[transcrição] Como não se tornar um colonizador

História capixaba

Foto. Acidente com ônibus da Viação Alvorada na Rodovia Carlos Lindenberg, em Vila Velha, na década de 1970. Foto de Luiz Rasseli, da varanda de sua residência. Fonte: link.

Este texto é a transcrição do podcast Não Pod Chorar 06

Texto de Rodrigo Hipólito

 

No dia 07 de abril de 2019 o músico Evaldo dos Santos rosa foi assassinado pelo braço armado do Estado brasileiro. O carro em que ele se seguia com a família foi fuzilado com 80 disparos feitos por soldados do exército. Quando sua esposa saiu do carro, aos prantos, e foi pedir ajuda para os próprios soldados, talvez sem perceber que eles é que haviam matado seu marido, eles não apenas não prestaram ajuda, como riram e debocharam da morte. Depois disso o exército ainda inventou a mentira de que Evaldo havia atirado nos soldados. Infelizmente, essa é mais um das centenas de assassinatos de pessoas negras, cometidos pelo Estado brasileiro, só esse ano, só no Rio de Janeiro. Não há pedido de desculpas, não há tentativa de mudar a tática, porque no fim das contas, esse é um projeto posto em prática, de exterminar a população negra e fazer isso através dos próprios pobres, que se tornam policiais e soldados pra tentar escapar da exploração econômica que cria a miséria e o desalento. 

Eu sou mestiço. Um negro-indígena de origem pobre. Eu detesto lembrar da minha infância e da minha adolescência e devo repetir isso algumas vezes durante este texto. Por ter tido as oportunidades e o apoio, que permitiram que meu esforço recebesse algum tipo de reconhecimento, eu pude estudar e trabalhar fora da contravenção e do crime desde cedo. Depois de formado e de me inserir no meio acadêmico, todas as vezes em que o extermínio da população pobre e negra não pode ser abafado, não só minhas memórias brotam, como eu tenho que ouvir incontáveis arroubos de blá blá blá intelectualista. Meus colegas de profissão, professores e professoras, que em sua grande maioria nunca viu um amigo ser humilhado e apanhar só por ser preto e pobre, que nunca precisou se preocupar com a comida de amanhã, que só conhece a violência pela mensagens de WhatsApp e pelo jornal sangrento, esse pessoal resolve abrir a boca pra explicar como os pobres da periferia deveriam viver. Por isso é preciso que pobres assumam posições de poder, poder político, intelectual e financeiro, porque enquanto os nascidos em berços de ouro, prata ou bronze continuarem no comendo, eles vão continuar a fazer merda, até quando tentam ajudar. E não basta que o pobres assumam o poder. Preciso que, ao assumir o poder, não se reproduza as mesmas visões e comportamento dos sacos de merda que estão lá agora. 

Quando eu comecei a pensar esse texto, ele seria mais pesado do que será. A realidade já é tensa demais e já nos dá material pra pensar, reclamar e sofrer o suficiente. Eu desisti de contar muitas histórias sobre as partes mais tristes e desgraçadas da minha infância e da história da minha família agora. Quando eu comecei a fazer isso eu percebi que ainda não consigo, ao menos não sem parar a narrativa e começar a xingar pessoas que talvez nem estejam mais vivas. Eu realmente detesto a minha infância, mas, ainda foi possível pegar um cenário um razoavelmente leve, pra disparar algumas outras reclamações. Eu tinha me esquecido daquela paisagem e ela veio à tona de uma vez, outro dia, quando desci do ônibus, na volta do trabalho, e senti aquele cheiro…

