Texto de Rodrigo Hipólito
Uma das muitas coisas com as quais parei de me preocupar ao escrever um texto de ficção é com a utilidade da maioria dos diálogos para a trama. Quando me ocupo de diálogos, o empenho está mais voltado para ser capaz de deixar que aquelas personagens se expressem como elas o fariam naquela conversa em específico. Na maioria das vezes, elas não passam informações sobre os problemas práticos da história, assim como nós. Nossa capacidade de conversar através de interjeições, grunhidos, suspiros, frases de efeito, piadas internas e referências culturais é virtualmente infinita e está sempre presente. São poucas as situações em que nos comunicamos de modo apenas informacional. No máximo, tentamos fazer isso quando somos atendidos por um robô, ao telefone ou pelo chat de uma empresa, para fazermos uma reclamação. Alguém tem uma experiência positiva e eficiente nesse tipo de diálogo?
Não sei se aquela velha dica de usar diálogos para fazer a trama andar foi sempre um erro ou foi mal interpretada com o passar dos anos. É possível que a pessoa que formulou essa dica tivesse algum tipo de prosa específica em mente. Outra possibilidade é a de que ela quisesse apontar a dificuldade de passar certas informações para quem lê sem deixar tudo nas costas da narração. Seja lá o que for, não acredito que isso funcione assim.
Ainda hoje, um dos melhores e mais divertidos exemplos dessa dificuldade está no filme Saneamento Básico. O clássico nacional voltou a ser assistido nos últimos anos e isso é ótimo. O povo da escrita de ficção deveria se dedicar a estudá-lo. Há vários momentos em que as personagens sem experiência com a escrita precisam solucionar questões de roteiro. Elas fazem as escolhas mais práticas, voltadas para as funções informativas e explicativas. O resultado, como era de se esperar, é esquemático e cômico.
Personagem 1: “Olha quem vem lá!”
Personagem 2: “Quem?”
Personagem 1: “A Silene.”
Personagem 2: “Que Silene?”
Personagem 1: “A Silene Seagal.”
Silene (Camila Pitanga): “Ah, bom dia, Silene.”
Personagem 1: “Bom dia. Onde vai tão bonita a esta hora?”
Silene: “À minha festa de formatura.”
Personagem 1: “Que vestido bonito, foi sua mãe quem fez?”
Silene: “Não, comprei na ‘Só Lindezas’.”
Quando não há intenção humorística, essa esquematização deixa de funcionar. Mas outros detalhes são tão interessantes quanto sua simplicidade para percebemos como esse diálogo passa a ser engraçado. Um desses detalhes é o fato de as personagens estarem interpretando outras personagens. Por isso, os atores e a atriz precisam agir como se não soubessem atuar, pois suas personagens não sabem. A atuação esquemática só se torna evidente e engraçada por estarem em uma ficção dentro de uma ficção. Quando percebemos uma atuação esquemática e artificial não intencional, identificamos isso como uma falha e apontamos a baixa qualidade do trabalho. Talvez, em um segundo ou terceiro momento, podemos ressignificar essa atuação e torná-la algo engraçado através da apropriação. Assim acontece com trechos de novelas da Record de anos atrás, por exemplo.
Colocar diálogos esquemáticos, informativos e explicativos, na voz de personagens de uma narrativa de ficção é como entregar uma atuação de péssima qualidade e não intencional. É certo que muitas pessoas podem não perceber a diferença entre um tipo de atuação e outra. Acontece de modo similar na relação entre as pessoas que leem e os tipos de diálogos. Há quem não se importe ou não note a diferença. Mas ela está ali, e é esperado que quem escreve saiba disso.
Ler diversos tipos de narrativas de ficção nos auxilia a abandonar as preocupações informativas e explicativas e deixar surgirem as vozes inúteis das personagens. Isso é como permitir que boas atuações surjam em cena. Certamente, há muitas atuações péssimas em filmes, novelas e séries que poderiam ter sido ótimas, caso diretores e roteiristas deixassem atores e atrizes trabalharem com mais liberdade. O desejo de obrigar o público a entender exatamente o que se passou na cabeça de quem escreve é um inimigo da diversão.
Gosto da ideia de poder vocalizar as vozes presentes em minhas narrativas. Sei que isso não vale para todas as pessoas, tampouco para todos os tipos de texto. Isso não é uma dica. Apenas gosto de poder pronunciar o que minhas personagens dizem sem que aquilo soe como um relatório sobre os acontecimentos da história, como antigos robôs fazendo a vez de humanos ou como duas crianças em um sobretudo tentando entrar em uma boate. Isso talvez só funcione para quem tem o mínimo de disposição para conversar sem pauta com outras pessoas, ouvir outras conversas e se interessar pelas infinitas maneiras como a gente se expressa fora da ficção.
É possível que você já tinha passado pela experiência de conversar por texto com alguém e imaginar que a pessoa “leu sua mensagem no tom errado”. Muitas falhas de comunicação surgem daí e podem resultar em brigas, desacertos comerciais e prints com reconhecido sucesso nas falecidas redes sociais. Em alguns casos, para solucionar o problema, você envia um áudio que deixa mais explícito o tom com o qual a primeira mensagem deveria ser lida. Essa mesma situação acontece aos montes em diálogos ficcionais. Por isso, hoje, eu prefiro deixar minhas personagens mandarem áudio.
Tem vezes em que isso dá muito certo, outras vezes nem tanto. Tive a oportunidade de perceber as duas possibilidades ao fazer a narração no audiolivro de Bingo Brasil. Em certos trechos de alguns contos, eu fiquei com a forte vontade de que outra pessoa interpretasse falas de personagens específicas. Mas não se tratava de um audiodrama. São coisas distintas. A narração de um audiolivro, quase sempre, procura realizar a leitura de maneira pouco dramática. Digo pouco, pois não é possível ler de maneira totalmente desprovida de expressão. Mesmo as pessoas que se acostumaram a ler com a entonação da clássica voz do Google apresentam tanto expressividade própria quanto decorrentes dos vícios comunicacionais de sua época.
A experiência de narrar os cinco contos de Bingo Brasil foi gratificante e irritante em igual medida. Havia a vontade de modificar as palavras de algumas falas de personagens e o esforço para aceitar que não cabia, naquele momento, o trabalho de edição de texto. Houve também a alegria de notar que algumas personagens voltaram à mente com muita facilidade já na primeira tentativa de expressar suas falas em voz alta. Fiquei feliz ao perceber que a maioria dos travessões era seguida de frases que me diziam menos sobre o andamento da narrativa e mais sobre quem falava. Espero que quem escute o audiolivro de Bingo Brasil possa perceber tanto os diálogos ruins quanto os bons.
Projeto realizado com recursos do FUNCULTURA – Secretaria da Cultura – Governo do Espírito Santo.
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