[transcrição] Obras para causar pesadelos

Maldito Inferno. Irmãos Chapman. Instalação.

Recorte da instalação “Maldito Inferno” (2008), dos irmãos Chapman. Pequenas esculturas de dezenas de soldados, nazistas, alguns de uniformes completos, outros sem camisa, amontoados em um buraco, com estacas que saem de entre os corpos e na ponta das quais estão cabeças masculinas.

Transcrição do podcast NPT S05E11: Obras para causar pesadelos.

Texto de Rodrigo Hipólito

Apresentação

E aí, gente perdida? Tá começando mais um Não Pod Tocar. Eu sou Alana e este é o décimo primeiro episódio da nossa quinta temporada. Se você chegou aqui agora, o Não Pod Tocar é um podcast sobre teoria, história, crítica, prática de arte e temas afins. No nosso feed, você encontra, além dos episódios de temporada, com conversas, ensaios e experimentações, o Pataquadas, no qual eu repercuto as principais notícias do mundinho da arte, com colunas abertas de Dennis Almeida e Camilla Saloto, e o Não Pod Chorar, que são os episódios nos quais nós contamos algumas desventuras da vida e pensamos em modos criativos de lidar com elas.

Nós lançamos episódios todo o domingo e estamos presentes em todos os tocadores de podcast e nos aplicativos comumente usados pra ouvir música, como o Deezer e o Spotify. Pra quem não usa aplicativos para ouvir podcast, nós disponibilizamos os nossos episódios no Youtube e você pode ouvir direto no site notamanuscrita.com.

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Antes de a gente partir para o conteúdo do episódio de hoje, eu preciso deixar o aviso. Se  você é uma pessoa que se assusta fácil, odeia cenas de horror e foge de imagens fortes, talvez, esse episódio não seja o ideal pra você. Isso não significa que você não possa ouvir. De repente você escuta e fala “Ah! De boas! Isso aí nem assusta ninguém”. Mas, vai que você detesta conteúdos de horror e deu o play sem prestar atenção no título, né? Fica o aviso.

Agora, se você gosta muito de horror, eu sugiro que coloque os fones de ouvido e deixe pra aproveitar o episódio em uma noite silenciosa. Quem sabe, na hora de dormir.

No episódio de hoje, você vai conhecer algumas obras que são verdadeiros pesadelos…

Primeira parte

Outubro é conhecido como o mês do horror. É nesse mês que ocorre o Halloween, ou dia das bruxas. No dia 31 de outubro, as pessoas ainda comemoram a véspera do feriado cristão do Dia de Todos os Santos. Aliás, a palavra Halloween é a contração da expressão All Hallows’ Eve, que significa véspera do dia de todos os santos.

Mas, vai ser fácil de você encontrar todo o tipo de informação sobre essa data, suas possíveis origens celtas, suas misturas com outras culturas e mais um milhão de coisas que nós não vamos falar aqui.

Até porque, o nosso mês do horror é bem diferente.

[trovão]

Ouviu o barulho do trovão? Pois é, o nosso mês do horror acontece durante a primavera. Não é época de colheita, o inverno não está chegando e a gente não vai desperdiçar a abóbora pra fazer lanterna.

O inverno acabou. As chuvas e o calor chegaram com força. O tempo fica abafado, as pessoas mais irritadiças, não tem um super feriado no final do mês pra gente fazer festa.

No lugar dos agasalhos, da névoa e do vento gelado, é o suor que causa o calafrio. Aquela gota que desce pelo pescoço e pela espinha e tira toda a sua concentração.

O nosso mês do horror é uma péssima época pra tomar decisões. Na desatenção, no desalento, no mergulho cotidiano nessa atmosfera modorrenta de umidade elevada, com o cansaço de quase um ano inteiro que se recusa a acabar, a gente é surpreendido pelos fantasmas do passado.

