[transcrição] Como atravessar um longo túnel

Imagem de capa. Captura de tela. Dorama. Relato de experiência.

Captura de tela de cena do dorama Porque esta é a minha primeira vida, episódio 02. A cena mostra uma mulher com pijama cinza, caminhando na lateral de um túnel, com luzes e um ônibus passando ao fundo e a legenda que diz “I didn’t know was going to be…”

Transcrição do podcast Não Pod Chorar 29: Como atravessar um longo túnel

Texto de Fabiana Pedroni

Algumas pessoas escrevem cartas para si mesmas. Anos, décadas depois, abrem estas memórias na esperança de um reencontro. Aprendi na escola, quando criança, que essa escrita era importante para reconhecer o quanto crescemos, o quanto mudamos. São mudanças00 imperceptíveis no dia a dia. A percepção do corpo e o pensamento nos acompanham de forma tão íntima que nossa consciência custa a diferenciar uma mudança profunda.

Quando meu rosto se tornou flácido? Quando meus olhos se enrugaram mesmo sem um sorriso no rosto? Quando comecei a compreender as diversidades de relações afetivas? Quando comecei a respeitar minha preguiça?

Não há um tempo de início. O encontro com um registro íntimo de tempo anterior pode mostrar que mudamos, mas não como ou quando. As cartas escritas com intenção de serem lidas são um pedacinho de esperança de ambas as partes. Partes que são do mesmo sujeito. Um passado que acredita num futuro melhor; um presente que tem saudades do passado e se preocupa com o futuro.

É essa insegurança de futuro que nos impulsiona a encontrar memórias e mudanças. Autoafirmar-se como algo melhor do que já possa ter sido e que, talvez, continue a melhorar.

Essa carta de uma criança ou adolescente abusará dos desejos. Eu espero que você tenha muitos amigos. E espero que você não tenha mais medo do escuro. Eu quero muito que você ame alguém e se case. A nuance entre as expectativas e a ordem é mínima: lembre-se de cuidar bem dos seus CDs. Não se esqueça de que você prometeu que seria madrinha do casamento de sua prima. Um dia, agradeça sua mãe. Trabalhe e fique rica!

Essa carta tem, em cada letra, jogada ao futuro, a certeza de ser lida e a confiança de sua importância. É um pacto de serenidade e emoção.

Mas, não foi nada disso o que encontrei. Arrumando os livros na estante, subi para limpar a prateleira mais alta. Quanto mais alto, mais inacessível, mais distante do presente. São livros que não serão mais lidos. Poderiam ser, mas seu peso-morto de memória não permite que sejam doados. Uma afetividade descabida e empoeirada.

Foi nessa limpeza que encontrei um bilhetinho do passado, preso entre as páginas de um livro velho de minha mãe. Muitos desses livros mortos ganham um pouquinho de vida nesses encontros breves. É a sua estratégia para nunca serem despejados. “O elixir da longa vida”, do Irving Wallace. Eu li escondido, quando tinha uns onze anos. Levava para debaixo da parreira de chuchu e lia enquanto fingia que cuidava da horta. Às vezes eu cuidava, mas fazia tudo às pressas para conseguir ler antes do sol se pôr e ficar impossível enxergar algo além de terra molhada.

O bilhete estava com a face da escrita escondida, mas era possível reconhecer minha letra em canetinha, vazada pelo papel fino. Lembrei-me do que lhe contei agora a pouco, sobre as cartas. Eu não deixava papéis escritos em livros, e se ali existia um, era na intenção de ser lido no futuro.

No virar da folha, o sorriso da descoberta deu lugar à interjeição “porra…” desse encontro. Poderia dizer que foi frustrante, por todos os 20 e poucos anos terem se reduzido a uma única frase, mas seria mentira. A sensação não é exatamente de frustração, mas de espanto.

