[crítica] O Exercício do desgaste ativo em Vitor Monteiro

Texto de Rodrigo Hipólito

Este texto foi escrito em maio de 2011, como um pontapé para um artigo que eu pretendia escrever a respeito dos trabalhos de Vitor Monteiro. O artigo nunca foi concluído. Na pasta em que encontrei esse texto, há anotações sobre falas do artista e referências. Algumas dessas referências são comentadas nesse pontapé. Mas, não cheguei a desenvolver o suficiente do raciocínio para que hoje, eu consiga fazer alguma ideia de o que raios eu pretendia dizer em alguns dos casos.

O texto é bom, ainda que confuso e de leitura muito travada. É provável que, caso se tornasse um artigo, os problemas do ritmo e da ausência de explicações fossem solucionados. Não sei se isso poderá ser confirmado.

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Vitor monteiro. Apontamentos.

Fotografia da instalação “Apontamentos”, de Vitor Monteiro, de 2011, montada na exposição Edital 11, no Museu de Arte do Espírito Santo (MAES). Diversas pontas de madeira afiadas, feitas com tocos de madeira cortados à mão, algumas em foco e outras desfocadas.

[1]Acredito ter ouvido, ou posso ter apenas pensado ouvir, Vitor Monteiro dizer, a alguns visitantes, do modo como tendemos a preferir coisas já feitas, deixar para outrem nosso esforço de feitura de algo. Essa é uma verdade com consequências sutis, crônicas e degenerativas. É quase inegável que diversas áreas da sociedade caminharam, e os passos continuam, para uma desvalorização generalizada da realização do conhecimento prático, do conhecimento do sujeito ativo. Pesar isso, talvez, seja dizer da “ausência” causada por um afastamento do ato de fazer, no sentido de fazer com as próprias forças, de dar cabo de uma tarefa aceita, de propor-se uma execução.

A repetição explicita não é gratuita, é uma tentativa sincera de clarificar as expressões, pois elas jamais serão capazes de significar um conteúdo quase impróprio da conceituação. O desvirtuamento causado pela escolha impensada da abstinência de uma atividade não pode ser superado por sua conceituação, mas, apenas por golpear re-ativador tão inconsequente e arriscado quanto a manutenção do estado anterior. Ou seja, essa seria uma realização sempre artística, pois deve partir de um ato “mínimo”, um ato imprestável e de uma determinação impossível, ou simplesmente, um ato inicialmente avesso a qualquer objetivo externo ao ato.

Uma retomada pode ser crucial, pois, aparentemente, essa “ausência” nos causa algum apagamento, algum obscurecimento do poder de ação que é inerente a coisa viva. É da potência vital que nos distanciamos, quando permitimos e, até mesmo, exigimos que a execução seja dada à outras mãos; quando pedimos para sermos dispensados da atividade. Entenda-se esse “da atividade” como capacidade do ser de influir no continuum. Então, pensamos que, talvez, esse ser ativo fosse de extrema importância para a estrutura narrativa de Tristan Todorov.

Essa não é uma questão que retome a “ilusão da intensidade”, demonstrada por Bergson, no texto 13 de “Memória e Vida”, mas uma reflexão, positivada pela prática, a respeito da duração desgastante do ato de agir, do ato de efetivar uma atividade incidente, em sua totalidade, nos domínios da primeira pessoa.

Vitor Monteiro. Apontamentos.

Fotografia da instalação “Apontamentos”, de Vitor Monteiro, de 2011, montada na exposição “Edital 11”, no Museu de Arte do Espírito Santo (MAES). Vista de cima, incontáveis pontas de madeira feitas com pequenos tocos cortados à mão.

Não cabe, aqui, uma descrição do método utilizado pelo artista, mas uma indicação de o que isso desencadeia. Nesse caso, é melhor apontarmos para a lembrança de que a era tecnicista deixa de dispor o ser humano como um “ser ativo” para dispô-lo como um “ser produtivo”.[2] Isso se dá por entendermos, erroneamente, o ato de agir como se possuísse a finalidade de efetivar um “trabalho”, uma projeção. Transfigurado em “fazer”, o ato de agir não inicia mais processos, apenas dá conta das necessidades de maneira automatizada. Nesse sentido, o ato de agir é posto no mesmo lado da moeda no qual se encontra o “utensílio”. O deslocamento do ato de agir de sua posição deturpada para sua posição íntegra ilumina o significado e, assim, dá acesso à verdade do ser.

Todo esse processo possui um resultante (o que não deve ser entendido como produto), que nos é apresentado na estonteante construção de um tapete elevado como paisagem citadina. Apesar de planificada, essa construção não apaga a verticalização inegável de suas unidades. Essa é uma representação angustiada da atividade na inevitabilidade do desgaste. A disputa do vertical e do horizontal é mais do que adequada como metáfora do constante exercício que é a afirmação do ser. Esse espaço não seria adequado para navegar sem desculpas os veios dessa metáfora. Tentemos a construir um eixo disparador sobre um dos pontos, a luz.