Isso deve ser algo comum no mundo inteiro. Nessa época do ano, é quando os espíritos de primaveras e outonos passados voltam para nos visitar. Nem sempre eles querem nos assombrar. Mas, o medo nos domina e a nossa mente, já repleta de imagens aterrorizantes, cria pesadelos de dia e de noite.

A gente pode começar por aí. A gente pode começar pelo pesadelo…

[som ambiente de chuva]

O Pesadelo, de Henry Fuseli

Uma mulher está estirada sobre uma cama. Seu corpo se dobra em um arco, que começa à esquerda, na ponta do pé direito, continua por sua coxa curvilínea, marcada pelo fino tecido branco de sua camisola, passa pelo seu peito, exposto em um recatado decote, pelo pescoço roliço, já dobrado para fora da cama, a cabeça pendida, o braço direito encoberto pelos cabelos loiros ondulados e termina e termina com o braço esquerdo estendido até o chão escuro. A mão esquerda está mole e os nós de seus dedos roçam o chão.

Está tudo muito escuro. É de noite e não conseguimos perceber todos os detalhes do ambiente. Os contornos se perdem no granulado indefinido da madrugada.

A roupa de cama está um pouco bagunçada. O colchão macio afunda sob seu peso. Duas faixas de cobertores, um vermelho e outro amarelado, pendem para fora da cama, na altura de sua perna esquerda, que dobra-se sob o corpo. O cobertor vermelho escapa da cama, vai até o chão e segue para a esquerda, para cobrir um pequeno móvel de madeira com estofado azul, e, depois, perder-se nas sombras por detrás de uma mesinha circular com pernas curvas, talvez em estilo Luís XV ou algo assim.

As sombras sobem pela esquerda e se misturam com as cortinas de fundo. Do meio da escuridão, em uma abertura das cortinas, já meio avermelhadas por uma iluminação que vem ninguém sabe de onde, dois olhos brancos, assustados. Não são olhos humanos. Orelhas pontudas, cara preta, focinho alongado, narinas enormes. A cabeça de um cavalo.

O cavalo olha para o centro da cena. O que o assusta é a figura que estava lá desde o início, mas que preferimos ignorar por um momento.

Sentada sobre a barriga da mulher adormecida, há uma criatura musculosa e atarracada. Ela quase se mistura com o fundo preto e marrom, com as sombras. Seus joelhos estão dobrados e as solas de seus pés firmam-se sobre as costelas da mulher. Seu braço direito, grosso, dobra-se sobre os joelhos. Sua mão esquerda, com dedos que terminam em pontas afiadas, segura o rosto virado em nossa direção.

A criatura olha em nossos olhos. Ela sabe que estamos aqui.

Sua testa curta, seu queixo avantajado, sua boca sem lábios, curvada em desaprovação, suas orelhas que lembram chifres, quase perdidas na escuridão, tudo ressalta seus olhos arregalados, saltados, quase fora das órbitas. Olhos vermelhos. Olhos que nunca se fecham.

[som ambiente de chuva]

Essa imagem de terror foi pintada por Henry Fuseli em 1781. O que está sobre a barriga da senhora sonhadora é um íncubo diabólico. Para a época, a mulher de camisola, estirada na cama de braços abertos, tinha um apelo sexual. Mas, isso contrastava com o olhar do íncubo, vermelho e ameaçador, diretamente voltado para o público.

Essa pintura foi um sucesso comercial. Depois da sua exibição no salão da Real Academia de Londres, em 1782, a imagem se tornou tão renomada que começou a ser imitada e reproduzida em gravuras e jornais.

Até hoje, essa é uma das principais representações usadas para falar sobre o terror noturno. Sem entrar nos significados dos elementos da pintura para a época, que guardam diferentes simbolismos, dá pra entender porque essa imagem ainda é desagradável e de fácil identificação.