Aqueles que vão à cartomante, carregam muitos desejos e vontades de confirmação. Eles esperam um indicativo de caminho, de acontecimento futuro para o qual se possa dirigir. Quando uma predição se concretiza, por mais esperada que seja, há um espanto, uma sensação indescritível de confiança.

Diferente de uma longa carta, não há frases para se comparar e tentar entender esse passado. Aquela criança que me escreveu o bilhete deixou poucas pistas de suas expectativas para o futuro, mas parecia saber muito bem qual era o seu maior desejo. Fico feliz com essa segurança e espero que você entenda, minha amiga, por que digo tudo isso.

Ontem, quando ouvi sua voz endurecida, você disse que já não se reconhecia e sentia medo de si. Quando me disse que a tristeza e o cansaço não deixavam aquele sorriso de antes aparecer de forma costumeira, eu pensei nessa carta. Não venho do passado, não posso apontar mudanças sobre o que pouco reconheço. Mas, eu espero, aí sim um desejo, que você também entenda o que essa única frase, escrita há tantos anos, quer dizer. Digo isso, pois todo sentimento faz parte do sujeito, esteja ele mole de tanto rir, duro de tanto chorar ou confuso por chorar enquanto ri.

“Eu espero que você esteja viva.”.

 ***

 Logo que terminei a escrita desta carta para uma amiga, sabia que seria o começo de um Não Pod Chorar muito especial para mim. E espero que seja também para todes que me escutam. Esse pedacinho de passado, com um desejo sincero e direto, talvez não nos alcançaria da mesma forma se o momento fosse outro. Nunca a ideia de vida e morte foi tão conflitante. Ao menos, foi isso o que eu pensei poucos segundos antes de vir à mente imagens de um mundo há muitos anos cruel e desigual.

Ouvir uma criança dizer para seu eu do futuro que se espera a vida, é de tirar palavras da boca e ações das mãos. Fico curiosa pra saber o que essa Fabiana que escreveu para mim tinha em mente quando esperava que eu estivesse viva. O que seria estar viva para ela?

A princípio poderíamos ter uma reação como “não reclamo de mais nada nessa vida”, mas, tenho quase certeza de que não era essa a intenção. Afinal, é uma criança que deu origem a uma mulher que grava podcasts para resmungar da vida e reconhecer no resmungo um modo de se relacionar com o mundo. Como ela poderia nessa frase querer que eu ou você não resmunguemos? Depois pensei se esse desejo já estava consumido pela influência de minha avó. Há duas grandes lições que ela me ensinou, ao menos as que lembro agora com maior humor. A primeira é praticamente uma outra versão da Rochelle, de Todo mundo odeia o Chris, mas ao invés do xarope resolver tudo, era a água. Pra minha avó, não haveria problemas de saúde se a gente bebesse água direito. Não ficaria gripado, engasgado, cansado, com dor de cabeça, água curava tudo. Água e xarope de coração de banana da pastoral.

Por falar nisso, vou lá me hidratar rapidinho. 

Bem, a outra lição veio de uma resposta que ela dava com muita frequência. Quando alguém perguntava num cumprimento “Oi, dona Ana, senhora tá boa?”, ao invés de resmungar como uma idosa normalmente faria, contando todas as dores das juntas, ela reduzia pra “Tô viva tá bom”. Não sei bem quando ela começou a dizer isso, mas lembro dessa frase com frequência em memórias anteriores à sua velhice. É esse tipo de síntese que encontrei naquela frase que esperava que eu estivesse viva. Uma frase que não tem nada de simples, que comprime anos de causos e resmungos num só suspiro. 

Em meio à pandemia, que sim, não acabou!, ter um desejo de vida é esbarrar, ao mesmo tempo, na consciência de que se está vivo e respirando e na dor de que outros não estão. Estar vivo ainda quer dizer mais do que sobrevivência. Parece que quanto mais nos arrastamos nesse tempo que deveria ter sido passageiro, menos vivos estamos. 

