Chronos e Kairós: determinações poéticas para o tempo vivido

PEDRONI, Fabiana.  Chronos e Kairós: determinações poéticas para o tempo vivido. In: IV Colóquio de Arte e Pesquisa do PPGA-UFES: Modos de Fazer, Modos de Exibir, 2013, Vitória, ES. Anais do IV Colóquio de Arte e Pesquisa do PPGA-UFES: Modos de Fazer, Modos de Exibir, 2013.

Resumo: Este é um relato do processo de pesquisa, realização e produção da mostra “Chronologia Kairológica” (Galeria Homero Massena, Vitória, 2013). A instalação traz para discussão os modos de entendimento e vivência do tempo. A relação antagônica entre os mitos gregos de Chronos e Kairós serve simultaneamente de imã e catalisador para a pergunta sobre os limites dos tempos particular e partilhado. Num passeio pelo processo de criação serão discutidos os desdobramentos dessa instalação que extravasam o espaço expositivo e dissolvem-se em vivências. Grande parte dos resultados atingidos na realização de um trabalho de arte perecem através do caminho percorrido. Da publicação na web às atividades singelas e pessoais dos envolvidos na efetivação do trabalho é possível observar os reflexos do traçado poético.

Palavras-chave: Processo de criação. Tempo. Exposição. Desdobramento.

Chronos and Kairos: poetic determinations for the time lived

Abstract: This is a report of the process of research, development and production of the exhibition “Chronologia Kairológica” (Homero Massena Gallery, Vitória, 2013). The installation brings for discussion ways of understanding and experience of time. The antagonistic relationship between the Greek myth of Chronos and Kairos serves both magnet and catalyst for the question about the limits of particular times and shared. In a tour of the creation process we will discuss the consequences of this installation that go beyond the exhibition space and dissolve into experiences. Much of the results achieved in the realization of a work of art perish through the path taken. From web publishing to activities simples and personal involved in the execution of the work you can see the reflections of the tracing poetic.

keywords: Creation process. Time. Exhibition. Unfolding.

Este é um relato do processo de pesquisa, realização e produção da mostra “Chronologia Kairológica” (Galeria Homero Massena, Vitória, 2013). Tal exposição constitui-se formalmente por quatro partes: doze placas de vidro com gradações de maresia suspensas, 18 velas sobre toras de carvão, um relógio incrustado na parede de fundo da galeria e uma linha de texto que circunda toda a instalação. Com as sutis distinções entre as placas de vidro e a queima das velas que acompanha os 45 dias de vigência da mostra essa instalação discuti os sentidos de tempo vivido e tempo contato.

O presente texto apresentará, geneticamente, os principais eixos teóricos que influenciaram a ideia original do projeto em conjunto com referências da produção de arte com as quais observa-se a possibilidade de diálogos. Permeada pela descoberta e o tratamento poético de conceitos, autores, materiais e modos de fazer, a produção da referida exposição será descrita em obediência as sucessivas e inevitáveis metamorfoses ocorridas em seu desenvolvimento.

A instalação “Chronologia Kairológica” traz para discussão os modos de entendimento e vivência do tempo. A relação antagônica entre os mitos gregos de Chronos e Kairós serve simultaneamente de imã e catalisador para a pergunta sobre os limites dos tempos particular e partilhado. Enquanto Chronos é a personificação do tempo calculado, aquele subordinado ao relógio e do qual não conseguimos fugir facilmente, Kairós é a qualidade do tempo vivido. Kairós  é o tempo oportuno, que faz um acontecimento ser especial, memorável, não em seus números, mas em sua significância. Apesar de tal oposição, essas personagens jamais se anulam e na compreensão da presença contínua de ambos em nosso modo de habitar o mundo abrem-se as margens para um tempo chronologicamente kairológico: um momento único e oportuno (Kairós) localizado em nossa rotina massificante (Chronos). A resignificação do tempo observado é absorvida pela eternidade em pequenos pontos atemporais.

Mas qual o sentido de observar o mundo sem vivê-lo? Num passeio pelo processo de criação serão discutidos os desdobramentos dessa instalação que extravasam o espaço expositivo e dissolvem-se em vivências.  Grande parte dos resultados atingidos na realização de um trabalho de arte perecem através do caminho percorrido. A reversão de tais resultados para o público ou para o privado constituem possibilidades exploradas em Chronologia Kairológica. Da publicação na web às atividades singelas e pessoais dos envolvidos na efetivação do trabalho é possível observar os reflexos do traçado poético.

