhar um conjunto de ideias com o mínimo de conforto intelectual. Se coleto uma nova peça, seja um argumento, um traço de personagem, um elemento estético, uma transição entre situações ou um eixo narrativo, crio uma gaveta específica para guardá-la. Caso várias peças futuras encontrem o mesmo destino ou algumas mais antigas sejam deslocadas para essa nova gaveta, ela ganha consistência até que eu possa moldá-lo em uma história, uma ilustração, uma instalação, um audiodrama, um objeto ou qualquer outra brincadeira que artistas fazem.
É possível, ainda, que esse aglomerado seja anexado a um conjunto anterior e maior, como se fosse atraído por uma gravidade ordenadora. Nesse movimento de acúmulo e atração, depois de um quarto de século, observo meu Arquivo e a maioria das peças que o compõe parece bem integrada à um sistema amplo, coerente, embora jamais controlado por completo.
De volta ao livro Bingo Brasil, há uma dezena de outros contos inacabados que não tiveram tempo de ganhar densidade ao ponto de serem trabalhados como narrativas razoáveis. Esses primeiros cinco contos — O céu ainda está lá, Lá vai uma chalana, Abandonada por você, Suave Veneno e Bingo Brasil — conseguiram acumular elementos, foram finalizados e formaram um grupo. De modo prático, os arquivos finalizados pularam para uma subpasta. Os demais arquivos continuam a agregar peças, soltos dentro da pasta maior, até o dia em que possam formar seus pequenos mundos. Eles podem ser organizados em uma nova coletânea de contos, podem ganhar maior independência e transformarem-se em novelas ou romances e até conquistarem uma força gravitacional que engula seus colegas de pasta.
Eu poderia fazer uma captura de tela para explicitar esse cenário. Pensei por uns vinte minutos e desisti. Tive receio de que isso me servisse como um determinante sobre os rumos que aqueles arquivos ganharão, além daquela sensação de que é necessário arrumar mais a casa antes de receber visitas.

Detalhe de ilustração que mostra o olho amarelo de um gato preto e seus pelos marcados por grossas linhas azuis, violeta e amarelo, tudo em alto-contraste.
Não pretendia dar tantos detalhes sobre essa organização. Mas isso é útil para entender como a anotação inicial deu origem a essas histórias e às inéditas. Em 2021, decidi reassistir Cowboy Bebop, a aclamada minissérie de Shin’ichirô Watanabe, provavelmente por conta do lançamento da versão filmada. A animação ainda é apaixonante e inspiradora.
Em simultâneo, estava muito atiçado pela potência das mesclas culturais, estilos, referências e ritmos do também aclamado álbum Batidão Tropical. Volume 1, de Pabllo Vittar. Em especial, as regravações de Bang Bang e Zap Zum me recordaram como muito do modo como a nossa passionalidade latino-americana, nosso tesão, nossas cores, nossa corporeidade, nossa alegria e nosso sofrimento sempre me pareceram muito mais próprio da ficção científica do que qualquer frieza computacional.
Sem pensar muito, anotei: “Série contos que mescla clima de Cowboy Bebop com músicas pop/bregas brasileiras forró eletrônico tecnobrega.” Há duas palavras antes dessa frase martelada. Vou deixá-las de fora porque, talvez, deem título ao próximo livro desdobrado desse impulso inicial.
Alguns livros que li e reli naquele ano me ajudaram a agregar elementos àquela frase. São histórias e prosas bem diferentes entre si, como: Os despossuídos e A mão esquerda da escuridão, de Ursula K. Le Guin; Vagabundos, de Hao Jingfang; Estrellas rotas: II antología de ciencia ficción china contemporânea, editado por Ken Liu; Solaris, de Stanislaw Lem; Neuromancer, de William Gibson; Metanfetaedro, de Vic Vieira; Alvorada em Almagesto, de Tereza P. Mira de Echeverría; a trilogia Xenogênese, de Octavia E. Butler; El tercer mundo después del sol: antología de ciencia ficcíon latino-americano, organizado por Rodrigo Bastidas Peréz; La ciudad que nació grandiosa y otros relatos, de N. K. Jemisin; e Os registros estelares de uma notável odisseia espacial, de Becky Chambers.
Em pouco tempo, a sinopse “Telma trabalha no cruzeiro temático Bingo Brasil, uma nave que promete espetáculos que sintetizam a cultura brasileira e recebe espécies de toda a galáxia. Enquanto a nave explode, ela precisa encontrar o seu gato e tentar escapar, mas talvez não haja tempo” virou o primeiro conto.
Não vou inserir aqui as anotações que deram origem a cada um dos cinco contos, pois todas dizem o final da história de modo bem direto. A maioria das referências nelas contidas, do título aos nomes de alguns personagens, são explícitas. Quer dizer, talvez não. Em vários casos, esse reconhecimento imediato apenas será possível se você assistiu a muitas novelas, ouviu música brega, popular ou antiquada, frequentou ambientes de entretenimento a baixo custo, assistiu a filmes jamais premiados e convive com pessoas que não levam a vida tão a sério.
Em todo o caso, nunca fui um grande apreciador de referências obscuras e acredito que, quase sempre, basta saber da existência e contexto de uma coisa para que ela habite com conforto a sua imaginação. Você não precisa ter assistido a Suave Veneno para saber que se trata de uma telenovela marcante do final dos anos 1990. Não é necessário ter lido A queda do céu, de Davi Kopenawa Yanomami e Bruce Albert, para entender o que se passa em O céu ainda está lá. Tampouco é imprescindível conhecer todo o Banda Calypso, Vol. 19 – Eu me rendo para ter em mente o primeiro verso que diz “Abandonada por você”. O mesmo acontece com Lá vai uma chalana ou com o emaranhado de indicações dispersas pela correria de Bingo Brasil.
Vou interromper este texto por aqui, pois me vi tentado a abrir o arquivo de anotações e tentar entender os motivos pelos quais alguns argumentos ainda não tiveram a sorte de virar narrativas. No fim das contas, se você se aproximar com cuidado de qualquer ideia, por menor que seja, vai sentir os efeitos da gravidade.
Bingo Brasil é um projeto realizado com recursos do Funcultura – Secretaria de Cultura – Governo do Espírito Santo.
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