[crônica] Como cumpri meus desejos infantis

Imagem de capa. Bilhete. Memória. Crônica

Bilhete, anos 1990. Fabiana Pedroni. Fotografia de pedaço de folha de caderno rasgada, com marcas da encadernação à direta, com página de livro impresso ao fundo. Há uma frase em vermelho, escrita no verso do pedaço de papel.

Texto de Fabiana Pedroni

Algumas pessoas escrevem cartas para si mesmas. Anos, décadas depois, abrem estas memórias na esperança de um reencontro. Aprendi na escola, quando criança, que essa escrita era importante para reconhecer o quanto crescemos, o quanto mudamos. São mudanças imperceptíveis no dia a dia. A percepção do corpo e o pensamento nos acompanham de forma tão íntima que nossa consciência custa a diferenciar uma mudança profunda.

Quando meu rosto se tornou flácido? Quando meus olhos se enrugaram mesmo sem um sorriso no rosto? Quando comecei a compreender as diversidades de relações afetivas? Quando comecei a respeitar minha preguiça?

Não há um tempo de início. O encontro com um registro íntimo de tempo anterior pode mostrar que mudamos, mas não como ou quando. As cartas escritas com intenção de serem lidas são um pedacinho de esperança de ambas as partes. Partes que são do mesmo sujeito. Um passado que acredita num futuro melhor; um presente que tem saudades do passado e se preocupa com o futuro.

É essa insegurança de futuro que nos impulsiona a encontrar memórias e mudanças. Autoafirmar-se como algo melhor do que já possa ter sido e que, talvez, continue a melhorar.

Essa carta de uma criança ou adolescente abusará dos desejos. Eu espero que você tenha muitos amigos. E espero que você não tenha mais medo do escuro. Eu quero muito que você ame alguém e se case. A nuance entre as expectativas e a ordem é mínima: lembre-se de cuidar bem dos seus cds. Não se esqueça de que você prometeu que seria madrinha do casamento de sua prima. Um dia, agradeça sua mãe. Trabalhe e fique rica!

Essa carta tem, em cada letra, jogada ao futuro, a certeza de ser lida e a confiança de sua importância. É um pacto de serenidade e emoção.

Mas, não foi nada disso o que encontrei. Arrumando os livros na estante, subi para limpar a prateleira mais alta. Quanto mais alto, mais inacessível, mais distante do presente. São livros que não serão mais lidos. Poderiam ser, mas seu peso-morto de memória não permite que sejam doados. Uma afetividade descabida e empoeirada.

Foi nessa limpeza que encontrei um bilhetinho do passado, preso entre as páginas de um livro velho de minha mãe. Muitos desses livros mortos ganham um pouquinho de vida nesses encontros breves. É a sua estratégia para nunca serem despejados. “O elixir da longa vida”, do Irving Wallace. Eu li escondido, quando tinha uns onze anos. Levava para debaixo da parreira de chuchu e lia enquanto fingia que cuidava da horta. Às vezes eu cuidava, mas fazia tudo às pressas para conseguir ler antes do sol se pôr e ficar impossível enxergar algo além de terra molhada.

O bilhete estava com a face da escrita escondida, mas era possível reconhecer minha letra em canetinha, vazada pelo papel fino. Lembrei-me do que lhe contei agora a pouco, sobre as cartas. Eu não deixava papeis escritos em livros, e se ali existia um, era na intenção de ser lido no futuro.

No virar da folha, o sorriso da descoberta deu lugar à interjeição “porra…” desse encontro. Poderia dizer que foi frustrante, por todos os 20 e poucos anos terem se reduzido a uma única frase, mas seria mentira. A sensação não é exatamente de frustração, mas de espanto.

Aqueles que vão à cartomante, carregam muitos desejos e vontades de confirmação. Eles esperam um indicativo de caminho, de acontecimento futuro para o qual se possa dirigir. Quando uma predição se concretiza, por mais esperada que seja, há um espanto, uma sensação indescritível de confiança.

Diferente de uma longa carta, não há frases para se comparar e tentar entender esse passado. Aquela criança que me escreveu o bilhete deixou poucas pistas de suas expectativas para o futuro, mas parecia saber muito bem qual era o seu maior desejo. Fico feliz com essa segurança e espero que você entenda, minha amiga, por que digo tudo isso.

Ontem, quando ouvi sua voz endurecida, você disse que já não se reconhecia e sentia medo de si. Quando me disse que a tristeza e o cansaço não deixavam aquele sorriso de antes aparecer de forma costumeira, eu pensei nessa carta. Não venho do passado, não posso apontar mudanças sobre o que pouco reconheço. Mas, eu espero, aí sim um desejo, que você também entenda o que essa única frase, escrita há tantos anos, quer dizer. Digo isso, pois todo sentimento faz parte do sujeito, esteja ele mole de tanto rir, duro de tanto chorar ou confuso por chorar enquanto ri.

“Eu espero que você esteja viva.”

Fotografia. Crônica. Bilhete. Memória.

O mesmo bilhete da primeira foto, porém, virado na direção de quem observa. Sobre um pedaço de folha pautada, rasgado sem cuidado e com as marcas dos buracos da encadernação do lado esquerdo, as letras de canetinha vermelha desbotadas dizem: Eu espero que você esteja viva.

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Um pensamento sobre “[crônica] Como cumpri meus desejos infantis

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