Se você já quis acordar de um pesadelo e não conseguiu, você entende como essa pintura é real. Seu peito trava, sua respiração não é suficiente e você sabe que se continuar ali, vai morrer sem ar. Você tenta respirar e nada vem. Suas pernas e seus braços ficam tão pesados que não é possível movê-los. Você ainda sente todo o seu corpo, mas perdeu o controle sobre ele.

Aquele presença continua ali. Não dá pra saber qual é a sua forma, mas você não é a única pessoa no quarto. Sem conseguir se mover e sem conseguir respirar, você se desespera.

Com muito esforço, move um dedo, a ponta da língua, um pé, uma mão e, de súbito, o ar entra em seu peito e você se levanta. No escuro, sem ninguém mais.

[som de trovão]

A morte de Marat II, de Edvard Munch

Duas pessoas nuas, em um quarto. O homem está morto, estendido sobre a cama. A mulher está de pé, com os braços abaixados ao lado do próprio corpo, voltada para nós.

É tudo grosseiro e violento, até um pouco desleixado. Não há vontade de estar ali, nem forças para sair.

O lençol azul claro está todo amassado por pinceladas grossas, que terminam em uma fronteira rígida com o marrom e o preto do piso de tacos de madeira. Os tacos também são pintados com força, sem retidão, e por isso, dobram-se em um derretimento que destrói a perspectiva. Se você estivesse de pé naquele piso, cairia rumo ao infinito.

A mulher deveria cair. Como ela consegue ficar de pé?

Seus pés. Há algo estranho com seus pés. Eles não parecem tocar o chão. Se é que dá pra chamar aquilo de chão. Uma aura de pinceladas curvas nos faz perder a fronteira entre seus pés e os tacos de madeira. As linhas marrom-avermelhadas se misturam com sua pele branca e sobem na direção de seus joelhos e coxas.

Dos joelhos para cima, essas linhas parecem vir em sentido oposto, como se puxassem seu corpo para baixo. Completamente tensa, pressionada em um mundo bidimensional, sem chances de sair, de vir em nossa direção ou procurar uma porta para escapar daquele quarto.

A parede verde desgastada, ao fundo, ressalta a cabeça da mulher. Seus cabelos ruivos desgrenhados. Seu rosto é torto. Não conseguimos identificar muito mais do que a sombra de seu nariz, sobrancelhas e queixo. Deveria haver uma boca ali.

O rosto do homem é ainda mais difícil de perceber. Meio encoberto por uma sombra que nunca escurece de verdade, sua cabeça, à esquerda, apoia-se no travesseiro. Seu corpo estende-se na horizontal, cortando tudo ao meio. Amarelo e marrom.

O braço direito pende da cama, marca o lençol com seu sangue e termina com a ponta dos seus dedos misturada ao vermelho que invade a mulher a partir de seus pés.

Não há saída dessa imagem, não há chão para pisar, porta para através ou jeito de se esquecer. O desânimo e a angústia desfazem a realidade em um borrão de desalento. Você poderia cair, mas isso não vai acontecer. Você vai continuar ali, sem saber o que fazer em seguida.

A pressão que vem de todos os lados não para de repetir: acabou, seu mundo é isso, mas você vai ter que continuar.

[som ambiente de chuva]

Essa pintura de Munch tem uma versão mais conhecida, que seria A morte de Marat I. Ambas são de 1907. A primeira pintura é um pouco mais complexa. Mas, essa versão talvez seja mais angustiante ou melancólica.

A melancolia era uma das principais temáticas de Munch. Muito mais do que apenas experimentar técnicas, as imagens criadas por ele são viscerais e guardam histórias pessoais. Essa foi feita depois de uma briga com Tulla Larsen, sua então namorada. Eles estavam em uma casa de férias, em Aasgaardstrand, quando a briga aconteceu. Sem muitos detalhes, uma arma foi disparada, talvez pelo próprio Munch, e ele foi ferido no braço.

Perturbado com esse acontecimento, Munch imagina sua morte e culpa de Larsen ao seu lado.

Imaginar a própria morte é algo bem comum no horror.

