Texto de Rodrigo Hipólito
Faz tempo que tenho pouco interesse em histórias que alimentam o desânimo. Encontro os mais diversos tipos de prosa que mereceriam elogios sem conta, desenvolvidas em narrativas que pouco ou nada mais fazem além de detalhar o sofrimento. Não é qualquer sofrimento, tampouco de qualquer pessoa. A violência é executada insistentemente sobre personagens que representam grupos desprezados e atormentados fora da ficção.
Em algum momento, a leitura dessas histórias começou a se parecer com a atitude de parar para ver os corpos destroçados de acidentes de trânsito. Depois, isso ficou pior. Entendi que não era o comparativo mais adequado, pois não se trata de acidente e muito menos de contemplar o resultado da desgraça. Ler narrativas que nos deliciam com as sutilezas, complexidades ou boa composição do texto, mas que somente descrevem e apresentam o suplício dos desamparados, é algo pior. É como se o jornal sanguinário do meio-dia fosse escrito por poetas e dirigido por grandes cineastas, mas com o mesmo projeto editorial: exibir o suplício dos marginalizados com requintes de crueldade. No entanto, há diferenças profundas. Algumas delas tornam essas experiências de leitura ainda mais revoltantes.
Pense nas diferenças dos públicos-alvo do jornal do meio-dia e da literatura contemporânea dita realista. É provável que você se incomode por ter imaginado estereótipos. Talvez você direcione o incômodo para este texto, mas o pensamento foi seu. Mesmo que você agregue tons de cinza e suponha intersecções entre os públicos, ainda haverá diferenças substanciais. Não é absurdo afirmar que são grupos bastante distintos. Ainda assim, o primeiro assiste ao mesmo noticiário quase todos os dias, revolta-se com a violência escancarada, mas não desvia os olhos diante dos corpos torturados e assassinados e faz silêncio para ouvir os recorrentes depoimentos minuciosos das vítimas. Nada se resolve. Repete-se a experiência no dia seguinte. O segundo grupo lê a mesma narrativa, revolta-se contra a violência escancarada, mas não fecha o livro diante dos corpos torturados e assassinados e arrepia-se com os recorrentes pontos de vista das vítimas, que apenas sobreviveram na voz do narrador indeterminado. Não há contragolpe das personagens, nada se resolve.
Esses livros recebem muitos elogios, tipicamente adotados para a alta literatura. Os finais sem resolução são tidos como corajosos há décadas. Ninguém parece se cansar de fazer o mesmo elogio. Essa é uma posição segura para quem construiu uma autoimagem de intelectual sensível. Algo similar deve ser válido para quem desenvolveu a capacidade de ler sofrimento daqueles que já sofrem fora das páginas do livro e encantar-se com a beleza da forma do texto. Mas o que me irrita é a anestesia resultante dessa recorrência.
Fico com a impressão de que quem considera essa literatura do puro sofrimento realista como a mais adequada experiência de leitura intelectualizada talvez pressuponha que sua parte já está feita ao chorar e se revoltar junto das personagens ficcionais. É certo que a negação do sofrimento e da violência também é um problema de várias propostas literárias. Você pode escrever um texto sobre isso.
Para quem acredita que o contato insistente com a violência explícita pode ser pedagógico, gerar mudanças sociais, revoltas revolucionárias ou gerações que não cometam os mesmos erros, o longo século XX já demonstrou o contrário. Sem a existência de um contraponto ou uma brecha de esperança, a apresentação da violência contra as populações inferiorizadas serve apenas ao prazer do público. Pouco importa se esse público se considera ou não parte da elite intelectual. Isso vale para a leitura, o cinema e outras artes, para o jornalismo, as postagens públicas e mesmo para as trocas de mensagens privadas.

Parte dessa irritação já me ocupava quando comecei a escrever os contos que compõem Bingo Brasil. Eu posso escrever o que quiser e por isso prefiro não me filiar às vertentes compreendias como realistas. Dizer que uma narrativa ficcional deve ser desesperançosa por consonância com a realidade é um argumento tão sem sentido que chega a ser constrangedor torná-lo explícito. Quando decido fazer ficção, uma das principais motivações é a liberdade de imaginar todos os caminhos. Se personagens são incapazes de confrontar o sofrimento e as páginas encerram-se com a reafirmação de que nada pode ser feito, isso é uma escolha de quem escreve. Eu escolho alimentar a realidade com a imaginação.
É possível que eu tenha escrito e venha a escrever contos desalentadores. Mas não tenho dúvidas de que ficaria muito insatisfeito se não conseguisse pensar em nenhuma maneira de bater de volta na realidade que me agride. Por isso, durante a escrita desses cinco contos, com destaque para “O céu ainda está lá”, “Lá vai uma chalana” e “Abandonada por você”, preferi não trabalhar com o sofrimento gráfico, ainda que haja situações difíceis em várias escalas, e abrir margens para escapar de ciclos viciosos normalizados. Essa deve ser uma das mais fortes características pessoais das histórias de Bingo Brasil: o esforço para não me tornar um ruminante da miséria.
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