O cheiro daquele bar de velhos, perto de casa. Fazia o que, mais de vinte anos desde a última vez em que senti aquele cheiro? Não consigo descrevê-lo com a junção de ingredientes, como costumamos fazer com cheiros conhecidos. Como eu disse que se trata de um bar, talvez você tenha imaginado algo como a mistura de cachaça, cerveja, cigarros e gordura. Não se trata disso. Esses cheiros estão ali também e, nas noites de maior lotação, quando os jovens universitários, com canecas de plástico penduradas no pescoço, roubam o sossego dos aposentados barrigudos, esses cheiros se tornam agressivos e tiram o protagonismo de outros aromas. E eu disse que não consigo descrevê-lo por esse caminho. Eu posso apenas dizer o que não é. Não é o cheiro do freezer velho e enferrujado, nem da madeira oleosa do balcão, nem dos potes de pimenta no azeite, nem dos pedaços de chouriço frito e frio, nem dos pacotes de freegells vencida ou da Fanta laranja velha derramada, tampouco das notas sebosas de dois e cinco. O bar é velho, mas já aceita cartão tem mais de dez anos. Não se trata de qualquer desses elementos ou de todos eles juntos. O cheiro me trouxe uma memória, uma cena e outro bar, noutro bairro, em outra época. O “Bar dos Amigos” tinha três portas altas, quatro mesas de plástico, um balcão apertado, uma máquina de caça-níqueis e um fliperama. Não me pergunte que tipo de fliperama, eu não tenho esses conhecimentos. Ele tinha dois controles e o último jogo que estou certo de que ele recebeu foi The King Of Fighters 97. Depois disso eu não sei dizer se o local continuou a existir. Cheguei a passar em frente ao estabelecimento muitos anos depois de ter saído daquele bairro suburbano, de pobreza autointitulada classe média-baixa, cercado de favelas nascidas de justas invasões. Passei em frente, apressado, com receio de ser pego por memórias de infância. Não reparei se ainda existia. Não gosto de ser pego por memórias da infância ou da adolescência. Hoje, abro algumas margens para tentar fazer com que esses chicletes mascados chorosos sigam seus caminhos para o esquecimento de vez. Por isso comecei a falar do cheiro. Aquele cheiro que não consigo descrever como se fosse uma receita. Também não posso dizer que era o cheiro d’O “Bar dos Amigos”. Não é exatamente isso. Aquele cheiro pertence a memória de quando eu ia sozinho ao bar para gastar uma ou duas fichas de 25 centavos naquele fliperama. Isso aconteceu durante alguns meses, antes de eu completar 12 anos de idade. O cheiro era o de estar ali, naquele momento, naquela situação. Eu sempre chegava ao fliperama entre as 14h45 e 15h, no sábado. Era importante que fosse nesse horário e nesse dia da semana. Cheguei a essa conclusão depois de muita observação e alguns testes. Nesse horário, nos sábados, haveria, no máximo, quatro clientes. Um desses clientes, invariavelmente, seria um senhor negro, grisalho e sem a perna esquerda. Os demais eram todos adultos, de meia idade, moradores do quarteirão. Nenhuma criança ou adolescente estaria no bar naquele horário do sábado. Quanto mais vazio, melhor. No pós-almoço, com a quadra de esportes do bairro ardendo ao sol, raramente havia alguma criança pela rua. Onde elas estariam? Algumas tinham videogames em casa. Talvez se reunissem. Haviam locadoras de games e casas de fliperamas nos bairros próximos. Mas, eu só iria descobrir isso alguns meses depois. Isso seria outra história e provavelmente muito longa para contar agora. O importante é que, naquele horário, o fliperama estaria disponível só pra mim, pra que eu gastasse alguns minutos. Na minha cidade, no interior, haviam apenas dois lugares com esse tipo de máquina e, de todo o modo, eu não tinha dinheiro ou tamanho para conseguir frequentá-los. Era a primeira vez que poderia experimentar aquele brinquedo. Eu era péssimo. Nunca me dei bem com videogames. Entendi logo que, todas as vezes em que alguém colocava uma ficha, algum moleque maior surgiria para fazer um maldito desafio e tirar a primeira criança do jogo. Isso me era desagradável por diversas razões. Além de nunca ter sido uma pessoa competitiva (detesto me envolver em competições, pra ser sincero), ninguém parecia disposto a ensinar as regras do jogo ou contar os truques descobertos e 25 centavos era muito dinheiro. Essa é a razão de escolher o sábado. Durante a semana, minha irmã mais velha sempre me mandava à padaria e eu sempre pedia para ficar o troco de 5 ou 10 centavos. No sábado eu já possuía o suficiente para uma ou duas fichas. Não costumava durar mais que dez minutos. Mas, era uma espécie de refresco daquele ecossistema em que tudo se direcionava para a competição, por vezes violenta, o desafio, a busca por emoções e a superação do tédio. Além da quadra de esportes com chão de concreto rachado, não havia muito mais o que se fazer no bairro. A quadra, nos melhores horários, estaria ocupada por adolescentes mais velhos, jovens e adultos eternamente desempregados. Como resultado, as crianças inventavam seus jogos e brincadeiras que se espalhavam por quase todas as ruas do bairro, divididas em grupos, sempre com o objetivo de derrubar os grupos inimigos. Fosse pela posse de um objeto símbolo de vitória ou pela captura e, por vezes, agressão dos adversários, verdadeiras táticas de guerra eram utilizadas para fazer o melhor uso da ruas de terra, de paralelepípedo ou asfaltadas, das casas abandonadas, dos quintais com pés de jamelão, das garagens soterradas de tranqueira, das cercas de estacas cobertas de limo, dos terrenos baldios, tomados de mato alto, e das fronteiras com a área da siderúrgica de um lado e o rio-valão do outro. Demorei um pouco para me acostumar a ser pobre naquele lugar. Meu entendimento da postura de pobre foi formado numa cidade do interior com menos de 25 mil habitantes. Só aquele bairro da cidade grande já devia ter metade dessa gente. As ruas próximas eram um enorme quintal, como sempre foi. O cuidado deveria vir ao passar por outro bairro na volta da escola, ou em algum passeio arriscado depois de certo horário, pra evitar chegar todo quebrado em casa. As crianças e adolescentes entediados de depois do rio-valão e dos grandes canos da companhia de água eram outro universo, idêntico ao nosso, mas separados como inimigos. Os desastrosos encontros, quando não se davam numa rua afastada, para acertar contas e manter os limites, ocorriam no baile, perto da rodovia. Em ambos os casos, algumas regras ditas e não ditas deveriam ser seguidas e todos saíam inteiros, ainda que muito machucados. Alguns poucos moleques tinham passe livre e eram bem quistos em quase todos os bairros que se amarravam naquele mar de casas baixas. Por amizades variadas, por funções e habilidades, por dívidas pessoais, por atitudes de respeito. Muitas regras para enfrentar e superar o tédio. Quem competia dentro do bairro se unia para enfrentar os bairros ao lado e todos pareciam, no fim das contas e no entendimento de suas próprias normas, do mesmo lado, contra alguma coisa maior. Era curioso como todos, independente do grupo ou do bairro, corriam quando a polícia passava. Nem sempre a polícia seguia as normas de brigar, mas deixar voltar pra casa inteiro. 