Algo de você fica preso naquela cena depois que seu corpo morre. Você pode se ver de fora, assombrar as pessoas que você culpa. Você se torna um tormento e nunca vai se satisfazer. A pior parte de ser um fantasma é que tudo acabou, mas você vai continuar ali, naquele quarto.

[som de trovão]

Mim, de Marc Quinn

Fechada em um quadrado de vidro, há uma cabeça humana.

Isso já seria estranho o suficiente. Uma cabeça humana separada do corpo, exibida em uma cúpula de vidro transparente. Isso é macabro. Mas, não é novidade. Daria até para dizer que a humanidade sempre teve um feciche por decapitações.

Decapitações de um histórico de espetáculo e o registro dessas imagens circulam em todas as épocas. Desenhos, pinturas, fotografias em preto e branco, vídeos caseiros. Pode ter certeza de que alguém que você conhece está recebendo uma imagem de um corpo esquartejado neste momento.

Macabro. Porém, é bem comum.

Só que, essa cabeça tem alguma coisa diferente. Tem algo ali que incomoda mais do que uma simples imagem de cabeça humana recém separada do corpo. Eu disse recém separada?

De repente é isso. Parece que essa cabeça foi cortada agora a pouco. Tem um sangue vivo saindo do pescoço e das orelhas.

Mas, não. Não é isso.

Essa cabeça está congelada. Pode até ter sido uma decapitação recente. Mas, a cabeça com certeza está congelada.

É a cabeça de um homem, provavelmente branco. Não dá pra saber direito. Sua pele está toda avermelhada. Sem cabelos. Sem nenhum pelo. Nem sobrancelhas. Nem cílios.

Seus olhos estão fechados, mas não muito apertados. Sua boca de lábios finos exibe até um ligeiro sorriso.

Pelas rugas, devia ter uns 40 ou 50 anos quando morreu.

Você se contenta com essas conclusões, até ler as informações afixadas em uma pequena placa, logo abaixo do pedestal que sustenta a cúpula de vidro climatizada.

Esse homem está vivo.

A cabeça à sua frente não está viva. Mas, o dono dessa cabeça sim.

Não há olhos ali. Não dentes ou língua dentro daquela boca. Se você cortasse essa cabeça ao meio, não encontraria nada além de sangue.

É uma cabeça feita de sangue. Sangue humano. Sangue do dono da cabeça, que está vivo.

A cabeça é a reprodução perfeita, hiperrealista, da sua contraparte original, viva.

Agora que você sabe disso, fica difícil de não esperar que ela se desfaça em um líquido viscoso. É um misto de tranquilidade, por saber que não se trata de uma cabeça real, e de incompreensão, pois não parece possível que seja verdade.

Não é apenas uma imagem perturbadora. É uma informação estranha o suficiente para você querer se esquecer dela, mas não conseguir.

Uma cabeça humana feita apenas de sangue pode ser perturbadora.

Eu vou ter que piorar essa situação. Não é apenas uma.

Marc Quinn fez a primeira dessas esculturas em 2011. Só que ele continua vivo e envelhecendo. Por isso, precisa atualizar as cabeças.

Eu disse que ele precisa, porque isso é bem pessoal.

Essa primeira escultura foi feita com dez litros do seu sangue e surgiu na época em que ele lidava com o pior momento do seu alcoolismo. Essas cabeças estão em constante dependência. Se você desligar a eletricidade que as mantém congeladas, elas se dissolvem e apodrecem. Essa dependência é pra sempre.

Tirar dez litros do seu próprio sangue a cada cinco anos e se ver envelhecido e congelado em uma escultura que É você, pode ser até estranho, mas é um ótimo lembrete de que você continua vivo. Seja lá o que isso signifique agora.

[som de trovão]

E aí? Tá gostando do episódio? Espero que não esteja muito pesado, nem muito leve.

