[resenha] Pedro Páramo, de Juan Rulfo

Texto de Rodrigo Hipólito

Lá pela metade de 2025, se não me engano, houve uma tentativa de voltar com o podcast Pindorama. Junto com Anna Raíssa e Rodrigo Basso, eu gravei um episódio longo sobre uma obra inevitável da literatura latino-americana. Falar sobre Pedro Páramo, de Juan Rulfo, renderia dezenas de horas e milhares de páginas de comentários e análises. Falamos bastante. No fim das contas, o episódio nunca saiu e o Pindorama não voltou a ser publicado. Ficaram algumas anotações que fiz para a gravação e que decidi transformar nesta resenha. Tanto já foi dito e escrito sobre esse livro, que talvez este texto seja apenas uma repetição de várias análises bem mais interessantes. Ainda assim, se nos prestamos a gravar uma conversa sobre o assunto, por que não publicar as anotações?

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Detalhe de ilustração de Eloar Guazzell para adaptação visual do livro Pedro Páramo. Em tons ligeiramente desbotados de verde e marrom, com linhas fortes e simples que se sobrepõem umas as outras, observamos a paisagem de um vilarejo com poucas casas, uma igreja com uma cruz no topo e pequenas cruzes no terreno ao lado, árvores sem folhas e vários morros baixos ao fundo, que encerram a linha do horizonte para um céu claro e branco, sobre o qual aparece, na parte superior da imagem, um grande círculo avermelhado, com um sol cor de terra.

Não é exagero dizer que Juan Rulfo (1917-1986) foi um escritor mexicano cuja produção literária, embora reduzida, revolucionou a literatura latino-americana. Nascido em Jalisco, ele experimentou as consequências da Guerra Cristera e ficou órfão ainda criança; trabalhou como agente de imigração e fotógrafo e desenvolveu paralelamente uma sensibilidade artística sobre os elementos fundamentais da cultura mexicana rural. Rulfo publicou apenas duas obras de ficção: a coletânea de contos El llano en llamas (1953) e o romance Pedro Páramo (1955). Os comentários mais comum dizem que sua prosa é concisa e poética, além de ser marcada por uma estrutura narrativa fragmentada que antecipou técnicas do realismo mágico e influenciou de García Márquez a Carlos Fuentes. De modo mais imagético, Rulfo falou sobre a desolação do campo mexicano pós-revolucionário e sobre as complexas dinâmicas entre opressão, memória e morte que caracterizam a identidade cultural daquele México interiorano.

No caso de Pedro Páramo, nós acompanhamos a jornada de Juan Preciado que, após prometer à mãe moribunda, viaja até Comala para encontrar seu pai, o poderoso fazendeiro Pedro Páramo. Ao chegar, Preciado descobre que a cidade é um local fantasmagórico, habitado apenas por espectros e ecos do passado. Gradualmente, através de fragmentos narrativos não lineares, a gente  descobre que o próprio Juan Preciado está morto, tendo falecido ao chegar à cidade, sufocado pelos murmúrios dos mortos. A narrativa então se desdobra em múltiplas vozes e temporalidades que revelam a história de Pedro Páramo: seu amor obsessivo por Susana San Juan, seu domínio tirânico sobre Comala, a maneira como acumulou poder e terras, e como, após a morte de Susana, permitiu que a cidade definhasse por vingança. O romance culmina com a morte de Pedro Páramo: sentado em sua cadeira, “se desmorona como um monte de pedras”, o que simbolizaria o colapso final de seu poder e da própria Comala.

Embora o texto possa parecer esquisito e bagunçado para quem chega ao livro desavisado, a coisa não é tão complicada assim. Rulfo emprega uma sintaxe entrecortada que emula o movimento pendular da memória, com frases curtas interrompidas por silêncios narrativos. Ele privilegia verbos de estado sobre verbos de ação, o que cria uma temporalidade estagnada que reflete o próprio vilarejo de Comala.

Vine a Comala porque me dijeron que acá vivía mi padre, un tal Pedro Páramo. Mi madre me lo dijo. Y yo le prometí que vendría a verlo en cuanto ella muriera.

Outro aspecto que deve ser notado é a adjetivação econômica, mas que ressalta contraposições como calor/frio, silêncio/murmúrio, e manifesta certa dualidade entre vida e morte. Isso, obviamente, está no cerne simbólico do livro.

El calor me hizo despertar al filo de la medianoche. Y el sudor. El cuerpo de aquella mujer hecho de tierra, envuelto en costras de tierra, se desbarataba como si estuviera derritiéndose en un charco de lodo.

Entender isso não nos ajuda a desviar da estrutura fragmentária do texto, que incorpora técnicas cinematográficas como fusões e cortes abruptos. É esse tipo de coisa que pode ser compreendida como uma antecipação da popularidade da literatura latino-americana das décadas seguintes.