Isso era confuso. Não sei se todos se uniam contra a polícia. Três dos vizinhos próximos eram policiais e eles brincavam na mesma quadra. O carro da polícia deu carona pro meu colega e o levou com a professora até o posto, quando ele quebrou o pé pulando o muro da escola. E eles nem brigaram com ele. 

Mas, isso foi antes da quadra ficar mais vazia, meio abandonada, de uma parte da garotada parar de aparecer pra correr pelo bairro ou pegar a ficha de desafio no fliperama. Algumas crianças eu não via mais e outras não pareciam as mesmas. Isso foi quando construíram um prédio de apartamentos com dois blocos, perto da ponte que atravessava o rio-valão. Umas dez ou doze famílias se mudaram pra lá e, quando aquelas crianças apareciam na quadra, a gente não gostava mais delas, ao menos não do mesmo jeito. Era como se elas tivessem cometido uma traição quando se mudaram para os apartamentos. Mais que isso. Era como se elas tivessem perdido a dignidade e passado para outro mundo, um mundo que queria ser maior, mais forte, mais importante e dominar o nosso. Isso talvez fosse muito, mas era uma impressão que se tornou inegável quando notamos que os moradores do prédio tinham permissão para vir brincar na quadra, mas nós não tínhamos permissão para brincar na área do prédio. O bairro ficou ainda mais entediante. Não havia mais crianças na rua e nem era apenas nos sábados após o almoço. 

