[texto de processo] Conversa sobre A(s)cender

Texto de Rodrigo Hipólito

 

Registro da conversa dentro da exposição A(s)cender, na galeria do Sesi Cultura de Jarim da Penha (Vitória, ES). Em meio às obras, da esquerda para a direta, sentados e conversando, Vitor Burgo, Paulo Künsch, Rodrigo Hipólito, Samira Pavesi e Natan Dias.

Após publicar a crítica A temperatura da forma em “A(S)cender” (ES Hoje, 17 jul. 2026), fui chamado para mediar uma conversa entre artistas, curador e público, dentro da exposição, na galeria do Sesi Cultura de Jardim da Penha (Vitória, ES). Este texto de processo é composto por algumas anotações que antes e a partir dessa conversa com o curador da mostra, Vitor Burgo, e com três dos artistas, Natan Dias, Paulo Künsch e Samira Pavesi.

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Transformar a matéria é algo que sempre exige uma dose de violência. Nós forçamos a matéria a assumir outra forma de acordo com nossa vontade, intenção, desejo, ou seja lá qual outra palavra nós usemos para justificar nossa ação sobre materiais e natureza. Não atoa Aristóteles escolheu a palavra hylé para dizer “matéria”, pois a madeira só se torna madeira quando nós matamos a árvore.

Mas essa é uma relação bem ocidental e questionável com a matéria. Os materiais têm outras histórias e cada artista desenvolve sua própria relação com a transformação. Perguntei aos artistas se eles já tinham pensado, nos seus processos, sobre a relação entre metal, a história desse material e a violência.

Natan Dias responde com uma reflexão sobre o dia a dia do ateliê e a presença longeva do metal nos mais diversos atos de fabricação, enquanto Samira Pavesi fala de sua aproximação recente com um material tão diverso dos atos de coleta e reaproveitamento que já empreendia, e Paulo Künsch remonta ao seu contato familiar com a metalurgia e a inevitabilidade de encarar essa violência de modo direto.

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Comentei que há uma pressão do cenário mais recente para que artistas tratem, apresentem e valorizem processos ligados aos metais e outros materiais industriais. Esses são os casos de Lucas Bambozzi, Nuno Ramos, Jorge dos Anjos, Moon Kyungwan e Mari Fraga. Esses materiais (metal, concreto e vidro) possuem um histórico modernos que deixou marcas inegáveis no cenário das artes e em especial no caso brasileiro. Nosso concretismo, com sua base construtivista, moldou trilhas para a arte contemporânea desenvolvida no Brasil e suas marcas parecem permanentes. Mas, o tratamento exigido com esses materiais na atualidade é outro. Podemos perceber pelos termos dedicados ao tema em uma edição recente da Arte & Ensaios (n. 45, 2023), intitulada Arquivo Terra: ruína, ética da terra e Antropoceno.

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Essa discussão me fez pensar na Matéria Vibrante, de Jane Bennett, na matéria auto-organizadora, de Manuel DeLanda, e na ideia de vida como diálogo entre materiais, de Tim Ingold. Esses são nomes e ideias que, por coincidência, eu tinha em mente enquanto escrevia outro texto crítico, para a mostra de Ana Paula Oliveira, na OÁ Galeria, e que espero poder desenvolver com mais cuidado.

De modo sintético: Jane Bennett, Manuel DeLanda e Tim Ingold convergem na crítica às concepções que subordinam a materialidade à ação exclusiva do sujeito humano. Suas ideias funcionam como ferramentas que oferecem fundamentos para uma compreensão relacional dos processos artísticos. Em Matéria Vibrante, Bennett propõe que a matéria possui capacidades de afetação que participam da constituição dos acontecimentos, de modo a recusar a ideia de objetos inertes. DeLanda, por sua vez, desenvolve uma ontologia das multiplicidades e dos agenciamentos, segundo a qual entidades materiais, biológicas e sociais se organizam em composições contingentes cujas propriedades emergem das relações entre seus componentes. Já Ingold desloca essa discussão pra uma perspectiva processual, posto que ele compreende materiais, organismos e ambientes como fluxos contínuos de transformação e rejeita a separação entre forma e matéria em favor de uma concepção baseada no fazer, no crescimento e na correspondência entre seres e meio.

Como estamos no campo da arte contemporânea, vale dizer que essas formulações nos ajudam a considerar propostas de arte como mais distantes de um objeto acabado, quer dizer, como algo que valorize os processos constituídos pela interação entre materiais, técnicas, dispositivos, ambientes e públicos. A vitalidade da matéria descrita por Bennett, a teoria dos agenciamentos de DeLanda e a noção de linhas de correspondência proposta por Ingold abrem algumas portas para análises que colocam em primeiro plano a instabilidade e a emergência de propriedades durante o processo.

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Diante desse cenário e dessa percepção, muitos desses artistas têm apenas dado um giro de 360° para continuar a alimentar o fetiche dos objetos enquanto assumem os discursos contrários a ele. Daí a pergunta para os artistas sobre como eles acham que isso afeita os significados dos trabalhos. Como é possível trabalhar nesse cenário e desenvolver uma ética contemporânea?

Aceitar que os materiais e a natureza possuem agência  é a “bola da vez”, mas isso poder ser uma desculpa para não assumir responsabilidade nos processos e escolhas. Como nós poderíamos ter um diálogo de igualdade com a natureza e seus materiais? Outro risco é recair em uma estranha contradição: dizer que há um diálogo de igualdade com a natureza enquanto fazemos trabalhos que se recusam a estar no quotidiano, que é onde ocorre esse diálogo concreto. Pergunto aos artistas se seus trabalhos estão integrados à vida quotidiana ou se eles habitam outro mundo. Essa pergunta gera uma série de discussões, com participação do público. Há a necessidade de que a arte seja algo especial, mas também que ela esteja presenta na vida da maioria das pessoas, que seja normalizada. Parece existir essa contradição nos desejos e frustrações das pessoas envolvidas com o campo das artes: a vontade de que a arte se prove como um momento revelador, diferente do automatismo produtivo no qual vivemos, ao mesmo tempo em que deveria ser corriqueira (se não for, ela continuaria elitizada).

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Ao final da conversa, Claudia Murta retomou o ponto da violência sobre os materiais. A palavra violência parecia inadequada e incômodo. Ao fazer a escolha por essa palavra, supus o incômodo. Pode ser alentador imaginar que nós, seres humanos, somos criaturas frágeis diante de uma natureza assustadora. Esse sentimento que move o desejo de conquista romântico ainda é forte, mais de 200 anos depois de seu diagnóstico. Para além disso, penso ser interessante nos desviarmos do ponto de vista humano para considerar certas ideias. A ideia de violência é uma delas. Sua carga negativa está ligada às nossas normas, à nossa ética entre pares humanos, à preservação de nossa liberdade e ao suprir de nossas necessidades. Chamamos a negação ou a supressão dessa liberdade e dessas necessidades, quando em confronto com nossas normas e ética, de violência. Não supomos que valha o mesmo para as demais coisas com as quais dividimos o planeta. Como consideramos que as outras formas de vida, os minerais, a água e o ar estão disponíveis para o nosso uso, como se fossem naturalmente nossa posse é difícil considerar que somos violentos. Essa percepção surge apenas quando humanizamos esses entes. Quando observamos animais e imaginamos que eles têm sentimentos iguais aos nossos, linguagem como a nossa, inteligência ou sociabilidade, ficamos com pena diante de seu sofrimento. Mas quando isso não acontece, parece inadequada a ideia de violência. Nós nos achamos muito especiais.

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