Texto de Rodrigo Hipólito
Texto crítico produzido para a exposição Eu é o outro (Matias Brotas Arte Contemporânea, , Vitória, 16 jun.–14 ago. 2026).
Há certa inevitabilidade no encontro entre dois artistas cujos processos convergem sem que tenham sido planejados para isso. Lando e Rosana chegam a esta exposição por caminhos que, embora distintos em suas matérias e geografias, compartilham uma mesma pergunta de fundo: o que o outro tem a ver com aquilo que sou?
A resposta que cada um elabora vem da matéria, do fogo, das superfícies que guardam pressão e tempo, mas também do reflexo entre o eu e o outro. Esse espelhamento não significa qualquer pareamento de identidade. O estranhamento do duplo, suposto como outro, e o eu é resultado do embate com a finitude, com a própria morte que nos cerca. Esse é um aspecto que abarca os processos e trajetórias de ambos os artistas. Lando desdobra-se como outro, Rosana desdobra o outro sobre si. O que retorna, nesse encontro, é algo ligeiramente deslocado, a versão que o outro produz de nós sem saber que o faz. O próprio Lando formulou isso com precisão, ao escrever sobre seu processo de reapropriação de si: “as relações interpessoais, mais ou menos intensas, funcionam como espelhamentos que devolvem, como reciprocidade, novas percepções de si.” O outro não confirma o eu, ele o perturba e, nessa perturbação, algo se torna visível.
Embora a autoficção seja hoje um instrumento consolidado da literatura, seu uso nas artes visuais ainda tropeça. Nesta exposição, dois exemplos deixam claro que o recurso é método. Costumeiramente, adentramos o universo psicanalítico na tentativa última de compreender a lógica de trabalhos autoficcionais. Esse é o esforço de invocar palavras. No caminho oposto, a psicanálise nos permite aguçar a percepção. Nesse caso, o gasto de energia é maior, pois o contato com os trabalhos de arte deixa de ser apenas analítico para se tornar revelador.

Vista da exposição Eu é o outro. Em primeiro plano, esculturas de cabeças expressivas e coloridas feitas de cerâmica esmaltada expostas sobre tijolos de cimento. Ao fundo, parede azul com conjunto de várias pequenas esculturas de bronze de mulher de calças e camisa larga, afixadas na parede em linhas.
Esse conjunto de cerâmicas de Lando vem de seis meses de experimentação intensa, em vários ateliês, com a abertura à imprevisibilidade dos óxidos, ao tempo lento da queima, ao que a argila decide por conta própria. As esculturas menores, que ele nomeia de coágulos, são feitas da massa retirada do interior das peças maiores. A matéria realmente coagula, ela fixa o que estava em suspensão. O barro não obedece a intenções predefinidas. Ele abre caminhos que o artista segue, e não o contrário.
Lando é um sujeito que habita mais de um lugar em simultâneo: vivendo entre Vitória e Lisboa, marcado pela presença do art déco português, atento às cerâmicas de Rafael Bordallo Pinheiro, com sua estética exuberante e seu uso das cores como afirmação cultural, mas também nutrido por referências que chegaram de fora da academia, dos antiquários, das velharias, das quinquilharias que guardam o que o circuito oficial descarta. Essa condição de sujeito local-estrangeiro produz um olhar que não se resolve em uma só pertença, e é essa instabilidade que alimenta as cabeças de cerâmica.
A série de cabeças dá continuidade a algumas questões que Lando persegue desde o final da década de 1990. Falamos da autorrepresentação e da insistência na identidade instável. O que ele escreve sobre seu trabalho com autorretratos desdobra-se sobre a representação de possíveis outros. O conjunto construído configura aspectos de singularidade, enquanto revela identidades que podem ser lidas como a fusão entre realidade concreta e imaginação material, como expressão do eu como outros de si, como materialização do sentimento de multiplicidade do sujeito. Essa formulação, do próprio artista, é precisamente o que a exposição propõe como experiência.
Não muito tempo atrás, Lando esteve diante das peças de Franz Xaver Messerschmidt, escultor do século XVIII cujas séries de cabeças em metal e alabastro representam expressões faciais ao limite da convulsão. Messerschmidt acreditava ser perseguido por um Espírito das Proporções que o forçava a executar aquelas faces contorcidas como forma de proteção. Há, no projeto apotropaico desse escultor, no uso da imagem para afastar o mal e conter o caos, algo que ressoa no trabalho de Lando: as cabeças não são retratos de alguém em particular, embora possam ser para quem as observa. São rostos que existem para dar forma ao que resiste à fixidez, o que inclui a assimetria inevitável dos nossos próprios rostos, que nunca são o que o espelho devolve.
