[crônica] Criaturas insuportáveis

Texto de Rodrigo Hipólito

Fui verificar a agenda de postagens e percebi que este texto estava marcado como o último do ano. Não propriamente este texto. O que eu encontrei foi a data final. Uma postagem antes do Natal, depois férias. Não havia um título ou indicações sobre o que escrever.

Acredito que a gente não quis se responsabilizar pelo que seria o último registro deste site para um ano horrível. Prevíamos esgotamento físico e mental. Essa parte foi certeira. Como resposta para a previsão, enrolamos.

Talvez, isso seja típico de quem trabalha com criação, arte e essas coisas. Esse pode ser apenas mais um chute, baseado somente na minha percepção, mas, acredito que muita gente pense parecido. Artistas enrolam, fingem-se de irresponsáveis, mas entregam o que podem e o que não podem até o último momento.

Ontem, terminamos de assistir o documentário “The Beatles: Get Back”, dirigido pelo Peter Jackson. Dividido em três partes, aquilo nos consumiu mais de 8 horas de tela. Valeu a pena, embora tenha sido muito irritante.

Imagem de capa. The Beatles, Get Back. Crônica.

Captura de tela de cena do documentário The Beatles: get back, dirigido por Peter Jackson, 2021, com imagens filmadas por Michael Lindsay-Hogg, em 1969. Os quatro integrantes da banda estão sentados em círculo, em maio a instrumentos e microfones, no estúdio Abbey Road, com Yoko Ono e Lenom virados de costas para a câmera e o empresário e o engenheiro de som de pé, à esquerda da imagem.

A montagem desse documentário deve ter sido um inferno. São conversas e mais conversas de artistas cansados do trabalho conjunto que faziam há mais de uma década, com vidas pessoais que seguiam em direções diferentes, vontades criativas antagônicas, mas um passado compartilhado, como uma âncora enraizada no fundo do oceano.

Entre desentendimentos pontuais e tentativas fracassadas de pragmatismo, os quatro Beatles se dispuseram a passar pela experiência de um mês de trabalho intenso para germinar mais um álbum e um show. O resultado foram dois álbuns esquisitos e um show meio improvisado.

Foi interessante entrar em contato com os detalhes daquele processo criativo de cabeças que conviveram por tanto tempo, ao ponto de compreenderem o que a outra pessoa queria dizer, mesmo que ninguém mais compreendesse. Um gesto, uma reação, um murmúrio, uma vocalização e os acordes mudavam.

Foi irritante acompanhar horas de procrastinação, falso desinteresse, negociações maquiadas de improviso corriqueiro e poucas demonstrações de apresso pelas dezenas de pessoas em constante movimento para que o mundo funcionasse em torno dos astros. Tenho ranço de artistas. Criaturas insuportáveis. Não quero me livrar disso.

Na parte interessante, gosto do modo como processos de criação coletivos são parecidos, ainda que diversos. Com ou sem medo, a criação coletiva envolve despejar tempestades de ideias e reorganizar as partículas em torno do que você já conhece. Não dá pra fazer isso sem entrega, sem confiança. Você precisa abrir o seu corpo e deixar que outra pessoa manuseie seus órgãos. O funcionamento não será o mesmo depois disso. Você terá dificuldades para executar algumas funções que, antes, eram instintivas e ganhará capacidades que não imaginava que existissem em potencial, bem ali, naquela parte insensível do seu organismo.

O Nota Manuscrita surgiu mais ou menos assim. Queríamos deixar público o nosso processo, tanto processos de pesquisa quanto de criação. Ainda funciona assim, mas, com mudanças inevitáveis. De início, não assinávamos os textos e, hoje, quando retornamos para alguns deles, não sabemos quem poderia assiná-lo. Aos poucos, construímos a compreensão, perceptiva e racionalizada, de que é mais prazeroso quando o trabalho que temos sobre uma produção possui demarcações.

Tudo bem! É provável que, se tivéssemos ganhado centenas de milhões de dólares com pesquisa e criação coletiva, não teríamos tido tempo de construir essa compreensão. É ainda mais provável que os desentendimentos superassem, em quantidade e intensidade, os entendimentos.

Não, eu não pensava nisso enquanto assistia ao documentário. As relações entre uma coisa e outra surgiram nessa cronologia acelerada, entre ficar 8 horas diante de artistas fechados em um aquário, notar que esta seria a última postagem do ano e me sentar para escrever.

É possível que este último parágrafo sintetize boa parte do que fazemos em pesquisa e produção aqui, no Nota. Elegemos trabalhos de arte, artistas, teoria e documentos históricos como objetos de pesquisa, dedicamos horas (dias, meses, anos) para observação e crítica (reclamações bem-intencionadas), aceitamos a urgência de uma data limite, arrastamos a preguiça até não ser mais possível fugir, e entregamos algo nosso (da nossa experiência, da nossa experimentação, do que brotou em nosso interior).

Como essa coisa dispensada em uma página de texto (ou imagem, ou linhas, ou espaço, ou corpo) não nos satisfaz por muito tempo (sabemos disso antes de publicar), prevemos que tudo o que sair no Nota, poderá se tornar matéria para outra coisa. A decisão sobre o que é a produção é o de menos. Depois de muito esforço, dor e diversão, a gente publica por falta de paciência e pela certeza de que não há linha de chegada. Vem um momento em que sai aquele suspiro de “eu acho que tá bom, por enquanto”.

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