[crônica] Passados, presentes e espíritos das épocas

Crônica. Anos 1990. Junior Senior. Move your feet.

Captura de tela do vídeo clipe de Move your feet, de Junior Senior. Todo o clipe é composto com animações em pixel art. Esta captura de tela mostra duas figuras dançando, um adulto de camisa rosa, calças jeans e boné à esquerda e uma criança de camisa laranja e calça roxa à direita, em transparência, surge um grande rosto da criança sorrindo, estrelas espalhadas pela tela e fundo rosa.

Texto de Rodrigo Hipólito.

Não sou uma pessoa passadista. É comum que quem estuda o passado não queira que o tempo volte. A gente entende como algumas coisas se tornaram mais confortáveis, seguras e livres. O mal continua a existir e os conflitos da convivência, com suas disputas de poder, egolatrias, violências, crueldades sempre comporão a paisagem que habitarmos. É por isso que pensar o presente em conjunto com o passado é um exercício de pensamento histórico.

Quando eu era criança e me perguntavam em qual época eu gostaria de viver, eu respondia que preferia o futuro distante. Isso contrastava com as demais respostas das crianças da minha idade. O passado nunca me atraiu. No entanto, aquela resposta infantil encobria um desejo difícil de compreender, mas comum em muita gente.

Eu me sentia superior às demais crianças, que achavam que o passado poderia ser bom. Ao perceber que, quanto mais caminhávamos para o futuro, menos problemas eu teria com a cor da minha pele e, talvez, com a pobreza da minha família, o que me interessava não era o tempo. Tratava-se de uma fuga para um lugar menos massacrante. Era menos uma curiosidade pelo futuro e mais uma construção de eutopias. Imaginar um mundo em que os seus problemas sejam minimizados ou desapareçam pode te levar para o passado idealizado ou para uma impressão do futuro, do desconhecido. Em ambos os casos, não deixamos de nos relacionar com o presente. Às vezes, a gente só quer que o sofrimento desapareça.

Crônica. Anos 1990. Junior Senior. Move your feet.

Captura de tela do vídeo clipe de Move your feet, de Junior Senior. Ilustração em pixel art de um pato de óculos, lendo um jornal com título Duk, sobre fundo verde, olhando para esquerda da tela.

Eu pensava algo parecido enquanto gravava o episódio 33 do podcast Incêndio na Escrivaninha. Ana Rüsche, Vanessa Guedes e Thiago Ambrósio Lage me convidaram para falar sobre os anos 1990. Nesse ciclo do Incêndio na Escrivaninha, cada episódio fala sobre o zeitgeist (o espírito da época) de cada década, desde o começo do século XX.

Nós conversamos sobre muita coisa e o programa ficou recheado de referências. Outras tantas ideias ficaram de fora, pois é impossível sintetizar uma década em uma hora. Não era esse o ponto ali ou nos demais episódios. Encontrar um espírito de uma época diz menos respeito a elencar todos os elementos relevantes daquele período e mais a expressão da percepção que temos a partir de referências históricas e experiências pessoais.

Hoje, eu pretendo gravar um curto áudio para o encerramento desse ciclo de conversas do podcast. Ana, Vanessa e Thiago convidaram as pessoas que participaram dos episódios para que dissessem algo de positivo daquela década que poderia nos inspirar hoje. Ainda não sei o que vou dizer.

Percebi que, por ter vivido a infância na década de 1990, minha percepção histórica continua mergulhada em uma cacimba de mágoas. Tenho dificuldades de pensar, com honestidade, algo daquele período que não esteja mesclado com sofrimento. Inferno! Eu disse, no começo deste texto, que as coisas são assim mesmo. Evitar o passado é uma atitude tão frágil e infrutífera quanto acreditar me progresso.

Crônica. Anos 1990.

Captura de tela do vídeo clipe de Move your feet, de Junior Senior. Pixel art com a palavra Yeah! colorida com linhas horizontais com as cores do arco-íris e estrelas amarelas sobre fundo cinza.

 

Alguns itens que anotei para a gravação do Incêndio na Escrivaninha e que não me recordo se comentei ou deixei passar:

– [livro] Terra Papagalli (1997), José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta;

– [livro] Hilda Furacão (1991), Roberto Drummond;

-[livro] O Mundo de Sofia (1991, PT-BR 1995), Jostein Gaarder;

– [livro] O Xangô de Baker Street (1995), Jô Soares;

– [livro] Ensaio sobre a Cegueira (1995), José Saramago;

– [livro] Quase Memória (1995), Carlos Heitor Cony;

– [livro] Jurassic Park (1990), Michael Crichton;

– [livro] Jamais Fomos Modernos (1991), Bruno Latour;

– [livro] O retorno do real: a vanguarda no final do século XX (1996), Hal Foster;

– [livro] “Arte contemporânea” (1993), Anne Cauquelin;

– [artista e movimento] Damien Hirst[1] e os “Jovens artistas britânicos”, Jeff Koons, Matthew Barney;

– [linhas de teoria da arte] Estética Relacional (FR-1998) (Nicolas Bourriaud), Crítica Institucional (Andrea Fraser);

– [legislação] Lei Sarney (1986) e Lei Rouanet (1991);

– [exposições] Retrospectivas de Oiticica e Lygia Clark;

– [artistas] Chelpa Ferro, Vuc Cosic, Olia Lialina, Mark Tribe, Jodi.org, Heath Bunting e Natalie Bookchin e Alexei Shulgin [“Introduction to net art (1994-1999)”];

– [autores] Roy Ascott, Arlindo Machado, Pierre Lévy,

– [dissertação] O mal da imagem (?) e as estratégias de apropriação em Mouchette.org;

– [site] Web Arte Brasil;

– [site] Rhizome;

– [site] Nettime;

[1] O cara do tubarão em formol, ou: The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living (A Impossibilidade Física da Morte na Mente de Alguém Vivo), vidro, aço pintado, silicone, monofilamento, tubarão e solução de formaldeído, 217 x 542 x 180 cm, 1991. Coleção particular.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

Um pensamento sobre “[crônica] Passados, presentes e espíritos das épocas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s