Existem milhares e milhares de obras que poderiam ser citadas aqui. Não tem como a gente falar de todas. Algumas, quem sabe, são muito mais perturbadoras do que essas.

Não é difícil de você encontrar essas obras em listas de mais assustadoras.

A gente tentou variar entre algumas mais comuns e outras menos comuns, com interesse nas descrições que ficariam mais interessantes de serem narradas.

Aliás, se você gostou das descrições das obras, fica a recomendação de um podcast que faz isso muito melhor. O Descriarte é um podcast com ensaios sobre arte. Esses ensaios são muito bem-feitos, com fontes, contextos e ótimas descrições das obras comentadas.

Vai ficar linkado na descrição. Acessa, escuta e, depois, comenta se você gostou.

Agora, se você gosta de horror, terror, cenas fortes e personagens perturbados, não deixe de ler “A morte do vizinho da serra elétrica”, uma noveleta de horror cotidiano, escrita pelo Rodrigo Hipólito.

Nessa história, a gente acompanha cinco personagens que sofrem as pressões da vida na cidade e que são levados ao limite quando precisam enfrentar os segredos de um dos seus vizinhos.

“A morte do vizinho da serra elétrica” está disponível para compra na Amazon e você pode ler de graça no Kindle Unlimited. Fica a recomendação!

Depois desse curto intervalo, vamos voltar para conhecer mais algumas obras que são, no mínimo, incômodas.

[trovão]

Segunda parte

Carnívoras, de Jonathan Payne

Você já se cortou com uma faca bem afiada? Não uma gelete ou um corte fino, raso e curto. Eu falo de um corte longo, profundo e largo.

Vai sair muito sangue, mesmo! Mas, depois, quando a ferida começa a parar de sangrar tanto, você vai conseguir ver a carne debaixo da pele. Não é tudo vermelho. A carne tem partes brancas e rosas, mistura-se com as veias e artérias. Caso você tenha tido muito azar no seu corte, você vai conseguir ver os tendões.

Isso é um pouco aflitivo.

Durante algum tempo, fica difícil preparar carnes. Os pedaços de frango e porco sobre a tábua, a gordura, os tendões. Cortar os pedaços e empilhá-los. Misturar as partes. Retira o olho de um peixe, os pés de um frango, as unhas que despontam sob um pedaço grosso de pele de porco, os fios de pelo duros e pretos que espetam as mãos.

Você até queria que esses pedaços de carne sangrassem, pois isso deixaria evidente a sua condição de pedaços que vão ser cozidos para virar comida. Mas, sem o sangue, eles são muito parecidos com você, com o que você sentiu e viu no dia em que se cortou.

Carne e peles misturadas, mas vivas.

Esse é o horror corporal de Jonathan Payne.

Não há uma narrativa em suas esculturas. Elas estão ali para te incomodar, te desconcertar, dar materialidade aos pesadelos.

São esculturas de partes de corpos humanos misturadas. Mesmo que você saiba que elas são feitas de argila polimérica, acrílico e, certo, cabelo humano, isso não ajuda em nada. É tudo hiperrealista.

Dezenas de dedos lubrificados saem da carne branca de uma língua tomada por verrugas e dentes tortos. Um escroto abre-se em lábios vaginais e deixa sair uma boca de dentes enormes, escancarada até que se veja um pedaço de uma minúscula língua. Algumas peças não são fáceis de identificar como partes do corpo, mas lembram pênis e clitóris anexados e cortados como arranjos de flores, costurados em pele branca como uma serpente recheada de intestino e enrolada sobre uma base que termina em uma mão deformada.

A ausência de sangue e o brilho de carne e pele fresca, da pele de mucosas, sensível e delicada, os dentes, unhas e pelos que brotam de onde não deveriam, tudo isso é aflitivo. É inquietante, mas é bonito.

É isso o que te preocupa mais. Não dá pra negar a beleza dessas pequenas criaturas bizarras, deformadas e destinadas ao eterno sofrimento.

