Instalação apresentada na mostra Reconectando Vínculos: Ecologias Sensíveis e Processos em Instabilidade (Galeria de Arte e Pesquisa, Universidade Federal do Espírito Santo, 2026).
A proposta consiste em um autofalante instalado sobre a porta de entrada da galeria, conectado a uma playlist composta por dezenas de arquivos de áudio. A maior parte desses arquivos contém paisagens sonoras urbanas e rurais, enquanto alguns poucos registram um alerta de bombardeio. A reprodução ocorre de modo aleatório, de forma que não é possível prever o momento em que o alerta será emitido. Durante a maior parte do tempo, o visitante ouve apenas os sons ambientes; em intervalos imprevisíveis, o alerta irrompe no espaço expositivo.
A instalação parte do princípio de que o som é um elemento constitutivo do espaço, capaz de redefinir as condições de percepção de quem o atravessa. A escolha do autofalante sobre a porta marca o limite entre o exterior e o interior e torna o ato de entrar na galeria em um gesto de travessia sonora. Nesse sentido, a obra propõe uma reflexão sobre a natureza do espaço expositivo como território sonoro, onde a escuta se torna inseparável da locomoção. O uso de paisagens sonoras urbanas e rurais como fundo contínuo remete a uma tradição desenvolvida a partir dos estudos de Murray Schafer sobre o ambiente acústico como fenômeno cultural e ecológico.
A inserção aleatória do alerta de bombardeio introduz uma ruptura no tecido sonoro contínuo. A imprevisibilidade do evento é central para a proposta: como não há como saber quando o alerta será emitido; o visitante é mantido em um estado de tensão latente. A escuta, nesse contexto, deixa de ser um ato passivo e transforma-se em uma forma de vigilância. O corpo que ouve aguarda, mesmo que de modo inconsciente, a interrupção do fluxo sonoro. Essa condição remete à experiência contemporânea do risco, na qual a ameaça não se manifesta de forma contínua, mas em surtos imprevisíveis que alteram a percepção do tempo e do espaço.
O alerta de bombardeio, como som de emergência, carrega uma carga semântica para além de sua função original. Em muitos contextos, esse tipo de sinalização é associado a situações de conflito armado ou de desastre. Sua reprodução em um espaço de arte não visa a simulação de perigo real, mas a exploração das reações psicológicas e coletivas que ele provoca. O som do alerta funciona como um gatilho que suspende a ordem habitual da galeria e introduz uma instância de alarme que desorganiza a expectativa de segurança associada ao ambiente institucional. A galeria, lugar de fruição estética, é momentaneamente convertida em um espaço de alerta.
A aleatoriedade da reprodução impede que o visitante se habitue ao som. A repetição previsível de um estímulo tende a reduzir sua eficácia perceptiva; a imprevisibilidade, por outro lado, mantém a resposta afetiva. Portanto, esta não é uma proposta de experiência harmoniosa de escuta, mas do desconforto que persiste no tempo, mesmo quando o alerta não está sendo emitido. O silêncio entre os alertas é carregado pela possibilidade de sua interrupção.
A conexão entre o autofalante e a playlist por meio de um sistema digital permite que a obra funcione de modo autônomo, sem a mediação de um executor humano. Essa autonomia técnica é relevante do ponto de vista conceitual: a obra não depende de uma performance pontual, mas de um processo contínuo que se estende ao longo de toda a duração da exposição. O tempo da instalação não é o tempo da visita individual, mas o tempo da exposição como um todo. Cada visitante entra em um fluxo sonoro já em curso, e sua experiência é determinada pelo momento preciso de sua chegada. Não há início nem fim para a escuta: há apenas a entrada e a saída de um campo sonoro que permanece.
A escolha de usar um único autofalante, em vez de múltiplos dispositivos distribuídos no espaço, concentra a fonte sonora em um ponto específico. Essa concentração cria uma diretividade que orienta o corpo do visitante: o som vem de cima, da porta, do limiar. A localização do autofalante sobre a entrada reforça a ideia de que o som é um elemento arquitetônico, que molda a percepção do espaço a partir de uma coordenada precisa.
A proposta dialoga com uma tradição de instalações sonoras que exploram a relação entre som, espaço e corpo. Trabalhos como os de Janet Cardiff, que utilizam múltiplos alto-falantes para criar ambientes imersivos, ou os de Max Neuhaus, que instala sons em locais públicos sem sinalização, demonstram que o som pode alterar a experiência do lugar de forma tão significativa quanto a arquitetura física.
Aqui, invertemos parcialmente essa lógica: em vez de criar um ambiente sonoro harmonioso ou de convidar à imersão, introduzimos uma instância de ruptura que impede a adaptação do ouvinte. A imersão é interrompida pelo alerta; a continuidade, pela aleatoriedade. Os sons urbanos e rurais pertencem ao repertório cotidiano da experiência auditiva; o alerta, por sua vez, é um som que se espera nunca ouvir. A paisagem sonora, ouvida sob a ameaça do alerta, deixa de ser um fundo neutro e adquire uma qualidade de suspense. O alerta, por sua vez, ao emergir de um contexto de sons ordinários, perde parte de sua especificidade e se insere no continuum da experiência estética. Essa contaminação mútua entre os registros sonoros é um dos eixos conceituais da proposta.
A inserção do alerta de bombardeio em um espaço de arte contemporânea adquire uma densidade particular quando considerada em relação aos conflitos armados que se desenvolvem em Gaza, no Sudão do Sul e no Irã. Nessas regiões, o som de alerta não constitui uma abstração estética, mas uma experiência recorrente e concreta para populações civis expostas a bombardeios, ataques aéreos e ofensivas militares. A reprodução desse som em uma galeria, em um contexto de segurança relativa, estabelece um circuito de sentido que conecta o espaço institucional a territórios de violência ativa. O visitante que ouve o alerta na entrada da exposição é convidado a reconhecer que o mesmo som, em outro lugar, anuncia a destruição de habitações, a interrupção de rotinas e a morte de civis. Essa conexão insiste na diferença radical entre essas duas condições para tornar visível a desigualdade global na distribuição do risco.
Os três territórios acima apontados figuram, nos noticiários internacionais, como cenários de crises humanitárias prolongadas, onde a distinção entre combatentes e civis se dissolve e onde a infraestrutura de alerta, quando existe, é insuficiente ou inexistente. O som do alerta, nesses contextos, pode ser substituído por outros sinais, como o zumbido de drones, o estampido de explosões distantes ou o grito de vizinhos, que cumprem a mesma função de advertência, mas sem a formalidade de um sistema institucionalizado. O visitante que reconhece no som uma referência a esses contextos é convidado a situar sua própria experiência de escuta dentro de um mapa global de violências, no qual a galeria aparece como um ponto de exceção, protegido, mas não totalmente isolado. Nesse sentido, recusamos a neutralidade do espaço expositivo e o reconhecemos como um lugar de mediação entre a experiência estética e a consciência política, sem que uma se reduza à outra.
* O título do trabalho é um verso do poema “If i must die”, do palestino Refaat Alareer (1979–2023) .
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