Quando esta grande amiga me disse que já não se reconhecia, que a pandemia a havia endurecido, o que me levou a escrever a carta que vocês ouviram no começo do episódio, lembrei-me do quanto um evento traumático pode nos mudar rapidamente, ao ponto de sentirmos que endurecemos o rosto e que não sorriremos mais. 

Não se reconhecer mais, sentir essa mudança profunda no seu modo de viver as experiências, as relações com o outro, significa que você colocou dois eus frente à frente, como aquele bilhetinho fez comigo, me levando a uma Fabiana que eu não sou mais. Reconhecer que já não se reconhece significa apenas que se está vivo. 

Quando dizemos que queremos voltar a ser quem se era antes da pandemia, se nega que a pandemia não faz parte desse viver. Acreditar que após esse período vamos dar um certo reset e ter que nos reconstruir de alguma forma, é simplificar essa experiência tão complexa que é viver.

Tornar-se pessimista, endurecida, estressada, insegura com sangue nos zoio não é o surgimento de uma outra pessoa da qual não me reconheço, mas é a expressão de um coração partido, de uma decepção com a realidade.

Quando você terminou o seu primeiro relacionamento mais duradouro ou perdeu alguém importante, aquela dor que te levou a ouvir músicas que jamais ouviria, a comer coisas que jamais comeria ou a odiar pessoas que jamais odiaria, aquela pessoa que fez tudo isso, ainda era você.

Quando a pandemia acabar… some aí várias frases que expressam a vontade do encontro, da retomada de uma vida que não volta. Como você vai anular a nova relação que estabeleceu com seu lar, com o estar no seu cantinho? Como você vai deixar de lado de forma repentina a insegurança de andar em público. Como você vai entrar num restaurante sem se sentir insegura? Todo esse processo ainda será vida, porque você continuará a sentir. 

Estar vivo significa sentir.  

Hoje eu comecei a reassistir um dorama que gosto muito, chamado “Porque esta é a minha primeira vida”. Quanto mais assistia, mais pensava sobre este Não Pod Chorar. 

É um dorama que lida com várias instituições, como família, amizades, casamento e com um cotidiano cheio de exigências sociais e de estrutura de vida. O que você exige de si mesmo para viver? O que significa estar vivo para você? 

Esse dorama traz a história de uma moça que foi formada em Literatura em uma boa universidade, mas que enfrenta vários problemas profissionais para se sustentar financeiramente. Ela precisa de um lugar pra morar. Já o outro personagem principal, é um cara de TI que precisa de alguém para dividir os custos e tarefas domésticas para conseguir cumprir seu planejamento de vida até a velhice. Sim, ele planejou muito em como será toda a vida dele até a morte. Ele diz assim “eu morrerei nesse quarto, porque ele é ventilado”, apontado para o quarto da casa onde a moça acaba indo morar.

Mas o ponto que eu queria trazer aqui está já no primeiro episódio, quando os dois passam por uma situação desconfortável, em que ele presencia uma desilusão amorosa dela. Mas, como eles não se veriam mais, por serem estranhos que se encontram num bar, ela compartilha seu sentimento e ele a consola. Ela está decepcionada consigo, por ter feito 30 anos e se sentir uma fracassada, não tem o emprego que queria, não tem um lugar para morar, e o cara que ela passou 3 anos afim e ele dando em cima dela, tinha namorada. Ela diz assim “Tenho 30 anos e não consigo decifrar os homens. Estou sozinha há três anos. Meu coração congela, depois descongela. Mesmo com 30 anos, vivo atormentada. Sinto vergonha no meu coração. Não tenho mais 20 anos. Aos 30 anos, não sei o que estou fazendo.” Ele é uma pessoa muito lógica, que liga os pontos de forma mais direta. Quando vi essa cena, tive receio da resposta dele, porque muitas pessoas podem não entender o que esse lamento significa, essa decepção consigo mesma, esse não se reconhecer e envergonhar-se de si. Ele diz o seguinte: “Você disse que tem 30 anos três vezes nesse curto tempo. Essa é a doença do neocórtex. Vinte, trinta, a parte responsável pelos conceitos de tempo. É o neocórtex do cérebro. Gatos não tem neocórtex. Eles comem a mesma coisa, vivem na mesma casa e fazem tudo igual todo dia, mas não ficam entediados. Para eles, o tempo é apenas o momento atual.