—¿Y a qué va usted a Comala, si se puede saber? —oí que me preguntaban.

—Voy a ver a mi padre —contesté.

—Ah —dijo él.

Y volvimos al silencio.

[…]

Una bandada de cuervos pasó cruzando el cielo vacío, haciendo cuar, cuar, cuar.

Para dizer de um jeito mais pomposo, Rulfo dissolve hierarquias narrativas, pois ele permite que personagens secundários assumam, ainda que momentaneamente, o protagonismo da fala. Ou seja, a sinopse do começo deste texto, centrada em Juan Preciado e Pedro Páramo é enganosa. Você não vai acompanhar uma jornada desses personagens. Criar essa expectativa pode ser um dos motivos pelos quais a leitura se torna complicada para boa parte do público. Caso nos focássemos mais no ambiente e no contexto geral do texto, é possível que houvesse uma melhor fruição. Os cenários de Pedro Páramo são construídos por acumulação metonímica — uma parede descascada, um portal em ruínas —, o que evita descrições panorâmicas e privilegia detalhes que funcionam como extensões psicológicas das personagens:

Meu corpo sentia-se à vontade sobre o calor da areia. Tinha os olhos fechados, os braços abertos, as pernas desdobradas para a brisa do mar. E o mar ali em frente, distante, deixando apenas restos de espuma em meus pés, quando a maré subia…”

— Agora sim é ela falando, Juan Preciado. Não se esqueça de me dizer o que ela diz.

… Era cedo. O mar corria e baixava em ondas. Soltava-se da sua espuma e ia embora, limpo, com sua água verde, em ondas caladas.

Por falar em fruição. A sonoridade é algo que permeia a construção espacial feita por Rulfo, com ecos, sussurros e reverberações que substituem marcações geográficas precisas. Dá pra considerar que esse tipo de elemento foi decantado pelo autor nas diversas revisões, até que chegasse a uma média entre informação e sinestesia.

Al despertar, todo estaba en silencio; sólo el caer de la polilla y el rumor del silencio. No, no era posible calcular la hondura del silencio que produjo aquel grito. Como si la tierra se hubiera vaciado de su aire.

Essa média mistura-se com a distribuição temporal da narrativa, que segue uma lógica associativa, em que eventos distantes cronologicamente são aproximados por similaridades temáticas ou sensoriais. É essa aproximação que permite o surgimento de uma estrutura rizomática que desafia interpretações lineares:

Desde então a terra ficou baldia e arruinada. Dava pena ver a terra enchendo-se de achaques de tanta praga que a invadiu, quando a deixaram abandonada. De lá para cá, as pessoas se consumiram; os homens debandaram à procura de outros ‘bebedouros’. Lembro os dias em que Comala encheu-se de ‘adeuses’ e até nos parecia coisa alegre ir se despedir dos que iam embora. E é que eles iam com a intenção de voltar. Pediam para a gente tomar conta das suas coisas e das famílias. Depois alguns mandavam buscar a família mas não suas coisas, e depois parece que se esqueceram do povoado e de nós, e até de suas coisas. Eu fiquei porque não tinha para aonde ir. Outros ficaram esperando que Pedro Páramo morresse, pois pelo que diziam ele tinha lhes prometido herdar seus bens, e com essa esperança alguns ainda viveram. Mas se passaram anos e anos e ele continuava vivo, sempre ali, feito um espantalho diante das terras da Media Luna.

Compreendidos esses formalismos, Pedro Páramo aborda algumas questões bem explícitas sobre a condição humana e a situação específica das culturas interioranas do México. É certo que essa especificidade encontra reverberações e espelhamentos nas experiências da maior parte das populações rurais latino-americanas. Logo, fica fácil imaginar aqueles cenários, nos quais Rulfo trabalha com a dissolução das fronteiras entre vida e morte e apresenta uma escatologia que não segue a dicotomia cristã tradicional de paraíso e inferno.

— Esta cidade está cheia de ecos. Parece até que estão trancados no oco das paredes ou debaixo das pedras. Quando você caminha, sente que vão pisando seus passos. Ouve rangidos. Risos. Umas risadas já muito velhas, como cansadas de rir. E vozes já desgastadas pelo uso. Você ouve tudo isso. Acho que vai chegar o dia em que esses sons se apagarão.

Estamos falando das estruturas enferrujadas de poder da sociedade rural mexicana pós-revolucionária. Ali, nós encontramos situações próximas ao coronelismo brasileiro, por exemplo, como um sistema opressivo que sobrevive às mudanças políticas superficiais e se embrenha em uma percepção ampla de impossibilidade de mudança estrutural. Nesse sentido, Rulfo debate o determinismo histórico e familiar e mostra como os personagens são prisioneiros de um ciclo de violência e ressentimento que transcende gerações.

