[crônica] A escuridão da qual me lembro

Texto de Fabiana Pedroni.

Quando a pouca memória que se tem é a do esquecimento, perde-se o chão. Eu queria caminhar de volta para uma cena de cômodo escuro, de uma pequena multidão em penumbra. Para chegar lá, eu só possuía três sinalizações: a cena ocorreu entre 2013 e 2015, em uma exposição na Pinacoteca de São Paulo, e eu estava acompanhada de minha mãe. Ela, coitada, possuía menos placas ainda: só se recordava de que a multidão foi feita por uma mulher. O ponto de partida da memória é o mesmo: medo.

Assim como a saudade é um estado emocional que mistura alegria e tristeza, ou a decepção que une surpresa e tristeza, o medo é uma emoção complexa e que nunca vem só. A penumbra que eu procurava era de um sentimento de ameaça, de peso sobre o corpo que se contorce para reagir a um perigo.

Quando minha mãe perguntou ao psicólogo, há muito anos, se era comum imaginar cenas ruins no dia a dia, ele respondeu:

— Você imagina e prevê o pior, porque o medo te coloca numa situação que precisa ser solucionada. Melhor do que ficar paralisada em numa situação real, é simular as possibilidades de resposta.

Foi assim que minha mãe preparou um plano para ficar mais tranquila: esconder as crianças na caixa d’água se alguém invadisse a casa.

No meu caso, eu queria invadir uma memória a todo custo, sem que o medo se escondesse. Diante de uma ameaça, pode ser que o esquecimento seja uma benção. Mas, apenas para aquele momento. Agora, passados tantos anos, não ter essa referência marcante, devidamente delineada com todos os atores é, no mínimo, tão angustiante e ameaçadora quanto.

O caminho de volta para a cena do quarto escuro não é um treino de resposta para o medo, disso me recordo bem. Era uma situação em que só a fuga era possível. O caminho de volta é a própria resposta para a angústia do esquecimento. Eu não quero esquecer.

Por muito tempo, senti-me frustrada ao ler sobre memória no campo da História. Dizia-se que a memória não é algo que possa se colocar num almoxarifado e ser resgatada quando se quiser. Ela se constrói, assim como a História, no presente. Ela acontece em algo novo a cada rememoração. Isso eu entendi. Mas, a decepção estava em não poder colocá-la numa caixinha e resgatá-la quando eu quisesse. Afinal, estou falando das “minhas” memórias!

A romantização do processo de rememoração é algo perigoso. Eu não quero sentir o mesmo medo. Quando Mary Carruthers me mostrou uma associação entre inventário (como depósito organizado) e invenção (criação de algo novo), a memória ganhou a possibilidade de nascer mais tranquila, como coisa nova. Eu só precisava encontrar meu inventário para poder inventá-la.[1]

Aos já habituados com a perda do passado, há recursos com que se pode minimamente contar para fazer riscas no chão e pousar as pontas dos pés. Pastas e mais pastas de lembranças digitalizadas. Fotografias de pessoas queridas, de transeuntes na rua, de comidas do dia a dia, de qualquer coisa que seja um risco de chão. Pastas divididas ano a ano. Eu já possuía o recorte. Horas depois, nada. Algo estava errado.

Esse é o problema do processo de rememorar. Ele pode brincar com a invenção no presente e nos enganar no caminho. Morei em São Paulo entre 2013 e 2015, mas, a danada estava em dezembro de 2012. Uma viagem antes da mudança.

Ana Maria Pacheco. Noite escura da alma. Instalação.

Ana Maria Pacheco, Noite escura da alma, conjunto escultórico, 1999. Fotografia da instalação montada na Pinacoteca de São Paulo, em 2012. Uma cena praticamente invisível, mas expressiva. No pouco foco de luz, as mãos de minha mãe seguram sua bolsa com força, como se seu corpo fosse se desequilibrar sem essa força. Ao seu lado, é possível perceber uma silhueta, com testa e braço esquerdo aparente. Na frente de minha mãe, outros frágeis pontos de luz iluminam as mãos de uma pessoa agachada. A mão esquerda sobre os joelhos flexionados e a direita sobre o rosto. Ao lado dessa figura, uma silhueta agachada tem sua testa levemente iluminada. A tensão da cena cria um direcionamento de olhar entre as figuras agachadas e as de pé, a incluir minha mãe.

Era dessa penumbra que eu me recordava. De um peso de mistério sobre o que possa estar acontecendo e uma indecisão do que se pode fazer ou do que se pode fugir. Depois de encontrar estas pessoas da cena, recordo-me de um forte facho de luz e de uma seta. O inventário apontava para memórias misturadas de infância e juventude.

Ana Maria Pacheco. Noite escura da alma. Pinacoteca.

Ana Maria Pacheco, Noite escura da alma, conjunto escultórico, 1999. Fotografia da instalação montada na Pinacoteca de São Paulo, em 2012. No cômodo escuro, em primeiro plano, percebemos apenas a lateral de um corpo atingido por uma flecha. Ao fundo, outra figura humana, percebida apenas pela pouca luz que incide sobre seu rosto e suas mãos.

Era um homem nu, preso a um mastro, com flechas recém-cravadas e encapuzado, que agitava o silêncio. A multidão ao redor, pelo que descobri com a investigação, foi criada pela imersão de 18 figuras no escuro. Os poucos focos de luz e a massa densa de mistério nos impedia de diferenciar quem era escultura de madeira e quem era pessoa de carne, paralisada.

O palco foi construído para nos movermos na sombra, como testemunhas do drama. Ao observar a vítima, nos tornamos cúmplices. Nos valemos do escuro para nos aproximarmos sem sermos vistas, ou para trocar expressões corporais com as figuras imóveis em seu desespero, lamento ou curiosidade.

Alguns da multidão gritam, no silêncio de sua madeira, que constrói as bocas escancaradas. Uma mulher com criança no colo concentra-se em seu próprio pensamento, enquanto uma menina de amarelo, figura radiante, observa o entorno. É uma cena cotidiana?

Ana Maria Pacheco. Noite escura da alma. Pinacoteca

Ana Maria Pacheco, Noite escura da alma, conjunto escultórico, 1999. Fotografia da instalação montada na Pinacoteca de São Paulo, em 2012. Na escuridão, um rosto distorcido abre a boca em um quase círculo e olha para a esquerda com as sobrancelhas tensionadas em uma expressão que mistura dor, medo e desistência. A mão da escultura ergue-se para frente em um gesto tenso.

De uma cultura fortemente colonizada, poderia ser São Sebastião e as figuras talhadas com referência ao barroco. Mas, nada da forma artística nos invade sozinha. Aquilo que não se vê, aquilo que não se ouve é o que arranha a pele e joga o corpo ao chão. É a “Noite escura da alma“, de Ana Maria Pacheco, que me alerta: não se esqueça de que, mesmo em meio à escuridão, mesmo que parte de uma multidão, você ainda é você e precisa dizer aos seus qual é o seu chão.

[1] CARRUTHERS, Mary. A técnica do pensamento: meditação, retórica e a construção de imagens (400-1200). Campinas: Unicamp, 2011, p.31. Não se engane com a ideia de invenção, ela não é uma invencionice, de forma pejorativa distante da criação.

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