Quando mergulhava em autorretratos, Lando deixava-se levar sobre a pintura. A argila e a tinta têm em comum a condição de um estado de caos inicial. No trato com a tinta, as densidades e os tempos constroem dinâmicas específicas com o artista. No mesmo sentido, não há forma predefinida ao toque das mãos sobre o barro. O ato de tensionar a matéria, em diálogo com a condição específica da terra e da água, precede qualquer escolha figurativa. Trata-se de um processo de transbordamento do eu, conduzido pelos impulsos físicos mais sutis, sem interesse em ser racionalizado. Essa é a entrada ao que Gaston Bachelard chamou de imaginação da matéria, tão reveladora quanto o retorno narrativo sobre as próprias memórias.
Os trabalhos de Rosana Paste fazem girar a tríade corpo, memória e materialidade. Ela submete a matéria às marcas incidentais, orgânicas, permanentes ou temporárias que surgem da afirmação de estar viva. Isso significa reconhecer os corpos como esculturas incontroláveis. A linha que atravessa toda seu caminho poético-pessoal ganhou concretude no happening da tatuagem, em 2004: um ato que inseriu literalmente essa linha no seu corpo e, em seguida, nos corpos de familiares e amigos, e mudou a compreensão de uma trajetória inteira.
Rosana é expansiva. Ela não contém o movimento, ela o vive com uma intensidade que é ao mesmo tempo centrífuga e gravitacional. Mas seu ímpeto poético responde ao movimento expansivo com a condensação. O chumbo, o ferro, o vidro — materiais densos, de peso real — são os instrumentos pelos quais ela fixa o que ameaça se dissolver. A memória que escapa ganha peso e promete nunca a abandonar. O que desaparece recebe forma mineral.
Quando Tiago Mesquita escreveu sobre o conjunto de sua obra, em 2004, o primeiro grande acerto foi o título escolhido para o texto: Presente perfurado. O que ela realiza com a matéria é a marcação de seu movimento expansivo. Nessa vida que se dilata, ela atinge e abarca outras pessoas e é atingida por elas. Por isso, os processos de marcação das memórias em chumbo, ferro, vidro e no próprio corpo são o mesmo.
Os múltiplos de sete e os elementos trípticos que atravessam sua obra, quando pensamos na filha que vira mãe e vira avó, respondem a uma necessidade de conter, de dar ordem ao que se expande e ao que morre. O medo do fim, formulado com clareza pela artista, e a coragem de encará-lo todos os dias para continuar: essa é a tensão que sustenta tudo. O trabalho de Rosana nos alerta de que a experiência de lembrar envolve sempre a construção de novas memórias. Não há acesso ao passado que não seja, também, uma invenção do presente.
Lando e Rosana trabalham com suas alquimias particulares. Entender-se como operário da alquimia não deve ser estranho para quem se habituou a trabalhar com a transformação da luz em imagem fixada, da terra amorfa em objeto, do mineral em cor, da transparência em espaço, da linha em impacto. Ambos dependem do fogo, da queima, da contenção do calor, da energia possível apenas a partir do oxigênio que nós também consumimos para permanecer em movimento.
Há algo que convém notar nessa dependência compartilhada: nossas tecnologias ancestrais espelham as tensões e os acordos mais íntimos do corpo. Derreter metais, moldar barro, acompanhar a trajetória da luz que vem a ser cor, sombra e linha, são empenhos alquímicos de dar corpo ao mundo. Isso é o que toda arte faz quando acontece: ela torna denso o que era difuso, torna concreto o que estava na borda do sensível, e compartilhável o que parecia intransferível.
A série de cabeças de Lando e os objetos de memória de Rosana, ao se encontrarem neste espaço, propõem que você refaça a linha entre seus corpos percebido e interior, entre seu eu inventado e a invenção do outro. Ainda no universo psicanalítico, ambos fazem um convite singelo ao estranhamento. Para perceber que o eu, esse território que julgamos conhecer, é sempre composto de outros que o habitam sem anunciar sua presença.
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