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Mais que estar entre as paredes da galeria, a instalação parte das vivências no hábito e a ele retorna. Na relação genética da obra com a minha vivência no mundo, o trabalho nasce de experiências a princípio externas às especificidades do projeto, mas que a elas muito deve de seu corpo. Entremos, portanto, nesta narrativa pelos pontos do hábito.

Noite do dia 14 a 15 de setembro de 2012 – “Pensamentos soltos noturnos” [Apontamento II, p. 94]. Este é o primeiro registro material, em caderno de anotações, que daria origem à instalação. O que restou materialmente dele na mostra? a ideia central, o tempo, e a presença do relógio, mas de um modo distinto. Sem números, sem amarras. 16 de setembro de 2012 [Apontamento II, p. 98]. Chronos e Kairós são registrados. 30 de setembro de 2012 [Apontamento II, p. 101], listagem de uma série de palavras relacionadas à Chronos e Kairós, como correntes, ataduras, trincas, poeira, relógio, maresia, fragilidade, linhas, água, vento, som, neblina, embaçamento, tecido, derrete, escorre, livro, reflexo, distorção, ausência, vida, árvore, labirinto, descontinuidades… E a descrição de alguns ciclos vegetativos, como do girassol e da lágrima-de-Cristo. 30 de setembro de 2012, parte II [Apontamento II, p. 104], pesquisa sobre diferentes relógios: relógio d’água (clepsidra), relógio de areia (ampulheta) e as salinas kairológicas (espécie de ampulheta criada para a exposição). 02 de outubro de 2012 [Apontamento II, p. 107 a 109], novas definições para as contagens de tempo e início da expografia.

Entre a contagem de dias e páginas, tudo aparenta organizado. O que se esconde entre os números é a própria vivência ansiosa. Dois pontos são importantes na definição da mostra: a prova de mestrado na área de história e minha mudança para São Paulo. Dentro das referências sugeridas para uma avaliação, algumas leituras se impregnaram no meu modo de pensar a história e a própria memória. A ideia da criação de narrativas e montagens de memórias deram origens aos primeiros textos que surgiam antes mesmo da instalação.[1] Textos que emergiam em outros projetos, mas que viriam a tomar corpo novamente. Com minha mudança prevista para fevereiro de 2013 somada à uma insistência da ansiedade, aqueles quase 6 meses pareciam recortados em pequenos fragmentos. Numa tentativa de “guardar” memórias a serem recompostas posteriormente, comecei a fotografar e registrar alguns momentos que antes eram ignorados. Das fotografias que se estenderam por mais tempo, até minha partida, estava a “vigia do mar” [nome da pasta onde elas estão locadas]. Meu medo em perder o mar era um tanto ilógico, afinal, ele ainda estaria ali. Não sou tão praieira como outros, mas gosto de vê-lo e tê-lo.[2]

Tratavam-se, portanto, de mudança de cidade, de costumes, de alimentação, de deslocamentos, de pessoas, de tudo o que eu pudesse identificar como meu.[3] Era o temor do imprevisto no futuro e o sentir do tempo de modos distintos. Momentos de ansiedade em que o tempo parecia parado, o vento não soprava e tudo localizava-se na lentidão da espera, contraposto a um tempo veloz, que não me deixava sentir a maresia e ouvir as ondas, porque São Paulo se aproximava a passos largos. Todas as expressões populares possíveis são aplicáveis ao sentimento contraditório de tempo. Dar tempo ao tempo. A ideia foi maturando entre estas experiências até voltarmos as páginas do Apontamento II e depois à exposição na galeria e depois, ainda, a outras produções, porque o tempo não para.

A grande quantidade de expressões que temos na linguagem oral, e escrita, para a descrição do tempo como elemento comparativo já denuncia a importância deste como um norteador. O que é o tempo? onde ele está? qual é sua forma, sua identificação? como sentimos o tempo? São questões que a mostra instiga, mas não responde. Após tanto ler, (ainda há várias leituras pendentes, afinal, muitos pensaram e escreveram sobre o tempo!) chego a conclusão de que me simpatizo com a afirmativa de Santo Agostinho: “Se não perguntarem julgo saber o que é o tempo, mas se perguntarem, deixo de saber”.[4]

Na tentativa de me aproximar das muitas visões do que seria o tempo, encontrei nos mitos gregos Chronos e Kairós um antagonismo apropriado para falar de um elemento tão múltiplo. O primeiro é o responsável pelo tempo marcado, contado. É o relógio matemático de nossas atividades. O outro é a qualidade de todo tempo vivido, é o momento oportuno, que nos marca. Dois modos opostos de se pensar o tempo mas que não se anulam. A possibilidade de nossa vivência pendente entre um e outro toma forma na instalação.

