[transcrição] Como não perder o afeto

Imagem de capa. Fotografia.

Imagem de capa. Jean Chad. Sala de aula em Bananal. Fotografia, 2014. Mesas e cadeiras de antiga sala de aula, em preto e branco, sobre chão de madeira, com grandes portas abertas ao fundo, de onde vem a luz do dia.

Transcrição do podcast Não Pod Chorar 27: Como não perder o afeto

Texto de Fabiana Pedroni

Eu recortei uns tuites que fiz na semana passada sobre a gravação do Não Pod Chorar e colei para desenvolver o pensamento. Falava da dificuldade em escrever a pauta, em explicar aquilo que nos dilacera e que precisamos externar para pensar. Eu disse o seguinte: “O Não Pod Chorar é uma materialização artística que eu sempre acho que não acontecerá, porque colocar arte, registro e vida frente a frente é uma bomba imprevisível. Estou apreensiva porque a vida está me deixando sem chão. Algumas situações são tão dilacerantes, que acho que não sobrará Fabiana para contar. A relação afetiva com o mundo está uma tortura rápida, porque não imaginava tão cruel, e lenta, porque não imaginava tão extensa. E eis assim o início de um Não Pod Chorar. Se cuidem!”.

Foi isso o que colei aqui. Mas aí comecei a ouvir uma playlist aleatória muito boa de mulheres mexicanas. E agora estou aqui pensando em amor, força feminista e batendo meus pezinhos no chão e com pensamentos completamente dispersos e conflitantes com o início deste recorte. Aventura, calor, sentimentos, calor da pele, o cheiro de banho… Má gente, esse é um caminho completamente contrário à imersão que acontece quando eu começo a pensar no Não Pod Chorar. No último episódio deste quadro, de título “Como não perder o direito de reclamar”, Rodrigo disse algo que eu já havia percebido, mas não internalizado. Quando o Não Pod Chorar é apresentado por ele, há um sentido de revolta, de raiva com os problemas, é a forma com que ele lida com as questões para não ficar paralisado e ele explica isso no episódio. E eu, bem, ele disse que eu faço chorar. Acho que nem posso discordar disso, porque nas minhas últimas gravações eu chorei antes, chorei depois, e até no meio da gravação. Eu sou uma chorona. Eu choro como efeito do problema, espero a pressão diminuir um pouco para entender o que está acontecendo, e aí sim eu me movimento. Chorar é uma forma de externalizar, mas o pensar, vem com outro sentido, com o querer estar junto. Já perceberam isso, como a gente chora junto e no final às vezes eu digo, encontre seus pares que a gente não tá sozinho? É isso, chorar, desabafar o corpo, pensar e ir fazer um pão para alimentar todo mundo.

Mas dessa vez, eu já chorei semana passada na hora do tuíte. E agora, estou pensando sobre estes sentimentos gostosos de estar bem. É tão gostosinho quando acontece da gente sentir um calorzinho no coração, mesmo que de forma repentina e breve. Muito breve. Já ouviu estalinho de madeira no fogão a lenha ou numa fogueira? Rapidinho, você não sabe se aconteceu mesmo, mas deixa uma sensação gostosa por um tempo. Um aconchego. Lembrei de Glênis comentando de uma participação lá no podcast Mexi-ap, desculpem, isso já tem um tempo, então não vou lembrar bem a referência, mas uma moça disse sobre como poderia ser erótico ver um homem retirando o relógio, quando chega em casa, curvando-se sutilmente para deixa-lo na mesa de cabeceira. Deve ser como ver a pessoa que se gosta à distância. Os movimentos parecem até mais lentos, a atmosfera pesada, não porque o tempo flui devagar, mas porque você se esforça por captar o máximo de detalhes possíveis e isso desacelera o perceber. Talvez algo próximo para os não videntes do barulho da porta abrindo, sentir que a pessoa se aproxima, os passos saem do chão duro e adentram pelo espesso tapete. Um som que se abafa e se aninha no colo.

