[texto curatorial] Concreto-Abstrato

Texto de Rodrigo Hipólito

Texto produzido para a exposição Pensamentos concretos para coisas abstratas, de Ana Paula Oliveira (OÁ Galeria, Vitória, 26 ago.–23 out. 2026).

 

Há um momento em que a escultura deixa de ser compreendida como objeto para tornar-se um caminho de leituras do mundo. É quando paramos de falar apenas da disposição de formas no espaço e apontamos para a construção de relações entre tempos, forças e estados da matéria. A produção de Ana Paula Oliveira acompanha esse deslocamento ao longo de mais de duas décadas. Desde as primeiras instalações/situações (por exemplo: Diadema, 2003; Alvorada na minha terra!, 2003; Um gato e as estrelas, 2007; Iminente, muito próximo então, 2009) até as pesquisas mais recentes, sua obra interroga aquilo que permanece entre estabilidade e transformação. Cada trabalho constitui um campo onde gravidade, resistência, erosão, memória e duração extrapolam a condição de conceitos abstratos para assumir presença física; como ocorreu em Possa/Poça (2020), Ainda que te vi (2013), Círculo de giz um pouco sobre sólidos (2016) e Um halo um elo, saudade de pedra (2023), que dialoga diretamente com parte do que podemos observar agora em Vitória.

Em “Pensamentos concretos para coisas abstratas”, ampliamos esse percurso ao apresentar uma série de colagens e objetos que não abandonam o pensamento escultórico. Esses trabalhos deslocam condições escultóricas para superfícies, enquanto mantêm intacta a atenção às propriedades dos materiais e às formas de encontro entre elementos que pertencem a universos distintos. Papéis, folhas metálicas, acrílico, couro, fragmentos de ferramentas, projetos técnicos, desenhos, marcas de tinta, fios e pequenos dispositivos aparecem reunidos sem perder sua condição anterior. Cada componente conserva parte de sua história, mas passa a participar de outra ordem de relações. É quase como se estivéssemos diante de recortes de um canteiro de obras reorganizados para adquirirem sentidos imprecisos, dependentes da observação.

Colagem de Ana Paula Oliveira, presente na mostra Pensamentos concretos para coisas abstratas. Detalhe de superfície de papel como camadas de tinta ocre e preta em faixas horizontais, com recortes de papel alaranjado com linhas pontilhadas e a palavra superfície manuscrita com caneta preta, detalhes de folhas de ouro espalhados pela parte inferior e uma fina placa de acrílico perpendicular ao papel, ao centro da imagem, sustentada por duas hastes de cobre apoiadas no topo da peça.

Essa passagem para a colagem tampouco representa uma mudança brusca ou antagônica de linguagem. Poderíamos pensar, de início, em mudanças de escala e pontos de vista. O problema permanece: Como aproximar materiais cujas origens parecem incompatíveis? Como construir um sistema capaz de manter diferenças sem reduzi-las a uma unidade? Como produzir uma imagem que continue sendo matéria antes de tornar-se representação? A colagem, nesse contexto, aproxima-se dos procedimentos gráficos para tornar-se uma forma de montagem espacial.

Essa compreensão sugere uma tradição que encontra em Kurt Schwitters um de seus antecedentes, embora a artista não se cerceie pela incorporação do fragmento como comentário sobre a vida urbana ou sobre a cultura industrial. O que importa aqui não é tanto o resíduo como índice social. Diante dessas peças, poderíamos nos interessar pela possibilidade de revelar continuidades inesperadas entre materiais submetidos a diferentes processos de fabricação, desgaste e uso. As superfícies metálicas, os papéis técnicos, o couro, o ouro e a tinta, se constituíssem uma coleção de objetos encontrados, tal encontro refletiria muito mais uma vivência doméstica e memorial do que citadina. São colagens que indicam estados distintos da matéria que passam a compartilhar uma só economia física.

Desde o final dos anos 1970, a crítica norte-americana mostrou que a escultura não poderia ser definida somente pela tradição monumental ou pela autonomia do objeto. Pensar os espaços, objetos e paisagens exige o estabelecimento de contrapontos. A produção de Ana Paula Oliveira confirma essa expansão, mas a conduz por outro caminho. Em vez de ampliar a escala ou ocupar o território, a artista comprime o espaço. Seus trabalhos condensam tensões estruturais em superfícies reduzidas, como se uma instalação inteira pudesse permanecer latente dentro de um canto do cômodo, uma folha de papel ou de uma pequena placa construída por sucessivas camadas.

Os trabalhos apresentados nesta exposição também evidenciam um interesse crescente pela paisagem. Não diria uma paisagem entendida como vista ou representação da natureza, mas como formação material. Camadas, estratos, fissuras, depósitos, cortes e sedimentações aparecem na organização visual e na constituição física dos trabalhos. As colagens lembram cortes geológicos, mapas incompletos, seções construtivas ou desenhos produzidos durante um processo de escavação. Pouco ou nada nelas nos faz pensar em um lugar específico. Cada uma propõe uma hipótese sobre a forma como o mundo se acumula e se transforma.