O acúmulo de maresia em placas de vidro cria uma contagem de tempo cuja marcação é de natureza imprevisível e sutil. A ilusão de controle é desmascarada. São 12 placas, todas expostas no mesmo dia à maresia, e a cada 5 dias uma é reservada, até todas estarem encaixotadas, prontas para irem para a galeria. Neste esquema cada uma teria uma diferença de 5 dias de acúmulos do tempo. Mas não foi assim. A posição espacial, mais próximas ou afastadas do beiral da varanda, se no chão, se em pé, se alguém estaria disponível para ajudar a retirá-la da varanda no dia exato, afinal, cada placa tem 150x60cm, culpa da meteorologia, se chovia, se fazia sol, se ventasse .. eram muitos “se” para um cálculo exato. E mesmo assim elas acumularam. Tornaram-se opacas, passagem poética para um tempo não vivido, mas que ainda guarda certa transparência.

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Figura 1. Visão geral da instalação [imagem do projeto proposto]

O relógio também está lá. [Figura 2] Incrustado na parede, girando livremente, sem marcar nada além de sua presença. Ainda é um relógio sem as marcações numéricas? Por que não uma poesia? O poema que o corta não o fragmenta. Brinca com seus espaços. Brinca com o sujeito que o segue ao entorno da galeria, como numa procissão, daquelas que não importa o tempo, continua seguindo.

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Figura 2. Esquema de ponteiros

O movimento circular dos ponteiros nos iludem com a ideia de retorno [há aqueles que pensam que o tempo é uma ilusão]. [14:25:36hms] Há um tempo quantitativo sob o qual podemos evidenciar a existência de uma indeterminação contida no sujeito que pensa o tempo. Do instante em que iniciei minha ação de contagem do tempo ao instante em que escreveria as parcelas mais momentâneas, o presente tornou-se passado. A palavra “tempo” não diz praticamente nada da coisa que pretende exprimir (a aporia do tempo). O tempo torna-se passado, o presente é o instante ínfimo entre a expectativa e a formação de acúmulos. Não há um retorno, não podemos nos virar de cabeça para baixo e acharmos que o tempo retorna como em uma ampulheta. A passagem do tempo está na própria mudança do corpo. No projeto inicial, o tempo sem retorno viria à mostra por uma ampulheta subvertida, como o relógio o foi ao retirar seus números. [Figura 3] Sua areia seria transformada em sal, daquele que conserva, que mantém a demora, em constante queda, em constante passar, sem saber quanto ainda resta pela frente.

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Figura 3. Esquema de ampulheta

O sal que cairia do teto, na linha do relógio, formaria uma ampulheta. Tal estrutura deveria ser feita com um furo no teto da galeria, pelo qual seria passado um fino tubo. No segundo pavimento, um recipiente cônico de vidro contendo o sal que escoaria num filete e se acumularia no chão logo abaixo do relógio. Mesmo que estratégias estivessem definidas para que a umidade não interrompesse o fluxo de sal, pouco se poderia fazer quanto a perfuração da laje de pouco mais de 60cm de espessura. Segundo os funcionários da galeria, o prédio foi, em tempos remotos, um estacionamento, com lajes reforçadas. Qual a solução? desespero artístico?

A finitude e a irreversibilidade da vida precisavam de outra forma poética para serem ditas. Se o tempo acumulado nas placas de vidro estavam na minha varanda, a finitude estaria.. na despensa! Ao lado do sabão em pó, que dura cada vez menos, as velas. [Figura 4] Objeto de memória, de rito, contador de histórias e de choros. Junto a este tempo que não retorna, que escorre e que evapora, o tempo da expectativa. 18 velas planejadas matematicamente para durarem durante toda a mostra, ainda aguardam seu tempo.[5] Expectativa de duração e de ação. Postas sobre toras de carvão, a finalização da queima pode implicar no início de uma nova queima. O que acontece com o tempo da vela e com o nosso tempo?

Em Chronologia Kairológica encontramos, assim, vários tempos, que dependem do sujeito que o percebe e das condições em que é posto e pensado. Nós vamos vivendo e não paramos para pensar e sentir o próprio tempo, nos modos distintos como ele se apresenta para nós e como nós nos apresentamos para ele. A própria exposição tem um tempo definido, ela terminará no dia 21 de dezembro, mas nestes dias, que outros sentidos e sentimentos de tempo ela pode trazer? O que acontece com o tempo quando passamos a perceber sua presença nas coisas e em nós? São questões como estas que a instalação Chronologia Kairológica busca instigar.

