[resenha] El tercer mundo después del sol

Imagem de capa. Ficção Científica. Barragán.

Detalhe da capa do livro El tercer mundo después del sol, com ilustração de Luis Carlos Barragán. Título do livro em letras brancas sobre partes do corpo de um robô com pinturas corporais que remetem à pinturas indígenas, detrás de uma mulher com vestimenta típica das cholitas, com braço mecânico e punho fechado em riste.

El tercer mundo después del sol: antología de ciencia ficcíon latinoamericano. Org. Rodrigo Bastidas Peréz. Ilust. Luis Carlos Barragán. Autores: Rodrigo Bastidas Pérez, Jorge Baradit, Luis Carlos Barragán, Alberto Chimal, Gabriela Damián Miravete, Fábio Fernandes, com tradução de Diego Cepeda, Maielis González, Teresa P. Mira de Echeverría, Laura Ponce, Giovanna Rivero, Juan Manuel Robles, Solange Rodríguez Pappe, Ramiro Sanchiz, Susana Sussmann, Elaine Vilar Madruga. Bogotá: Minotauro/Editorial Planeta, fevereiro de 2021.

Texto de Rodrigo Hipólito

O começo da minha história como leitor de ficção científica não é muito diferente da maioria. Hoje, guardo esperanças de que isso tenha mudado, mas não muitas. Eu lia os “clássicos” estrangeiros, entre contos estranhos e odisseias espaciais. Durante a infância, não senti qualquer incômodo com isso. Não havia a diferença explícita, para minha percepção infantil, entre nacional e estrangeiro. Ao menos não havia essa diferença com relação aos livros que eu gostava. Felizmente, essa distinção não demorou a aparecer.

O desagrado surgiu por não encontrar narrativas que se passagem aqui, do meu lado, na minha região, na minha cidade, na minha rua, na minha casa e, por fim, no meu corpo, no meu modo de pensar e sentir. Certo, essa última distinção eu só compreendi na vida adulta. Mas, ela estava ali bem antes.

Ainda que eu não tomasse consciência do que eram aqueles incômodos, a paixão me fazia buscar climas e enredos fantásticos em tudo o que despontava como referência instigante e diretamente ligada ao meu mundo. Músicas se tornavam músicas de ficção científica (Expresso 2222, Pequena Eva, Taxi Lunar). Novelas eram ficção absurda e ponto! O Clone, que retorna às telas da TV aberta em 2021, foi uma das responsáveis por explodir minha cabeça e me atirar para além das fronteiras da ficção científica do Norte.

Os filmes que exotizavam os povos da floresta passaram a me irritar. Isso era e, infelizmente, ainda é muito comum na ficção científica. A falta de variedade de cores e cortes sociais virou algo quase insuportável. Eu largava livros e filmes pela metade se demorasse a aparecer uma personagem fora do padrão branco-classe-média. Hoje, eu consigo ir até o final com essas produções, com exceções.

O passo seguinte foi reclamar das motivações e preocupações das personagens. Muitas coisas relevantes para as pessoas que faziam e fazem parte do meu mundo podem ser insignificantes para uma percepção do Norte geopolítico. Mais do que isso. As motivações que me cercam podem ser impossíveis de serem percebidas ou compreendidas pelas pessoas “de fora” sem que a gente esfregue na cara delas. Pior que isso. As pessoas que me cercam podem não ter a chance de construir consciência sobre suas necessidades sem que alguém, dentre nós, jogue o prato sobre a mesa e insista para que todo mundo coma.

Desde esta perspectiva la ciencia es vista de manera más flexible: no como una estructura que permite diferenciar entre verdad y mentira, sino como un discurso que está marcando la forma de construir una visión de mundo. Es justamente esta visión de la ciencia y de la tecnología la que permite que los saberes de los pueblos originarios sean concebidos como discursos que entran en diálogo con las ciencias hegemónicas occidentales. En este punto las ciencias humanas, las ciencias políticas, las ciencias duras, las ciencias biológicas, los saberes de los pueblos originarios, la filosofía, se entrecruzan en un campo en el cual el discurso cientificista construye tramas y argumentos de los mundos extrapolados. Es justamente la ciencia ficción latinoamericana actual la que permite una visión amplia e inclusiva de la ciencia como lugar en el cual se construyen procesos de identidad-otros, que adoptan y adaptan las herramientas estructurales del género. (Rodrigo Bastidas Peréz, na apresentação do livro).