Uns dez anos depois disso, eu encontrei um dos moleques que morava em uma casa de madeira, próximo ao rio-valão. Não consigo me lembrar do seu nome. Eu estava perto do fim da graduação e trabalhava num espaço cultural, no centro da capital. Foi ele quem me reconheceu. Eu demorei pra me localizar. Ele era o trocador do ônibus e parecia muito feliz de ter me encontrado. Ele me deu os parabéns porque eu ia me formar, disse que eu sempre fui mesmo muito de estudar, que todo mundo me achava inteligente e que eu fiz certo em ter saído do bairro. Em 40 minutos de conversa até o terminal, revisamos o destino tomado por cada um dos amigos de infância. 

Como um soco duradouro no estômago, eu me senti o traidor, eu era aquele que fugiu. 

*

Eu ainda detesto rememorar a infância. Esse período, talvez por ter sido o mais tranquilo, menos triste e ligeiramente aventuresco, é mais fácil de ser comentado. Mas tem outros pontos que, pra mim, são ainda mais incômodos sobre comentar minha história pessoal. Quase todas as vezes que comentei, em público, alguns detalhes dessa origem miserável de favelas em cidades do interior, tive que ouvir o maldito discurso meritocrático do “herói do subúrbio” e conter o ímpeto de arrancar os dentes da desgraça da pessoa na porrada. Não existe heroísmo na miséria e na pobreza, não existe heroísmo e pronto! Ninguém consegue sair de uma condição de opressão simplesmente por seu esforço próprio sem deixar partes importantes de si mesmo pra trás, mortas. 

O que mais me irrita não é ter sentido fome, ter visto meus familiares sentirem fome, ter me esforçado cem vezes mais que as crianças riquinhas daquela cidade de merda do interior, ter fugido de lá e novamente fugido do subúrbio, ter meus colegas arrastados para o poça da desistência, da subserviência ou da arrogância ignorante do fanatismo religioso, todos amarrados pelo cansaço, a mágoa ou falsas promessas de uma vida melhor. O que mais me irrita não é ouvir esse discursinho de superação vindo de professores e universitários que só conheceram a crueldade desse sistema de valores através das telas da tv, do cinema e das páginas de livros e revistas que exibem estéticas requintadas e conceitos lapidados, poéticos e limpos. Pra quem tá olhando de baixo, essa galerinha que acha que sabe qual é a salvação do pobre pode ser só o “carinha da cultura”, o “carinha estudado”. 

O que mais me irrita é que essa porra desse discurso serve pra cooptar o pensamento da própria população pobre, miserável e explorada. O sujeito se ferra a vida inteira e quando consegue assumir uma posição de poder, é obrigado a defender que a classe explorada e miserável tem que se esforçar mais. Se você é esse sujeito, eu vou lhe dizer de modo educado. Talvez você tenha mesmo chegado a uma posição de poder sem a ajuda de ninguém, embora isso só seja possível caso você viva num planeta só seu, sozinho. Mas, digamos que você chegou onde está agora apenas por seus próprios esforços. Você é um verdadeiro herói. Seu heróizão! Se você chegou aí, onde você está, com muito sofrimento, e você acha que todas as pessoas que saíram de onde você saiu devem passar pelo mesmo sofrimento, você é um escroto sádico burro pra caralho! Pelo visto você perdeu muita coisa no caminho… talvez tenha perdido parte da sua humanidade. O certo é que você foi iludido e está invertendo os polos. Você quer se vingar pelo sofrimento que passou? Eu não vou ser moralista e dizer que você não deve se vingar. Mas se vingue de quem te fez mau seu saco de merda! Quem fez você passar por toda essa porcaria foi esse modo de vida burro que dá prêmios de consolação pra dor e pro sofrimento. Quem fez você passar por isso não foi a mesma galera que tá lá dentro do poço e correndo o risco de ser arrastada ainda mais pro fundo! Sofrimento não injeta motivação em ninguém.