Ok, gente, gatos se entediam, isso é um dorama né, gente. O cara tem um gato e ele vive um pouco assim, na mesmice do dia a dia, e ele se identifica assim. Mas foquem na ideia de momento atual.

Bom, ele continua “Porque tenho 20 anos. Como tenho 30 anos. Logo vou ter 40. A única espécie que se limita a partições de tempo assim é a humana. Só os humanos veem a idade como fraqueza e gastam para impedi-la e isso tem um preço emocional. É a desvantagem de ter um neocórtex evoluído. Trinta anos, quarenta anos. Para os gatos, é a mesma coisa todos os dias.” daí ela diz que a vida dela é um fracasso, mas que vai dar o melhor de si. E ele responde “Eu te desejo sorte. É a primeira vez que estamos vivendo esta vida.” 

Essa é a frase que dá título ao dorama e não é a toa. Para os dois, este sentido é diverso. Cada um na sua individualidade, vai compreender o momento atual de uma forma diferente, com preferências diferentes. Mas, para ambos, ser a primeira vida significa ter apenas uma chance. E isso também cria uma pressão psicológica, pode ser uma autocobrança e ao mesmo tempo um alerta para arriscar-se, para compreender que estar vivo é um misto de todas as coisas, boas e ruins e todas elas são você. 

Você não se tornou ranzinza com a pandemia, você está ranzinza. Você não se tornou uma pessoa amargurada, você está com raiva das pessoas e precisa expressar sua revolta. E é saudável que se faça isso. E mesmo assim, você ainda vai rir muito quando ver um vídeo fofo de cachorrinhos brincando. Talvez agora você não se reconheça porque a mudança foi rápida demais, foi forçada por um evento traumático. Se estar vivo significa sentir, neste momento, a dor é também equivalente a vida. 

Tem uma cena desse mesmo dorama, no episódio 2, que acho muito significativa para esse momento. A personagem olha na agenda do celular, acabou de sair de uma cena em que acabou de sofrer uma tentativa de estupro. Ela está de pijamas andando na rua, sem ter para onde ir. Antes ela havia saído da casa do rapaz com que morava, o personagem principal, o cara do neocórtex, e foi para um estúdio, cedido pelo cara que ela era apaixonada pelos três anos e que tinha namorada. Ele é um babaca e tenta estuprar ela. Aí que ela sai de pijama pela rua. E já está muito tarde da noite. Ela olha na agenda o nome de uma das amigas dela, mas ela ainda fica em dúvida.

Então ela diz o seguinte, depois de se olhar no reflexo de uma loja. “Você pode ser próximo de alguém, mas tem lados que não quer mostrar”. Então ela vai para a casa do irmão que mora com a sua esposa. Ela sobe as escadas da casa e escuta os dois conversando pela porta e não tem coragem de tocar a campainha. Então ela diz “Às vezes sua família parece ser a mais distante de todas” e ela desiste e vai andando pela rua, até chegar em um túnel. Ela diz “Quando eu decidir ganhar a vida com o meu sonho, eu sabia que a minha vida seria como cruzar um túnel sozinha. Mas eu não sabia que seria tão escuro. Não sabia que seria tão solitário”. Então ela grita, chorando “Quanto falta para acabar este túnel?”.

O túnel é enorme e a gente vai continuar a atravessá-lo, não porque a vida ou a morte nos aguarda no final do túnel, mas porque atravessá-lo é estar viva, é parte desse processo do sentir. Tem trechos que o túnel será solitário, principalmente para aqueles que sonham, e tem trechos em que o túnel será aquele cantinho escondido do prazer, da festa, da companhia. E tudo isso ainda será vida.

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