Não dá para esperar que as representações do Sul tomem o mundo e sejam impossíveis de serem ignoradas sem que a gente proteja a terra e permita que ela resista. Proteger nossa terra significa cultivá-la do seu próprio modo. Os cultivos, ou as culturas, dessas terras sonham por caminhos muito distintos daqueles que nos venderam como futuro.

Por conta de uma discussão tão larga e profunda como é a da negação de uma ficção científica própria do Sul geopolítico, um livro que se disponha a apresentar um panorama desse enfrentamento deve compreender que o cenário não é receptivo. El tercer mundo después del sol: antologia de ciência ficción latinoamericano (Minotauro, 2021), apresenta essa compreensão.

A organização do livro é assinada pelo colombiano Rodrigo Bastidas Peréz. A ilustração de capa é de Luis Carlos Barragán, o sempre lembrado autor de “El Gusano” e que também é autor de um dos contos que compõem a antologia, “Exodo X”. Além de Barragán, o rico miolo contém narrativas das mais variadas paragens: Jorge Baradit (Chile), Alberto Chimal (México), Gabriela Damián Miravete (México), Fábio Fernandes (Brasil), traduzido por Diego Cepeda, Maielis González (Cuba), Teresa P. Mira de Echeverría (Argentina), Laura Ponce (Argentina), Giovanna Rivero (Bolívia), Juan Manuel Robles (Peru), Solange Rodríguez Pappe (Equador), Ramiro Sanchiz (Uruguai), Susana Sussmann (Venezuela) e Elaine Vilar Madruga (Cuba).

Alguns desses nomes já me eram conhecidos, como Barragán, Echeverría, Miravete, Fabio Fernandes, Chimal. Outros foram gratas surpresas. A variedade não deve ser ressaltada apenas com relação às nacionalidades. El tercer mundo después del sol possui estilos e temas para todos os gostos.

Algumas das histórias que mais marcaram são “Les pi’yemnautas”, de Teresa P. Mira de Echeverría, “Un hombre en mi cama”, de Solange Rodríguez Pappe, “Fractura”, de Ramiro Sanchiz, “Constelación nostalgia”, de Juan Manuel Robles e “Khatakali”, de Elaine Vilar Madruga. Não vou gastar texto para render elogios. Se não pensasse que são narrativas que valem muito a leitura, eu não teria iniciado essa resenha. Para qualquer pessoa interessada em conhecer nossa recente literatura de ficção científica, esse livro é um abraço.

Junto dos muitos dilemas que essas ficções nos apresentam, incluso a dúvida sobre o valor do sentido que futuro que nos é imposto, cada texto é acompanhado de um comentário da pessoa autora sobre os sentidos de pensarmos uma ficção científica latino-americana. Do comentário de Barragán:

Latinoamérica es temporalmente circular. Sus indígenas siguen acá, sus conquistadores, sistemas feudales, modelos económicos de vanguardia, socialismos reales, guerrillas narcosatánicas, carteles que consumen ayahuasca o brujería asesorando ministerios completos. América es una acumulación rizomática caótica de gran belleza estética. Nada se ha ido, todo sigue acá, revolcándose como serpientes en celo, dando forma a un futuropasado permanente, un agujero luminoso y alucinado del que no puede salir, la gran olla donde se cocina el mestizo andrógino que algún día parirá el territorio.

Se as experiências desde América Latina nos permitem conceber uma temporalidade que não responde às obrigações lineares, tidas como racionais pelas hierarquias colonizadoras, também não obedecemos às hegemônicas fronteiras entre o artificial e o orgânico. São essas fronteiras que, muitas vezes, estabelecem percepções rígidas entre o que deve ou não ser considerado como racional e científico e o que deve ser separado como primitivo, inocente e supersticioso. Nós borramos as linhas do tempo, assim como borramos espírito e corpo, fantasia e realidade, natureza e tecnologia.

Muitos dos parâmetros utilizados para avaliar e fruir a literatura de ficção científica do Norte não nos cabem, tampouco nos interessam. Ao iniciar a leitura de El tercer mundo después del sol, eu sugiro que você tenha disposição para repensar as bordas deste gênero. Esse, aliás, é um conselho do que deve se tornar prática corrente. Fronteiras mudam, bordas são apagadas e redesenhadas. Convenhamos, tentar impedir que a vida atravesse fronteiras é algo bem pouco científico.

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