HIPÓLITO, Rodrigo; CIRILLO, José; GRANDO, Angela. Seminário em Arte e Cultura. Volume I. Vila Velha: ObjetoQuadrado, 2025.
“Seminários em Arte e Cultura. Volume 1”, reúne quatorze ensaios resultantes das discussões desenvolvidas na disciplina Seminário de Estudos Avançados em Arte e Cultura, ministrada pelo Prof. Aparecido José Cirillo no primeiro semestre de 2024, para o doutorado em Artes do PPGA-UFES. A publicação marca um momento significativo para o doutorado em Artes do estado do Espírito Santo e destaca o compromisso com a pesquisa crítica e a produção de conhecimento no campo das artes.
Essa coletânea aborda questões centrais para a compreensão das relações entre arte, cultura e sociedade nos contextos moderno e contemporâneo. Os textos exploram as interações entre tradição e modernidade, entre cultura hegemônica e manifestações populares, entre processos de globalização e resistências locais. Através de múltiplas perspectivas teóricas e metodológicas, as pessoas autoras demonstram como a cultura se constitui não como artefato estático, mas como processo dinâmico de negociação constante, marcado por hibridismos, conflitos e reinvenções.
O livro se estrutura a partir de um eixo fundamental: a crítica ao modelo ocidental de desenvolvimento que impõe uma lógica econômica utilitarista, ao desconsiderar as racionalidades próprias dos diferentes contextos culturais. Hassan Zaoual oferece o conceito de “sítios simbólicos de pertencimento” como contraponto crucial para pensar espaços onde crenças, memórias coletivas e práticas ancestrais se entrelaçam, de modo a conferir sentido à existência humana para além da mercantilização. Os ensaios evidenciam como territórios físicos se transformam em paisagens culturais através de rituais, narrativas e relações com o meio ambiente, na sustentação de identidades e resistência à padronização imposta pela globalização.

Capa. Seminários em arte e cultura. Volume 1. Maria Moreira. Sem titulo, 1998. Chupetas de borracha e notas de dinheiro. 20x15x10 cm. Esta imagem está disponível para uso sob a licença Creative Commons AttributionNonCommercial licence (CC BY-NC)
A arte surge como ferramenta fundamental para essa resistência. Os textos demonstram como a criação artística transcende o estético para se constituir como ato de cura e preservação da memória, de modo a transformar experiências de dor e perda em narrativas visuais que desafiam o esquecimento. A análise de manifestações culturais como o rap e o movimento Hip-Hop revelam como práticas artísticas podem funcionar como gênero musical e prática política que organiza comunidades, denuncia exclusões e constrói redes de solidariedade. O conceito de “agonismo”, proposto por Chantal Mouffe, aparece mobilizado para pensar como o conflito pode ser transformado em disputa democrática, quando adversários negociam suas diferenças sem aniquilar o direito à expressão do outro.
A educação constitui outro campo de batalha destacado nos textos. Os ensaios criticam um sistema que privilegia a reprodução de conhecimentos hegemônicos e reforça desigualdades através da “herança invisível” conceituada por Bourdieu. Experiências pedagógicas que resgatam técnicas ancestrais, como oficinas de panelas de barro com as paneleiras de Goiabeiras, mostram a escola como espaço possível de valorização de saberes locais e fortalecimento do pertencimento. A cultura popular aparece não como objeto distanciado, mas como processo ativo de transmissão intergeracional e resistência ao apagamento.
A reflexão sobre normatização e poder permeia várias contribuições. Foucault é destacado para lembrar que a cultura dominante define padrões de normalidade que excluem o diverso, enquanto o diálogo com T.S. Eliot e Roque de Laraia reforça que a cultura constitui o tecido que permite a convivência na diferença. As tradições aparecem como elementos constantemente reinventados, em processos de hibridização que se adaptam aos contextos urbanos sem perder núcleos simbólicos fundamentais. Esse hibridismo não se apresenta como mera assimilação, mas como estratégia de sobrevivência que desafia purezas essencialistas.
“Seminários em Arte e Cultura. Volume 1” enfatiza que a disputa cultural permanece inseparável da disputa política. A globalização exige respostas baseadas na valorização radical da diversidade. Seja através da arte cemiterial capixaba, que materializa memórias em esculturas de mármore, ou nas bandas de congo da Barra do Jucu, que sacralizam paisagens, o que está em jogo é o direito à autodeterminação simbólica. A cultura revela-se como território último onde se trava a batalha entre homogeneização e pluralidade, espaço onde a esperança se renova na capacidade humana de criar, reinterpretar e pertencer.
A tecnologia surge como tema transversal em vários ensaios. Nesse sentido, examinamos como as inovações tecnológicas, desde a reprodutibilidade técnica até as mídias digitais contemporâneas, transformam os modos de produção artística e as formas de percepção e interação com o mundo. Os textos exploram a artemídia como lugar de diálogo crítico e criativo, onde artistas subvertem as funções programadas das máquinas semióticas para reinventar finalidades e questionamentos estéticos. A discussão sobre interatividade e participação do público nas obras contemporâneas revela como as fronteiras entre criador e espectador se tornam cada vez mais fluidas. O corpo aparece como narrativa cultural privilegiada. Pensamos como o corpo transcende sua função biológica para se tornar terreno simbólico que reflete normas, valores e ideologias dominantes. Movimentos contemporâneos como body positivity e body neutrality surgem como formas de resistência que propõem visões mais inclusivas e pluralistas das práticas corporais.
A metodologia interdisciplinar que perpassa todos os textos constitui um dos pontos fortes da publicação. As pessoas autoras fazem uso de referenciais da antropologia, sociologia, filosofia, estudos culturais e teoria da arte para construir análises que não se restringem a um único campo do saber. Essa abordagem permite compreender os fenômenos artísticos e culturais em sua complexidade, de modo a evitar reducionismos e com o reconhecimento das múltiplas dimensões que constituem as práticas culturais contemporâneas.
“Seminários em Arte e Cultura. Volume 1” destaca-se ainda pela atenção dedicada a manifestações culturais locais do Espírito Santo. Vários ensaios exploram práticas específicas do estado, como as bandas de congo, a arte cemiterial, o ofício das paneleiras e os sítios simbólicos da Barra do Jucu. Essa ênfase no local não representa fechamento provinciano, mas demonstra como a compreensão aprofundada de contextos específicos permite elaborar reflexões teóricas mais amplas sobre questões que atravessam diferentes territórios e culturas. Assim, esse livro configura-se como leitura interessante para pesquisadores e estudantes voltados para as discussões contemporâneas sobre arte e cultura.
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