Honestamente, não é tão simples assim. Não adianta você deixar de culpar as pessoas pobres pela existência da pobreza. Existe um problema maior quando as pessoas são acorrentas ao desejo de enriquecerem para repetirem as mesmas práticas responsáveis por sua opressão. Você não deve tratar a pobreza e tudo que nasce dela como uma doença, pois não é isso. A pobreza é criada pelo acúmulo de riqueza do outro lado da balança. E por favor, não parta do princípio de que é preciso levar cultura e conhecimento para as pessoas pobres para que elas se libertem das correntes. Se você pensa assim e continuar a pensar assim após esse episódio, minhas sinceras orações já estão indo com o pedido para que você morra antes do Natal. Primeiro, porque pessoas pobres e oprimidas não acorrentaram a si mesmas, não são burras e não precisam que você pegue em suas mãos e lhes mostre o caminho da luz. 

A desgraça da iniciativa de “levar Arte para as comunidades que não tem acesso à cultura” foi uma das primeiras merdas que ouvi dentro de salas de aula da academia. Você consegue perceber porque essa frase é uma merda? Essa frase e esses esforços sequer escondem sua estratégia de continuar o processo de colonização cultural e epistêmica das comunidades que brotaram das raízes africanas e indígenas. Há práticas culturais que nasceram e se desenvolveram da e na miséria, elas são formas de resistência por si só. Essas práticas guardam o desejo de derrubar a estrutura feita para subjugá-las. Essas práticas são fortes, potentes e assustam tanto que os filtros do poder hegemônicos sempre vão tentar pintá-las como desprezíveis e vazias até conseguirem roubá-las, deturpá-las e usá-las em seu proveito. É assim com o samba, com o funk, com o pixo, com a plumária, com tatuagens, com a pintura corporal e tudo aquilo que um dia é visto como sujo, marginal e perigoso, e no outro é vendido como algo lindo e caro no corpo de uma pessoa branca, nas páginas de uma revista assinada por um público seleto. 

Se você não veio da pobreza e quer fazer alguma coisa, primeiro cala a boca e escuta quem veio de lá e não se acha herói. Você já leu todos os seus filósofos franceses que te explicam como que é o mundo? Ótimo. Agora deixa eles guardados na sua prateleira de lombadas bonitas e deixa a realidade te contar um pouco de como as coisas são antes de pegar essas ferramentas e tentar explicar o que é cultura popular pra quem vive cultura popular. 

Ah! Mas quem pode falar pelos pobres se os pobres não tem voz? Deixa de ser estúpido! O pobre tem voz e você vai ouvir quando parar de tentar falar por cima. Por mais bem intencionado que você seja, quando você acredita saber qual é o melhor caminho para os povos negros, indígenas, pobres e miseráveis, sem você ter essa origem e se entender como parte dessas comunidades, você encarna a arrogância das autoridades (acadêmicas, políticas, ricos e classe média), que encaram os pobres como objeto de estudo, como coitados esperando a chance de reproduzir a postura dos ricos ou como uma doença que precisa ser curada. E se você não entende isso sem expressões pragmáticas ou pós-modernas, quando você age assim, você só ressalta e alimenta o papel da ética protestante neopentecostal nesse processo de colonização dos desejos. Algo similar pode ser percebido no ideal de formação política que alguns setores ditos progressistas e revolucionários professam. Ao usarem expressões como “esquerda cirandeira”, para criticar a militância que se aproxima de comunidades periféricas e marginais através da valorização de práticas locais, essas pessoas cometem um erro duplo: de um lado, ofendem as comunidades, por deslegitimarem suas práticas culturais como práticas políticas e de formação, de outro lado, dão a entrever que consideram mais adequada uma intervenção autoritária para mudanças no cenário político. Eu digo que dão a entrever uma defesa do autoritarismo, pois desconsideram, no processo revolucionário, a participação ativa da população pobre e marginal. Uma mudança que parte de cima, mesmo com a intenção desagradável de “salvar o povo”, continua a negar o poder para esse povo. Antes de fazer qualquer crítica ao modo como acontecem os diálogos, a formação e/ou conscientização política entre organizações partidárias, grupos engajados e comunidades, pense mais de duas vezes se você tem o direito de se colocar no papel de representante das vozes daquela população. 