[som ambiente de chuva]

Young Family (2002), Patricia Piccinini

Sobre um almofadado branco, está deitada uma mãe com seus três bebês. Não são figuras humanas. Nem a mãe, nem os bebês. Ou deveria dizer filhotes?

Ela está deitada de lado, com as pernas recolhidas junto ao corpo. Dois filhotes estão de costas para nós e mamam. Um terceiro filhote está próximo da cabeça da mãe, de barriga para cima, brincando com o próprio pé.

A cena poderia transmitir ternura. Mas, não é isso que acontece. A aparência dessas criaturas não-humanas não permite que a gente fique confortável.

É que não são exatamente animais. Tem alguma coisa ali, algo com o qual a gente é obrigado a se identificar.

São uma mistura de seres humanos com porcos.

A pele branca rosada reveste uma carne molenga e forma dobrinhas nas articulações, nas mãos enormes da mãe, que repousam sob uma orelha longa como a de um cachorro, de um basset talvez, mas sem pelos, no pescoço muito alongado e, principalmente, no rosto suíno.

Não é só um rosto suíno. O focinho é esticado, mas as narinas não são tão abertas. A boca é expressiva.

Você sabe que ela poderia falar.

A testa é praticamente humana, mas os olhos são muito separados, curvados, tristes.

No alto da cabeça, onde as orelhas moles nascem, há um tufo de cabelos que rareia em fios longos e finos.

Os bebês – pois são bebês, não dá para chamá-los de filhotes – são rechonchudos. Se não fosse a cabeça inumada e o cotoco de rabo, daria para confundí-los com bebês quase normais. Sua pele lisa, diferente da de sua mãe.

A pele da mãe ressalta ossos e músculos, marca os ilíacos e o fémur nos quadris, tem rugas finas e secas em alguns pontos. Não é uma pele jovem.

Seus pés, grandes como as mãos, têm veias ressaltadas e dedos que dobram-se na direção da sola, como se estivessem retraídos de medo.

Ela não deveria estar nessa condição. Ela não deveria ser exibida assim. Dá pena.

Aquele olhar de tristeza e desesperança expõe um sofrimento que te faz querer perguntar “o que fizeram com você?”, “Por que essa crueldade?”.

Só que, não há ferimento, não há sujeira, não parece ter acontecido nenhuma agressão.

Ainda assim, nada na situação dessas três criaturas parece certo.

Você poderia se incomodar com a nudez daquela mãe, cobri-la com um lençol e abraçá-la. Mas, será que você quer se aproximar?

Eles são quase humanos, mas não são humanos.

Você só quer se afastar e fingir que eles não existem.

Essa é uma escultura chamada Jovem Família, feita pela australiana Patricia Piccinini, em 2002. Ela tem uma série de esculturas assim, muito realísticas, feitas de silicone, fibra de vidro e cabelo humano.

No mundo assustador, imaginado pela a artista, nós passamos a usar a engenharia genética para criar seres que têm como única função produzir órgãos para transplantes. O problema é que esses seres são expressivos e não estão nada felizes. Não são os animais que nós nos acostumamos a criar para comer e nos esquecemos de que sofrem em fábricas de carne.

Esses mutantes são quase humanos e isso nos faz lembrar de que nós também somos animais.

A gente sempre cria algum jeito de se esquecer de isso. A gente se afasta do que nos lembra a nossa condição.

É besteira acreditar que a maioria das pessoas deixaria de explorar outros animais se tivessem contato íntimo com as fábricas de carne.

Elas vão virar o rosto, enojadas, incomodadas; vão só se afastar de tudo o que as lembre de que são apenas animais.

[som de trovão]

Inferno (2000), de Jake & Dinos Chapman

Como você imagina o inferno?

Durante muito tempo, foi comum que o inferno fosse imaginado como um mundo repleto da mais pura violência e de qualquer sofrimento físico afligido aquelas pessoas que o mereceram em vida.