O perceber de longe, com afeto, é algo que pode relacionar-se aos afetos românticos, mas, também vai muito além. Vocês já ouviram, em algum momento na formação de vocês, ou também em questões cotidianas, de que a gente precisa se afastar para compreender melhor? Faz parte de uma metodologia investigativa científica afastar-se do objeto de estudo, para que se possa investigá-lo de forma neutra. Ah, gente, neutralidade é coisa que já deveria ter caído por terra e cachorro ter cagado em cima há muito tempo. Mas, no fundo, ainda se insiste nessa bobagem. Uma crença que começa como bobagem, para se tornar um ato maléfico em gigantes proporções quando se acredita realmente que há educação sem ideologia ou qualquer entendimento de mundo sem envolvimento.

Voltemos ao exemplo afetivo. Aquele instante em que se percebe a pessoa de longe, em que a atmosfera pesa, porque você se esforça em ver cada detalhe, em sentir cada presença ao redor, em ouvir cada movimento ou ausência, é aquele instante denso que te coloca mais perto. Essa aproximação mais consciente do sentir, do detalhamento do outro, não vem por conta da distância em si, de um suposto afastamento, mas de uma dedicação para perceber as relações do outro com o seu entorno, com o modo como o outro afeta a gente e a tudo aquilo com que ele se esbarra. É assim que a gente consegue perceber e se aproximar de alguma coisa.

Agora voltemos à ideia de pesquisa e educação. Como pode o pesquisador e educador se afastar daquilo que observa e acreditar que aquilo que ele escolheu observar, a própria escolha, já não é uma escolha afetiva? Já não é uma escolha por algo que o afeta? Compreender afetividade para além de um abraço, mas como afeto, afetar-se, é crucial para conseguir não perder o afeto pelo mundo e por si mesmo.

Pensando sobre aquilo que me afeta, além de todo esse absurdo em que estamos vivendo, uma memória tem me perseguido por conta da minha atuação como educadora. Mas acredito que esta memória se encaixe em várias das memórias que você possa ter sobre como algo importante na sua vida começou. Essa minha memória é de quando me percebi, pela primeira vez, como uma professora.

Uma letra, um toque, um barulho irritante. Trocar de teclado exige uma reeducação do corpo que nem sempre estamos dispostos. Os dedos escorregam, caem e criam letras. Aos poucos o arquivo se torna uma sucessão de riscos vermelhos a sublinhar cada insistência do corpo em trabalhar numa imagem de teclado anterior. Como se as mãos e braços procurassem teclas já mortas.

Enquanto me irritava com a insistência do corpo, senti os dedos ásperos. Sensação semelhante às mãos endurecidas com giz de quadro. Pó branco que dia após dia ressecava a pele e invadia os pulmões. A vontade de romantizar o passado nos faz acreditar que aquele giz quebrado era uma preciosidade. Hoje, não, mas, naquele tempo, pode ser que, de alguma forma, ele era muito preciso.

A primeira vez que dei aula foi sobre uma banca de verduras. Tudo o que eu queria era ter um giz para escrever na tábua de madeira. A banca era um grande tablado de madeira, inclinado o suficiente para que as verduras rolassem para baixo na medida em que as encaixotávamos. Retirava uma cenoura, e outras mais rolavam para baixo. Momento de maior prazer quando nada rolava para cima de nós.

Quando o dia de trabalho finalizava, ou nos finais de semana, a banca ficava vazia. Sem as verduras, nós crianças, podíamos subir e brincar. Com cuidado! Quebrar as tábuas significaria chamar a atenção de um adulto. Nos encolhíamos no alto da banca, agachados com a cabeça colada no teto de Eternit, feito de amianto, elemento tóxico, porque estou falando da década de 1990. A tábua mais larga e mais clara que formava a microparede que unia o chão inclinado da banca ao teto, era nosso quadro. Sem giz, o tijolo quebrado fazia a vez de instrumento de escrita.

