Amanhã o dia será de azul

Não era minha intenção abrir esta porta para caminhar num vão escuro, tropeçar em fantasmas de cores e letras, sem saber exatamente para onde ir. Quando se está perdido, toda sensação é lenta, pesada, maciça. Cada investida em tatear o caminho é barrado por uma substância intransponível. Ela agarra meus pés, com seu corpo negro, impreciso, e me ameaça. Sinto o vento de um jogar o corpo para o azul, mas na verdade, não sai do lugar, continuo a afundar em tinta.

Eu me perdi nos cadernos de Paul Valéry. Sinto-me confusa por não querer diferenciar com total clareza o que é linha verbal, o que é linha pictórica, o que é linha de costura. A dificuldade não percorre o campo da leitura, mas do querer. Apesar das linhas se emaranharem, uma suposta leitura acontece. Mas a cada ato, a cada vazio entre uma palavra e outra, numa instância até menor, de letra a letra, sou puxada pela outra tinta.

Fonds Paul Valéry. Cadernos. Figura 01. Figura 02.

Novamente, quando se está perdido, qualquer indício de presença é um retorno irresistível.[1] Um pequeno borrão azul e já não penso no discurso. Deixo o suporte da escrita e adentro no corpo. E ele me alerta “Faire attention” “attitude paradoxale”.[2] A pressão em se produzir de modo rápido e profundo nos estanca. O peso da perda, a perda de atenção ou o próprio paradoxo da produção, nos faz submersos no labirinto. Levada de um lado a outro pelo corpo do livro, não caminho, não costuro, não atravesso, pois não saio do lugar. Este não é o corpo que eu gostaria de estar.

A massa densa de tinta disforme ainda me imobiliza num vazio que sufoca. Há um desconforto, certamente. Essas linhas que se emaranham, ganham um maior valor, já atribuído pela tradição, por um nome reconhecido, por questões já debatidas. E o desconforto do sufocamento da tinta enegrecida e nebulosa, que se emaranha como serpente, vem de uma linguagem que assumo como uma poética a qual não pareço pertencer. Quanto mais me afundo nessa tinta fantasma, mais saudades tenho do azul da menina da Onda. O dia, enfim, acaba. E amanhã, bom, amanhã será um dia de muito querer.

Suzy Lee e Paul Valery

[1] https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b10549468z/f92.item

[2] https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b10549468z/f18.item

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