Hoje em dia, é mais comum a ficção explorar possibilidades de inferno ligadas a nossa vida urbana, ao tédio, à solidão, ao trabalho inútil e sem sentido.

Os irmãos Jake e Dinos Chapman acreditam que a gente não deveria se distanciar das imagens de ultra violência quando imaginamos o inferno. Teria o risco de não nos lembrarmos dela e nos esquecermos de que elas são tão reais quanto o tédio, mas muito piores.

O que aconteceria com os soldados nazistas e com seus líderes se eles tivessem sido mandados para o inferno? Você consegue imaginar Hitler em um inferno apenas entediante?

Talvez ele esteja pintando um quadro de cavalete, na beira de um buraco cheio de moribundos e cabeças fincadas em estacas.

Noutro canto, há uma floresta de nazistas empalados. Em destaque, um deles está crucificado e a pele de seu corpo foi arrancada. O sangue ainda desce.

Os corpos de centenas de soldados, podres até o esqueleto, tomam um trem enferrujado, separados pelas cercas de arame farpado que eles mesmos colocaram de pé.

Outros tentam escapar em uma jangada improvisada com barris de metal, mas não eles não têm para onde ir naquele rio podre de sangue.

Mais cadáveres fazem barcos com caixões pretos e seguram lanças, como se ainda fossem para a guerra.

Recurvados pela dor, outro batalhão marcha com as cabeças quase nos joelhos, dado o peso dos capacetes que não conseguem retirar.

No horizonte, montanhas de corpos. Milhares de corpos empilhados, apodrecendo.

Não há qualquer lugar para onde olhar ou fugir. Cada centímetro desse mundo foi ocupado por uma cena de tortura, podridão e morte.

Eu poderia passar horas descrevendo cada um desses detalhes e ainda faltaria muito coisa.

A obra Inferno, feita no ano 2000, foi composta de 9 grandes terrários de vidro, posicionados de modo a formar uma suástica.

Em cada terrário, há um imenso diorama, feito com peças minúsculas, ambientações detalhadas, construções, rios, lagos, torres de madeira, casas, trens, vales e 60 mil soldadinhos feitos a mão.

Em 2004, um incêndio destruiu essa obra. Eles até refizeram o trabalho, de modo a proximado, com o títuoo de “Maldito inferno”, em 2008. Ainda é impressionante, e o efeito desejado continua ali.

Eles construíram um inferno que não é o nosso. Normalmente, a gente não se imagina indo para o inferno. A ideia de passar toda a eternidade sofrendo tortura não é muito convidativa.

Ao mesmo tempo, é muito arriscado quando a gente se afasta muito dos pesadelos.

Pesadelos são ótimos lembretes de que, ainda que as coisas estejam uma merda, pode acreditar, a gente consegue pensar em formas de deixar tudo muito, muito pior.

Encerramento

Taí! Encerrando mais um Não Pod Tocar. Gostou? Não gostou? Fala com a gente. Você pode entrar em contato com a gente através do e-mail, que é naopodtocar@gmail.com, ou das nossas redes sociais, que são todas @naopodtocar, sempre com o D, de pod, no mudo. E quem comanda as nossas redes é o Chewie, o primeiro e único cão podcaster. Segue a gente no Twitter e no Instagram e vai lá ganhar uns lambeijos do Chi Chi.

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Ainda em notamanuscrita.com, você encontra textos de processo, crônicas, contos, resenhas de livros, artigos acadêmicos, fotografias, ilustrações e outras das nossas produções.

Por hoje é isso. Se nada der muito, mas muito, muito errado, semana que vem, a gente tá de volta. Bora dar um tchau!

Comentados

– [texto] The Dark Art

– [texto] Disturbing Art – The Ingenuity of the Disgusting

– [entrevista] Jake and Dinos Chapman: how we made Hell

– [texto] Art So Brutal It Had To Burn: The Hellscapes Of Jake And Dinos Chapman

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