A pele de uma criança de oito anos é fina. Por mais que o trabalho na terra a tenha endurecido um pouco, sabia que minhas mãos eram muito mais finas que as das crianças filhas dos empregados de meu pai, os colonos. Naturalizamos esta palavra na roça, mas, a aproximação com a colonização, hoje, me incomoda profundamente. Eu ouço cada barulho da tecla que escreve vacilante as letras de colonos.

Pele rasgada pelos tijolos. Tentávamos escrever pequeno para poupar a tábua. Quando consegui um giz branco, foi uma festa. Semanas depois consegui uns papéis de rascunho que seriam jogados fora e lápis coloridos, bem pequenos, gastos de tanto apontar.

Por poucos dias, brincamos de alfabeto. Por poucos dias, conseguimos nos esconder no alto da banca. Quando outras crianças souberam, a banca ficou cheia. Os adultos se irritaram e a escolinha foi fechada. Voltamos à colheita. Não me lembro do gosto das batatas, nem mesmo se chegamos a comê-las. Mas ainda sinto o gosto do tijolo, lambido dos dedos após um pequeno corte.

Essa memória, de estar rodeada por crianças e eu mesma ser uma, a brincar de aprender e ensinar, é algo que tem voltado com muita força em um momento em que percebo a educação e a ciência sendo atacadas de todas as formas. Talvez a sua memória se relacione com outra coisa que também esteja sendo atacada. Pode ser a saúde pública, a segurança, a vida de um modo em geral.

Aquela pontinha de giz branco que eu consegui para escrever na tábua da banca de verduras veio de uma professora de escola pública. Suas mãos grandes faziam com que a ponta de sobra do giz fosse grande o suficiente para as mãos de uma criança que a pouco aprendeu o alfabeto. A mesma professora que alimentava um aluno antes das aulas, porque sabia que ele não aguentaria até a hora da merenda. Eu chegava cedo na aula porque gostava de correr pelo caminho, sentir o vento gelado no rosto e a aventura de atravessar uma pinguela, que é nada mais que uma tábua estreita que se faz de ponte sobre um córrego, pequeno fluxo de água. Ele chegava cedo porque tinha fome. Na época eu não entendia. Eu comia apenas um biscoito porque não estava com fome logo cedo e depois viria a merenda. Ele comia todos os biscoitos possíveis e bebia o leite açucarado com muita urgência. Eu não percebia essa urgência. Não percebia as pernas magras e o corpo franzino. Era meu amigo de pique-pega mais café com leite que tínhamos. Nas brincadeiras sabíamos que ele era lento e dávamos vantagem para ele poder participar nas brincadeiras. Mas, não entendíamos sua lentidão. Nunca questionamos o entorno daquela lentidão. Não porque estávamos próximos, porque nos relacionávamos afetivamente com ele. A amizade não atrapalhava a percepção, o que nos impedia de questionar aquela realidade, era a negação própria daquele tempo, a naturalização da fome e da desigualdade social.

Não é a minha idade atual que me fez entender o entorno dessa memória. Se eu contasse tudo isso para uma criança hoje, talvez ela me perguntasse “por que ele era tão lento?”.  Mas também pode ser que ela não pergunte por ainda acreditar que a lentidão seja da natureza daquela criança. Mas, talvez ela entenderia melhor se eu disse que a família daquele menino franzino era pobre e que não tinha comida na mesa para alimentar ele e seus outros irmãos. Durante anos, seu corpo se formou do jeito que foi possível. E a lentidão parecia inevitável. Seria mesmo?

Para compreender essa memória, não precisei de tempo e distanciamento, mas de cuidado para perceber as relações do entorno. A fome não me tinha sido apresentada naquela época. Mesmo que tenha ouvido histórias sobre meu avô repartir a comida e comer a rapa da panela, coisa que ele faz até hoje, eu ainda não entendia o que isso significava. Precisei ainda compreender quem era aquela Fabiana daquele tempo, que se diferencia de mim hoje. Precisei sobretudo ouvir meu avô contar os causos sobre sua infância e a educação escolar que não teve.