Essa dimensão recorta sua pesquisa em uma discussão que atravessa a atualidade, em torno da geologia e do Antropoceno. Autores como Manuel DeLanda, ao pensar a matéria como processo; e Jane Bennett, ao discutir a vitalidade da matéria, oferecem fulcros para compreendermos trabalhos que recusam a separação entre natureza e cultura. Em Matéria Vibrante, Jane Bennett desafiou a visão tradicional de que a matéria é passiva, inerte ou morta. Em vez disso, ela propõe o conceito de materialismo vital, com o argumento de que a matéria possui sua própria vitalidade, sua energia e sua capacidade de ação (agência). Em uma linha similar, Manuel DeLanda, vinculado ao pensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari, quer distanciar a matéria da condição de inerte ou passiva, à espera de uma forma que lhe seja imposta. A matéria, nesse caso, deve ser considerada como um processo dinâmico e auto-organizador, repleto de intensidades que geram formas e estruturas ao longo do tempo (morfogênese). Logo, os materiais deixariam de funcionar como simples suporte da ação humana. Cada elemento manifestaria propriedades próprias, responderia às forças que o atravessam e interferiria no comportamento dos demais componentes do trabalho.

Nesse sentido, o título “Pensamentos concretos para coisas abstratas” introduz uma tensão decisiva. Durante o século XX, concreto e abstrato ocuparam posições quase opostas no vocabulário artístico. O concreto remetia à materialidade, enquanto o abstrato era associado à construção formal ou conceitual. Ana Paula Oliveira dissolve essa oposição. O concreto deixa de designar somente uma condição material. O abstrato deixa de significar afastamento do mundo. Ambos passam a coexistir no interior de uma experiência/observação. A matéria produz pensamento e a abstração nasce do contato direto com aquilo que possui peso, textura, desgaste e espessura.

Essa condição também nos faz pensar em Eva Hesse, cuja investigação sobre materiais industriais buscava sublinhar processos de transformação, fragilidade e duração; e mesmo em Robert Smithson, interessado na temporalidade geológica inscrita na matéria. As aproximações, contudo, não devem decorrer de afinidades puramente formais, mas sim de um interesse similar por compreender as propostas poéticas como acontecimentos materiais, atravessados por forças que escapam do controle da artista.

Em trabalhos recentes, Ana Paula Oliveira introduz fragmentos de desenhos técnicos, textos, esquemas construtivos e anotações, que aparecem parcialmente ocultos sob camadas de tinta, metal ou papel. Esses fragmentos ainda possuem certa dimensão documental, pois funcionam como vestígios de sistemas de conhecimento. Engenharia, arquitetura, cartografia e desenho industrial vêm à mente, aqui, como linguagens que procuram organizar o mundo segundo critérios de precisão. Sem a obrigação de confirmá-los ou negá-los, a artista se permite abarcar tais sistemas. Ela os coloca em contato com processos de desgaste, deslocamento e recomposição que tornam visíveis seus limites. O cálculo ainda está ali, mas passa a conviver com aquilo que está para além de duas predições.

Esse procedimento possui certa afinidade com algumas reflexões desenvolvidas por Tim Ingold acerca das linhas, dos percursos e da fabricação das coisas. Para Ingold, materiais não são substâncias estáticas à espera de uma forma exterior. Eles participam de fluxos, respondem ao ambiente e transformam-se continuamente. Ele propôs pensarmos sobre como habitamos e interagimos com o mundo, mas distante da ideia de que somos seres fixos cercados por objetos inertes. A vida seria um emaranhado de linhas, o viver seria um percurso contínuo e a fabricação das coisas um diálogo vivo entre quem faz e o material, e não a somente a imposição de uma forma sobre uma matéria. Os trabalhos reunidos nesta exposição parecem nascer dessa mesma compreensão. Nenhum elemento ocupa uma posição definitiva. Cada superfície registra deslocamentos anteriores e anuncia transformações futuras.

Há ainda um aspecto decisivo na experiência proposta pela exposição. As colagens não devem ser observadas apenas frontalmente. Sua espessura produz sombras, pequenas diferenças de altura, saliências, cortes e dobras que modificam continuamente a percepção. A superfície excede o limite entre imagem e suporte, pois torna-se espaço de construção. Ou seja, quando o plano adquire profundidade e a horizontal encontra a vertical, a parede passa a comportar uma experiência que continua a se desenvolver nos domínios da escultura, o que significa também questioná-los.

Esse movimento produz uma situação singular dentro da trajetória da artista. Durante muitos anos, sua produção concentrou-se em objetos e instalações nos quais a presença física do corpo era condição para a experiência da obra. As peças reunidas em “Pensamentos concretos para coisas abstratas” preservam algo dessa dimensão corporal, embora recorram a outra escala. O olhar percorre cada camada com atenção, cada junção e cada intervalo, já que a distância entre os materiais se torna tão significativa quanto a materialidade. A percepção nem mesmo ocupa-se da busca por uma imagem total para acompanhar processos de aproximação, interrupção e continuidade.

Não há narrativa única ou símbolo central. O que a exposição oferece é um conjunto de experiências materiais capazes de tornar perceptíveis formas de coexistência entre elementos que permanecem diferentes. Em um momento histórico marcado pela aceleração da produção de imagens digitais e pela perda progressiva da experiência tátil, Ana Paula Oliveira reafirma a potência crítica da matéria, sem medo das tradições artesanais e quase como uma celebração da materialidade em si mesma. A matéria aparece como lugar de pensamento, de memória e de transformação.

Talvez seja essa a contribuição mais significativa desta exposição. Os trabalhos nos lembram de que toda forma resulta de encontros provisórios entre forças distintas. Nenhuma superfície é definitiva. Nenhum equilíbrio elimina a possibilidade da queda. Nenhum sistema encerra aquilo que pretende organizar. Entre o concreto e o abstrato existe um território onde materiais continuam a produzir sentido antes mesmo de se converterem em imagem. É nesse território que Ana Paula Oliveira tem construído uma marcante e consistente pesquisa sobre espacialidade e matéria.

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