Meus olhos viraram uma cybershot

Rotina de imagens falsas, 10.07.2012.

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          Duas, ou mais paisagens. Na rotina de acordar todos os dias (atividade por demais cansativa e executada com grau de sofrimento variado) pede algumas atenções. Vários planos sucedem-se diante dos olhos e coordená-los de maneira inteligíveis nem sempre é possível. A incidência de luz no plano do vidro é embaralhada. Confusão irritante. Na metade que escapa fica a impressão mais escorregadia. De imediato o chão não se faz. Imaginar a duplicação de um panorama é o mais aproximado do esforço de colocar o olhar num adiante-horizonte repetindo-se como animação precária.

          Pronuncie calma e mantricamente: isso  não é uma televisão. Caso não adiante, arremesse objetos pesados e inúteis, quanto mais próximo do orgânico melhor, talvez pessoas, cães funcionem muito bem pelo estardalhaço pós-queda. Tente atingir a maldita tela. Do contrário pode acabar incluído no casting de um filme policial classe B, num daqueles cenários cinza-tristes de subúrbio-galpão, num estacionamento de lanchonete com rapazes vadiando de bicicleta, próximos a quadra de esportes sem alambrado. Esta é umas das piores perspectivas que se é capaz de conceber diante da superficialização da realidade palpável. Tudo que se apresenta na atualidade é transparente por nada existir do outro lado.

          O desespero de acreditar que aquilo não é um cenário maltrata a carne do mundo como nunca se viu.

          Meus olhos viraram uma cybershot.

         Abaixar as pálpebras assusta, causa tremores. É que os registros não possuem tempo de visualização programado e não é possível resgatar livremente essas malditas captações. Elas virão automaticamente nas reações do programa: dê um acorde e a canção é seguida com descompasso grosseiro, risque o giz no quadro e um turbilhão de pedidos aparece no canto esquerdo da retina.

          A vontade maior é enxergar a cadeira como é uma cadeira, o queijo como é um queijo e ter pela superfície da mesa primeiro uma coisa que sustenta outra coisa. Mesmo pisar o chão sem a crença palpitante de que errando o passo se está a voar tornou-se missão hercúlea em perseguição vigiada (filmada e divulgada).

           A estranheza da minha “Era das imagens” particular é que não sou feito de papel. Se tratar de formular-se como um ser espiritual, jamais terá lugar no mundo dissolvido em desinformações. Sabe aquele esforço de fazer de tudo uma janela? Ele continuou e parece ser muito bem sucedido. Só deram com o pé numa perspectiva aqui, numa abstração ali, até que se mostrasse possível o cálculo necessário para dissipar a consciência na concretude de que toda a redundância é coisa nova, sem vontade nem movimento. Afinal, que seria melhor, entre rezar ou trabalhar?

           Pare de olhar, respire, olhe de novo, depois tente tocar, pois todo esse mundo é feito de grandes curiosidades.

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