Este perceber de longe para conseguir perceber o entorno é uma tarefa muito, muito difícil. Eu não poderia cobrar daquela Fabiana a consciência de que tenho hoje, assim como não posso me afundar em cobranças por não ter saúde e força o suficiente para compreender a crueldade que acontece. Nesses últimos dois anos, você também deve ter se deparado com essa dor engasgada na garganta de não saber como lidar consigo mesmo. Ter afeto pela própria pessoa não é um amor-próprio vazio de coaching. É uma tarefa diária e de reconhecimento de si mesmo no mundo.

Quando escrevi aquele tuite sobre a dificuldade em lidar com as pautas do Não Pod Chorar, era noite, era tarde da noite, e eu deveria estar dormindo, mas estava vendo uma realidade cruel jogada na tela da rede social. Eu também comentei lá que Rodrigo sempre me diz para não me torturar sobre a pauta, e ele realmente tinha dito isso. Eu me espantei porque ele disse que não tinha visto o tuite antes de fazer o comentário. Quando falei de meu espanto, ele me respondeu: “E eu lá ia abrir Twitter antes de dormir?”. Quero ser assim quando crescer.

Para manter o afeto por mim mesma, eu deveria entender melhor como eu me autossaboto, como minha rotina me afunda em decepções, para que eu pudesse aprender a lidar com elas de uma forma mais saudável. Isso não significa deixar o dia leve. Esse discursinho é irritante quando dito em meio a tantas mortes e tanto caos. Essa leveza que atropela a vivência da realidade é uma fuga que prejudica o outro. Para manter o afeto por si, é preciso antes manter-se afetado pelo mundo. Cada um vai encontrar aquele estalinho de madeira no fogo, aquele momentinho que reverbera aconchego para que a gente continue dentro da realidade e não fora dela. Hoje foi a música da playlist que comentei no início do episódio. Às vezes é uma ligação ou mensagem trocada, às vezes é a plantinha que soltou novos brotos, ou a escuta de um podcast, o desenho que você fez, aquela ilustração cheia de sangue e sofrimento que consegue externalizar a revolta. Cada ação afetiva com o mundo não é para fugir dele, mas para se aproximar dele compreendendo o entorno.

Quanto mais escavamos esse entorno, aquilo que nos rodeia, mais difícil é manter o afeto com o mundo. A realidade tão intensa que nos atropela, pode nos fazer perder a humanidade, como comentei no Não Pod Chorar 25, Como mergulhar em areia movediça. Aquela professora de mãos grandes, que depois me deu não só as pontas do giz, mas um giz inteiro, que alimentou por 4 anos aquele menino faminto, que me ensinou o que é educar com afeto, hoje, é mais uma das pessoas que elegeu o estrume que desgoverna o país. Uma das pessoas que ainda insiste num discurso anticiência e negacionista. Mas, o que há no entorno dela? O que há de relações dela com o mundo para que suas ações hoje sejam dessa forma cruel com o outro? Eu disse, não é uma tarefa fácil.

E se você não está bem o suficiente para questionar tudo isso, tudo bem, também não seja cruel consigo. Eu me senti culpada porque quando comecei a pauta eu estava feliz. O que havia de bom para eu estar feliz? É preciso se perceber de longe para também entender como as nossas relações com o mundo podem nos deixar tristes, doentes, mas que também podem trazer estalinhos de aconchego e felicidade.

Nos causos que ouvi de meu avô na semana passada, ele disse algo que me impactou muito, algo mais ou menos assim: A vida sempre foi difícil, mas a gente tá aqui, não tá? Acho que ele disse isso quando percebeu que eu estava com a garganta apertada que dava pra ver nos olhos se esforçando pra não chorar. A conclusão daquela escuta foi “é preciso estar no mundo para viver”.

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