Agora a pouco eu comentei da canalhice da ideia de “levar a Arte aos pobres” e isso está ligado com a separação e a deslegitimação da Arte produzida por pobres, negros, indígenas e quaisquer comunidades não-europeias que nãos e enquadrem em seus paradigmas e na sua História da Arte. Desde que a família real portuguesa fugiu de Portugal para o Brasil, no início do século XIX, nós passamos por mais um processo de invasão colonizadora. Dessa vez essa invasão e essa colonização se aceleraram no âmbito cultural. Sempre houve produção e práticas que poderiam ser consideradas Arte nas Américas. No caso do Brasil, depois que artistas fugidos da França chegaram para formar nossa primeira Academia de Artes e Ofícios, ocorre uma cisão entre a Arte Acadêmica, tida como verdadeira e oficial, e a Arte Popular, desprezada pela História da Arte. Essa Arte Popular já tomava elementos europeus e cristãos e os reestruturava pela ótica das culturas africanas e indígenas para formar um mundo que fizesse sentido para esses povos violentados, roubados e escravizados. A História da Arte relegou essas produções a uma condição de algo menor, menos prestigiado e simplório. 

A resposta a isso? Podem pegar o termo Arte e continuar a se masturbar com ele. As produções pobres, suburbanas, subalternas, periféricas, não acadêmicas, populares, externas a essa História da Arte construída pelas crises, picuinhas e debates europeus, essas produções, elas são interessantes, complexas, prazerosas e críticas mesmo que você pegue o termo Arte e morra de frio abraçado com ele no ar-condicionado do seu museu de parede branca. Chamar algo de Arte não é, por si só, um elogio. Quer designar as produções não europeias como Arte? À vontade. Apenas tome cuidado com duas coisas: (i) não venha defender que elas precisam desse carimbo para valerem a pena serem pensadas, fruídas e apreciadas e (ii) não use os parâmetros de juízo próprios da História da Arte tradicional para julgar suas competências e seu valor. 

Hoje, negros, indígenas e pobres chagam à Academia. Essa parece ter sido a única maneira de exigir que se deixe de estudar a Cultura Popular como algo exótico, primitivo, instintivo e negativamente infantil. Mas, esse não deveria ser o único caminho e não será. Não deve ser necessária fazer parte das instituições de autoridade reconhecidas para que seu conhecimento e suas práticas sejam considerados de modo pareado com aquelas da, ainda, Cultura Hegemônica. Para usar a expressão que Alana trouxe no último episódio, sobre “Crise Estética na Crise Política”, a intelectualidade orgânica não tem obrigação de se explicar para a Academia e tem todo o direito de não colaborar para que seus conhecimentos sejam instrumentalizados por essa mesma Academia. Se você não quer reproduzir a lógica da colonização, pode começar deixando de considerar o pensamento produzido pelos colonizadores como algo tão interessante e tão complexo assim.

Hoje, eu realmente acredito que a população explorada vai chegar, cada vez mais, às posições de poder. Esse me parece ser o único caminho viável pra resolver tantos problemas criados pela burrice dos colonizadores. Se você não é de origem pobre e você quer ajudar nesse processo de libertação dos povos explorados, tem um jeito muito simples: não atrapalhe. Se você faz parte dessas populações exploradas e chegou a uma posição de poder, por favor, não se esqueça: a libertação vai acontecer, quando o sonho do oprimido for acabar com a opressão.

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2 pensamentos sobre “[transcrição] Como não se tornar um colonizador

    • Bicho! Essa animação do crônicas pra história do meteoro já me deixou emocionado logo de manhã! Perfeito o complemento de ouvir racionais depois pra direcionar a energia! (Rodrigo)

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