Ficção/Reflexão/Disjunção

Caderno de Anotações, p. 123, 14.02.2012.

A construção de ficções (narrativas) disjuntivas (disfuncionais) torna-se, aos poucos, o modo de apresentação do discurso. As tentativas de atingir uma verdade através dos fundamentos internos não surtiram os resultados esperados. Erigir o pensamento reflexivo através de referências assertivas nos dava uma saída certeira, i.é, encontrávamos um raciocínio acertado, mas não necessariamente verdadeiro. Tornou-se fundamental deixar de utilizar as referências de modo cientificista, como tijolos, cimento ou pintura da casa que queremos erguer, e sim utilizá-las como direção para confirmar nossa ilusão consciente de que a casa erguia-se realmente para cima, ou que nos encaminhávamos para o subsolo (referências são como a existência do norte-sul, apenas uma conveniência).

O discurso dito puramente reflexivo, e corriqueiramente empregado como corriqueiro, soa nesses tempos obscuros como o choro de uma criança perdida nas brumas, e que, paralisada, sonha ser resgatada. Praticamente estático, dando voltas na sua homorreferencialidade, a reflexão perde-se por ser correta. É mais provável que se atinja o verdadeiro discurso reflexivo na atitude disfuncional. Como na literatura, os critérios críticos são critérios da recepção; todo o pensamento do discurso orienta-se por uma re-dobra, ou, por um desdobramento para o exterior. “… o impensado está (…) no centro do pensamento, como a impossibilidade de pensar que duplica ou escava o lado de fora’. Quando propõe um ‘discurso singular’ como modalidade da linguagem adequada a elaboração discursiva do processo de mergulho na experiência [grifo nosso], Foucault compartilha das idéias que envolvem a presença de um ‘vetor criativo’ nos processos de produção, seja da arte, seja do pensamento. A ‘criação’ seria um processo familiar à arte, mas estranho ao processo reflexivo tradicional…”[1]. A amarração foucaultiana do discurso de ficção como possível de verdade coloca a poiesis no centro da reflexão reveladora. Dizer algo criativamente, i.é, sem a exigência de carrear as coordenadas anteriores das referências dadas para a construção do objeto, retira o sentido da reflexão de um encadeamento positivador do método, para uma abertura ao fora e assim positivar a própria estrutura reveladora pelo desdobramento (pelas possibilidades de aderência à novas referências e de encontro com outros procedimentos que direcionem sempre o sentido para o novo).


[1] BASBAUM, Ricardo. Além da Pureza Visual. Porto Alegre: Zouk, 2007, p. 58.

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