Numa dialética do mútuo antagonismo é que a luz aparece na obra de Vitor Monteiro. Mas, esse é um caminho que deve ser percorrido numa série de ínfimos embates com a obra. A orientação, certamente, não é um pecado, pois a dependência é para com as intenções abertas do espectador. Diante da exibição de uma atividade pura e tornada em coerência estética, devemos nos deixar apanhar pela exigência de abandonarmos a posição de ser dominador e eficiente, para evitarmos a possível anulação das forças, igualmente ativas, vigentes na obra. Se nos colocamos no traçado deste caminho de embates, então, negamos primeiro a “nossa” verticalidade, ao nos colocarmos “para” a obra. E essa negação é, ainda, ressaltada na entrega para o chão.

Temos de nos deixar sobrepor. A completa negação da nossa verticalidade é a aceitação de um firmamento, é um colocar-se entre camadas, entre campos maiores. Colocamo-nos prontos e vencidos, em horizontal, para que a obra possa afirmar a elevação de um planalto, a intenção vertical de um planalto. Somente na posição de um ser sobrepujado é que podemos construir uma relação compreensiva com o ser de vida ativa que, talvez, devêssemos encarnar, para sairmos da finalização de “trabalhos” e passarmos à realização de “ações”.

A luz é sempre um segundo momento e somente com uma segunda negação é que conseguimos positivá-la. Porém, essa não é uma negação ativa para nós, é atividade para a obra. A luz somente surge para a percepção, quando é alocada na escuridão, analogamente, o jogo com a luz, sua realização metafórica, posta no firmamento noturno, somente pode se dar pelo encobrimento, pela condenação à timidez, pela atitude de colocar-se (a luz colocar-se) como observador oculto, ou que acaba de ser descoberto: “o diamante, no estilo de Julien Gracq, é um amante taciturno”, para não deixarmos de citar Bachelard, já que essa experiência tomou fluxo de devaneios.

Dividimos este papel de voyeur apanhado e transmutado em objeto, alvo de observação com a luz, ou melhor, efetuamos o mesmo papel em planos paralelos. As estrelas nos olham por entre as frestas da porta celeste fechada, mas nós é que as olhamos com o mesmo palmo de distância da porta. A fonte de luz tanto está em algo muito além da superfície da porta escura para um lado, quanto para o outro. Tanto na lâmpada e no infinito inconcebível, quanto em nossas retinas dilatadas, frágeis. O espectador precisa interpretar bem. Esse papel, no entanto, não poderia ser disposto em um roteiro para a interpretação, pois é um papel instantâneo; é a cristalização do exato momento da descoberta da oposição interior-exterior.

O sentido geral (se não for heresia falar em “geral”), ainda assim, não se perde. O ser em sua vida ativa não é, necessariamente, um ser de exteriorização, por mais aparente que isso seja. A projeção daquilo que se verá realizado por um “trabalho” não é propriedade originária da “ação”, como demonstrou Eduardo Jardim, tomando Hannah Arendt.[3]

O milagre da “ação” está no poder de iniciar processos, ela não deve ser consequência de pontos interessados. A “ação” possui seu sentido logo no ato de agir; não na sequência construtiva de uma projeção ou realização interior primeira. A “ação” não exterioriza por não haver de onde exteriorizar-se, ou seja, ela concebe-se no duplo papel de interior-exterior, é embate. Entende-se, então, que a atividade possui o poder de expor o ser em sua condição afirmativa. O ato de agir será sempre o exercício da temporalidade do ser.

[1] O início de composição da Crônica/Crítica que utiliza os “apontamentos” de Vitor Monteiro como impulso-direcionador deu-se, talvez, antes mesmo da exposição Edital 11, provavelmente, nos primeiros contatos com procedimentos do artista, ainda nas exposições do Centro de Artes UFES, apesar de nenhuma palavra ter sido escrita nessa época. O presente extrato é parte desse processo. No caso a palavra parte é significativa, pois, durante a composição do texto, algumas indicações bibliográficas foram recebidas, diretamente de Vitor Monteiro. Pareceu-me interessante extrair uma síntese do texto no estado em que ele se encontrava, no momento do recebimento de tais indicações bibliográficas, já que, certamente, após agregá-las, o texto sofreria uma mudança de rumos, por mais sensível que fosse. Essa pequena “trapaça” provavelmente trará mais solidez ao texto integral, enquanto este extrato é fruto apenas do contato permissivo do autor com algumas ricas produções. A decisão diz que este momento do texto não deveria ser perdido.

[2] Ver JARDIM, Eduardo. “Homo Faber: o animal que tem mãos”, na visão de Hannah Arendt. In: Mão de Obra: Hono Faber: o animal que tem mãos/ Seminários Internacionais Museu Vale. [organizado por Fernando Pessoa e Ronaldo Barbosa] Vila Velha, ES: Museu Vale, Fundação Vale, 2011.

[3] Idem.

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