Por que não?

Apontamento II, 14 junho 2012, p.54

Andando, sentada no ônibus, como carona, à espera, fazendo alguma tarefa cotidiana sem grande importância. Momentos em que nossa percepção se expande para qualquer elemento que esteja apto a nos invadir. Apossamo-nos deste, devorando suas beiradas ou apropriando-nos de seus pedaços de modo despretensioso, mas sempre atento. Desde o fluxo contínuo de águas sobre o vidro à variação da luz. Movimento. SOM. Silêncios absurdos e curiosidades sobre sua observação.

Pormenores vistos e apoderados. O corpo e o pensar mesclam-se nos pormenores. A posse que não é domínio, mas possibilidade de assinalamento. A POSSE de novas significações e RE-significações.

É o guarda-chuva perdido que flutua nos primeiros pensamentos, as tramas que se formam pelas conectividades nem sempre óbvias e diretas. Frágeis e Múltiplas, criam planos densos para o compartilhamento do olhar e a possibilidade da posse de uma posse.

Em vários momentos o elemento de convergência do vivenciar-apossar é a própria escrita. O olhar torna-se ideia-pensamento. Não é caminho ou origem, nem através, nem por meio de, nem outro advérbio qualquer. É o verbo Desdobrar. As afirmativas se alastram pela folha e toma formas diversas que permitem outros olhares.

Não se comunica pela palavra o que se viu. Não decifra uma realidade. Estímulo para posses outras, é o que a palavra pode apontar. Indicativos verbais e FORMais numa NOTAmanuscrita[1] no desejo por novas posturas. Sem idealismos e utopias. O simples respirar e experimentar o que geralmente não é visto, sem perder tempo [“estou atrasado!”, “Vem logo elevador!!”, “cadê o ônibus?”], sem ignorar o caos cotidiano [“é simples: vire à direita, conte quatro sinais, vira à direita novamente, encontre a rotatória, entre na rua da farmácia, passa o prostíbulo, passa a escola, vire à esquerda e pronto”], sem esquecer do limite humano contemporâneo. Apenas na atenção e no seduzir-se pelo possível do realmente simples e em suas re-significações. Um olhar para aquilo que é visto, que é ouvido, que é sentido, mas que por motivos outros (ou sem justificativas) resistimos em tomar posse.

Na possibilidade de ver aquele olhar confuso,

o ser que surge em momentos inapropriados e que fica à espreita das gotas que caem no azulejo ao lado

e nas situações inusitadas que trazem um novo olhar e sentir na experiência cotidiana.

      

Posses e Assinalamentos possíveis. Por que não?


[1] Estas indicações formais de caixa alta são muitas vezes usadas desnecessariamente e de modo a acobertar o sentido estético das palavras.

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