Esperei trinta anos pelo seu regresso, Susana. Esperei até eu ter tudo. Não somente alguma coisa, mas tudo que se pudesse conseguir de maneira que não nos sobrasse nenhum desejo, só o seu, o desejo por você. Quantas vezes convidei seu pai para tornar a morar aqui, dizendo que precisava dele? Fiz isso até com mentiras.

Assim como muitos dos nossos romances brasileiros publicados entre 1930 e 1960, Pedro Páramo aponta para a impossibilidade da redenção e para a natureza da culpa. Rulfo escolhe negar a catarse e a absolvição tanto para os opressores quanto para as vítimas. Isso também reflete uma coerência conceitual da história. Nós não seríamos tocados, muito menos aprisionados, por fantasmas sem ressentimento. Nossos espíritos são terrenos e não se contentam com uma promessa fantasiosa de paz eterna além-vida. Isso não significa que não haja religião, mas suas instituições são pouco condizentes com a concretude dos nossos desastres.

O padre Rentería deixou que ela se aproximasse; viu-a cercar com as mãos a vela acesa e depois juntar sua cara ao pavio inflamado, até que o cheiro de carne chamuscada obrigou-o a sacudi-la, apagando a vela com um sopro.

Então voltou a escuridão e ela correu para se refugiar debaixo dos lençóis.

O padre Rentería disse a ela:

— Eu vim confortar você, filha.

— Então adeus, padre — respondeu ela. — Não volte aqui. Não preciso de você.

E ouviu quando se afastaram os passos que sempre deixavam nela uma sensação de frio, de tremor e de medo.

— Para que você vem me ver, se está morto?

O padre Rentería fechou a porta e saiu para o ar da noite.

O vento continuava soprando.

Presos nesse universo sem horizontes, no qual a metrópole é uma promessa distante e pouco crível, somos confrontados com momentos narrativos cativantes. A revelação da morte de Juan Preciado constitui um impacto muito sutil da narrativa, mas subverte as expectativas de quem lê e reconfigura a natureza ontológica de toda a história anterior. Já o encontro fantasmagórico com Miguel morto surge com intensidade diante do poder absoluto do coronel. A cena da morte de Susana San Juan, com o subsequente repicar dos sinos que Pedro Páramo interpreta erroneamente como celebração, marca um ponto de virada na narrativa, a partir do qual Comala encontra sua derrocada:

No alvorecer, as pessoas acordaram com o badalar do carrilhão. Era a manhã de 8 de dezembro. Uma manhã cinzenta. Não fria; mas cinzenta. O repicar começou com o campanário maior. Depois vieram os outros. Alguns achavam que era o chamado para a missa grande e começaram a abrir as portas; poucas, só aquelas onde viviam as pessoas madrugadoras, que esperavam acordadas que o toque do alvorecer as avisasse de que a noite havia terminado. Mas o repicar durou mais do que devia. Já não eram apenas os sinos da igreja maior, mas também os da igreja Sangue de Cristo, e o campanário da Cruz Verde, e talvez o do Santuário. Chegou o meio-dia e o repique não cessava. Chegou a noite. E de dia e de noite os sinos continuaram tocando, todos por igual, cada vez com mais força, até que aquilo se converteu num lamento ensurdecedor. Os homens gritavam para ouvir o que queriam dizer: “O que terá acontecido?”, se perguntavam.

Ao terceiro dia estavam todos surdos. Era impossível falar com aquele zumbido que enchia o ar. Mas os sinos continuavam, continuavam, alguns já trincados, com um soar oco feito o de um cântaro.

— Morreu dona Susana.

— Morreu? Quem?

— A senhora.

— Sua senhora?

— A de Pedro Páramo.

Começou a chegar gente de outras paragens, atraídas pelo repicar constante. De Contla, vinham como em peregrinação. E até de mais longe ainda. Sabe-se lá de onde, o fato é que chegou um circo, trazendo acrobatas e trapezistas. Músicos. Primeiro se aproximavam como se fossem curiosos, e num instante já tinham se transformado em vizinhos, de maneira que houve até serenata. E assim, pouco a pouco a coisa se transformou em festa. Comala formigou de gente, de festança e de ruídos, igual que nos dias da quermesse, quando dava trabalho dar um passo pelo povoado.

Os sinos deixaram de tocar; mas a festa continuou. Não teve como fazer o pessoal compreender que se tratava de um luto, de dias de luto. Não houve como fazer com que se fossem; pelo contrário, continuou chegando mais e mais gente.

Estes momentos, junto da morte de Pedro Páramo, são impactantes porque escapam da mera progressão narrativa para se tornarem alegorias da condição mexicana pós-revolucionária. No fim das contas, Rulfo apenas conta uma história, enquanto materializa na linguagem um México fantasmagórico onde passado e presente, vivos e mortos, opressores e oprimidos coexistem em um limbo do qual não há escapatória.

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