A Chronologia Kairológica é uma tentativa de transformar o tempo do relógio em um tempo de experiências marcantes. Daqueles instantes ínfimos entre experimentar o doce de mamão da minha avó e sentir aquele pequeno minuto alongado e memorável. Há momentos em que parece que o tempo fica mais lento, ou o ar fica parado, e tudo ao nosso redor parece encolher, marcando aquele momento que você nunca vai esquecer. Nada impede que entre meu trajeto entre um compromisso e outro marcado pelo relógio eu possa viver outras experiências, mesmo as mais simples, de notar que as árvores possuem folhas e que elas balançam ao vento. Andar de um ponto a outro cegamente pode ser muito cansativo.

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Figura 4. Velas sobre toras de carvão.

 De mesmo modo que a ampulheta tornou-se vela, a Chronologia Kairológica tornou-se chronologias kairológicas, um modo próprio de narrativa que traz o tempo como seu principal agente. Entre a concepção do projeto e a execução, há desdobramentos de novas experimentações e vivências. Alguns que se tornam públicos pelo site da exposição [<chronologiakairologica.wordpress.com>], e outros que perecem na esfera particular de minha vivência. O site é um modo de dar visibilidade a outros trabalhos que se relacionam a mostra e a ela relacionam-se. Tem-se desde resenhas de livros lidos no processo de pesquisa[6] a fotografias e experimentos.[7]

Na ideia de tecer chronologias kairológicas, colocamo-nos diante do tempo com novas perspectivas. Sem ignorar o poder de um titã sobre a ordem do caminhar, olhamos para o lado porque as folhas ainda estão ali.

Referências

AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

GUYAU, Jean-Marie. A gênese da ideia de tempo e outros escritos. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

PEDRONI, Fabiana. Marcas do Devir. Vitória – ES: NOTAmanuscrita, 2012 (Material Educativo para exposição). Disponível em: <http://agrandejustificativa.files.wordpress.com/2011/12/material-educativo.pdf&gt;


[1] Cf. PEDRONI, Fabiana. Marcas do Devir. Vitória – ES: NOTAmanuscrita, 2012 (Material Educativo para exposição “A Grande Justificativa, do artista Rodrigo Hipólito). Disponível em: <http://agrandejustificativa.files.wordpress.com/2011/12/material-educativo.pdf&gt;.

[2] Estes registros deram origem, até o momento, a um trabalho no projeto Pormenores Possessivos [<https://notamanuscrita.com/2013/01/26/quando-o-imenso-tornou-se-um-pormenor-3/>%5D e que posteriormente viria a tomar novo corpo, como as ondas fazem, na mostra Chronologia Kairológica. [<http://chronologiakairologica.wordpress.com/2013/09/27/historia-e-memoria/>%5D.

[3] Meu, não no sentido de uma posse concreta, como ter uma caneta, mas de identificação do espaço, do hábito. O que eu conhecia e descobria estava previsto numa posse já estabelecida como hábito. Andar por Vitória, por mais que viesse a conhecer outros pontos da cidade, eu já a identificava como minha Vitória, minha casa, meu espaço, minhas pessoas.

[4] AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p. 322.

[5] Na mostra há 18 velas, sendo estas velas votivas: 06 velas de 07 dias, 06 velas de 14 dias e mais 06 velas de 20 dias. Este relato foi escrito durante o período da exposição, portanto, ainda não há nenhuma certeza quanto a duração das velas. Baseada no horário de funcionamento da galeria, de 09 às 18h, em dias úteis e de 13 às 18h  aos sábados,  somada 3 horas para o dia da abertura, calcula-se que entre o dia 22 de outubro e 21 de dezembro haverá 435horas de exposição, ou seja, cerca de 18,12 dias. Portanto, ao final da mostra, sobrará, a princípio, apenas as velas de 20 dias.

[6] Como a resenha do livro “A gênese da ideia de tempo e outros escritos”, do filósofo francês Jean-Marie Guyau. Disponível em:  < http://chronologiakairologica.wordpress.com/2013/10/03/a-genese-da-ideia-de-tempo-e-outros-escritos-jean-marie-guyau/&gt;, e outras resenhas que ainda serão acrescentadas o site durante o período da exposição.

[7] Disponível em: < http://chronologiakairologica.wordpress.com/fotos/&gt;

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