
Figura 3. “To Be Or Not To Be Mouchette?”. Martine Neddam. “Mouchette.org”, 2007.
texto de Rodrigo Hipólito
O menino me perguntou se eu queria comprar um pacote de balas. Eu não queria as balas. Não gosto de bala. Ele não insistiu. Um segundo depois que ele passou por mim, eu diminui o passo, olhei para trás e tentei entender qual era a estranheza da cena. Talvez aquilo fosse uma estranheza apenas para mim. Pode ser que essa já seja a situação em todos os lugares.
Um par de chinelos a cada dois anos, prego para segurar as correias entre os dedos nesse meio tempo, uma bermuda e uma camisa no aniversário, um boné roubado, um par de tênis retirados da fiação do poste, roupas surradas e herdadas dos irmãos mais velhos, sacola de arroz para carregar os livros da escola, canelas sujas de poeira, casca de machucado no joelho, olho coça vermelho conjuntivite, manga do pé mancha boca amarela, dente dói arranca banguela, uniforme sujo, farelo salgadinho isopor, brigou na rua voltou para casa, tem aula de manhã.
Dez anos depois, a melhora era sensível, embora as coisas ruins nunca acabem. Ficar na escola passou a valer um pouco mais do que salvar o jantar no sinal. Você agradece por não ter nascido naquele tempo. O seu irmão mais velho terminou o terceiro ano e entrou para faculdade. Outros três colegas dele também passaram. No ano seguinte, metade dos formandos passaram. Depois foi quase todo mundo. Logo seria a sua vez.
Não deu. Um ano antes da sua vez, metade dos formandos foi para faculdades particulares. Prestação baixa, empréstimo. Disseram que era difícil entrar na federal. Será que era? Quando chegou a sua vez, você sabia que passaria fácil! Mas, avisaram que na particular o ensino era melhor. Seus pais, que nunca saíram da sua cidade e muito menos pisaram em uma faculdade, disseram que não queriam que você se tornasse uma drogada prostituta satanista. Era melhor fazer particular.
Cinco anos de meio período de trabalho. Dez anos de prestações. Atrasou. Vai perder a matrícula. Os alunos da federal viajam para congressos, encontros, festas, têm restaurante barato. Seus colegas de faculdade também viajam, mas eles têm dinheiro.
Dizem que você deve empreender. 200 horas de vídeos de coaching depois, você está suficientemente empolgada para abrir seu negócio.
Dólar alto. Papel caro. Exportaram tudo. É muito difícil empreender no Brasil. A gráfica fecha as portas.
Pandemia. Oito meses sem ver ninguém da família. Mãe morreu. O pai já tinha morrido antes. Internaram seu irmão.
O contrato do aluguel vence dali um mês. Você duvida que vão querer renovar. Você não tem como comprovar qualquer renda.
Você sai da entrevista de emprego com a certeza de que nunca vão te contratar para aquela loja. Não vão contratar ninguém com cara de pobre. Nem a máscara escondeu o nojo no rosto do gerente.
Celular vibra no bolso. Crédito de cinco reais de presente de Natal do aplicativo. Você ri, percebe a sombra com o canto dos olhos e guarda o aparelho no impulso. O garoto passa por você na frente do portão do prédio e oferece um pacote de balas. Você balança a cabeça e ele nem se dá ao trabalho de parar a caminhada.
Uma luz acende, você arregala os olhos, se vira e grita “Ô moleque! Aceita PIX?”
Seis meses depois, mais de 100 crianças por toda a cidade carregam o QR code da sua conta impresso e pendurado no pescoço como um cordão.
Ontem, o menino me perguntou se eu queria comprar um pacote de balas.
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