[crônica] Ao redor das imagens

Texto de Fabiana Pedroni.

Eu não sabia que ela ainda estava aqui. Algumas palavras não envelhecem. Nesses dez anos, as palavras de Bartira ainda ecoavam em minha vida, sem saber que foram de seu quintal que elas vieram.

Eu já não era mais sua aluna de francês, já não tinha contato com ela além de uma conta no Facebook, que já nem existe. Mas, seu texto ficou salvo em uma pasta, à minha espera, por tantos anos.

Algumas pessoas se reconhecem minimalistas; desapegadas da materialidade e das memórias concretas, vivem com o mínimo possível. Uma casa vazia de móveis e roupas, com um computador de labirinto de vidas e acúmulos.

Criadora de memórias e raptora de memórias alheias, estou sempre cercada de imagens. Minimalista atraída apenas pela fofura da palavra. Sei que muitas pessoas discordam, ouvem a palavra seca, em sua mínima fração. Eu a ouço em eco, como um chamado de gato. Entre palavras, pelos e brinquedos, Bartira me esperava.

Eu a encontrei sem querer, como acontece sempre que não há pretensão de pegar uma xícara de café e estender a prosa. Eu estava com pressa. O tempo, esse sim, é mínimo. Se não é pressa é cansaço. Mas, encontrei Bartira. Vou apresentar essas palavras para que entendam o que estou querendo dizer com a xícara de café que vou lá fazer:

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Viagem ao redor da minha casa

Publicado em 04/03/2012 por Bartira Zanotelli

(Para Tales)

Texto original disponível aqui

Viajo sempre com o olhar aguçado e pronto para capturar novas impressões, muito atenta aos pequenos detalhes que compõem a imagem do novo lugar, sabendo que talvez nunca mais voltarei a ver essa composição.

Acontece que, quando volto pra casa, o olho fica preguiçoso e se recusa a ver mais do que as informações que já estão de fácil acesso na memória. Estranhamente, o que eu mais vejo é o que eu menos enxergo. À medida que passamos pelos mesmos caminhos, e ficamos nos mesmos espaços, os detalhes vão todos desaparecendo. Tenho a impressão de que esta síndrome-de-não-ver atinge muitas pessoas em todo o mundo. Felizmente, nem tudo está perdido: parece que os artistas são imunes a ela. Com eles, podemos reaprender a enxergar a beleza ao redor de nós mesmos, e renovar o nosso olhar.

Foi só numa recente viagem ao redor da minha casa, com a ajuda de um olhar “alumbrado” de artista, que enxerguei a hipnotizante dança das sombras nas águas do canal sob a passarela de madeira vazada do mesmo cais por onde já passei tantas vezes. Nessa mesma viagem, descobri, entre outras coisas, que o portão da minha casa aberta é uma moldura para o encontro do céu com o mar; e que o sol da tarde nos vidros coloridos da minha janela imprime, na cortina branca, um suave arco-íris quadriculado.

É certo que temos experiências incríveis atravessando fronteiras e oceanos, mas, entre uma jornada e outra, atravessar a rua, ou a casa, também pode ser uma bela viagem.

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Fotografia de duas crianças em campo aberto

Melhor parquinho do mundo. Fotografia de Camilla Saloto, 2022. Duas crianças em paisagem campestre com mato alto, cobrindo parte do corpo das crianças, árvores à direita e campo de plantação à esquerda ao fundo.

Fotografia de menino de costas coberto de lama

Melhor parquinho do mundo. Fotografia de Camilla Saloto, 2022. Criança branca de cabelos cacheados, de costas, coberto de lama. Ao fundo, árvores, grama e pequeno riacho.

Ao redor da minha casa que é mundo, encontrei o riso de minha mãe nas fotografias de Camilla Saloto. Ouvi aquele riso de minha infância enlameada, que apronta e volta pra casa com medo do castigo e encontra riso gostoso de quem também queria ter sido convidada para o passeio ao redor da casa.

Talvez, o que se mais precise para o dia cortado pelas metades, é de um pouco de lama, é de um pequeno detalhe, é de um cadinho de prosa.

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