Da transfiguração da superfície cultural

A partir da obra de Nestor Garcia Canclini, “Culturas Híbridas”[1], nos é possível traçar uma linha de compreensão da forma de entrelaçamento das práticas sociais e dos valores históricos de diferentes “momentos culturais”. O indivíduo que sai da modernidade encontrar-se-ia num ambiente desterritorializado. O conceito de desterritorialização pode melhor ser compreendido quando Canclini usa o exemplo da cidade de Tijuana: “várias vezes pensei que essa cidade é, ao lado de Nova Iorque, um dos maiores laboratórios da pós-modernidade” (p. 315). Em Tijuana construiu-se um ambiente multicultural, ou culturalmente híbrido, que vai muito além do fato de estar localizada entre aspectos americanos e mexicanos. Seu ambiente de vivência mostra-se de maneira aberta ao ponto de não ser necessário um núcleo de propagação cultural que represente Tijuana. Muito por esse fato, todo o esforço de veiculação de uma cultura local cai em distorções e falseamento.

Essas características citadas na cidade de Tijuana são recorrentes e passíveis de compreensão ao visualizar-se a hibridação cultural. E é interessante notar que a maior parte dos ambientes que passam pelo processo de desterritorialização, possuem alguma tentativa de veicular práticas culturais que possam ser aceitas como autênticas. A escolha de tais práticas, normalmente, conflui de maneira interessante com esforços para atender interesses turísticos. O que havia sido culturalmente autêntico, antes do processo de hibridismo (culminando na completa desterritorialização), é transfigurado para cultura massiva e passa a ser usado como slogan de um território aberto a interação cultural (exatamente por sua cultura supostamente autêntica estar disponível massivamente).

Ação Performática do Projeto "Seu Título", Coletivo Monográfico, 2010.

Ação Performática do Projeto “Seu Título”, Coletivo Monográfico, 2010.

Inicialmente, é possível visualizar que, pontos de interesse de diferentes culturas extravasam os limites de sua sociedade e são (ou podem ser) valorizados e praticados em sociedades de valores muitas vezes antagônicos com esses pontos de interesse. Como no caso do Bairro da Liberdade, na cidade de São Paulo, que funciona como slogan da situação cultural da cidade. Não se trata de transmitir a representação de uma cultura oriental, mas a possibilidade de inserção desta num ambiente culturalmente híbrido.

A própria historicidade que compõe o ser social apresenta-se como um dos possíveis trilhos que nos levam a confluir pontos de interesse culturais. O sistema de referências que forma nosso panorama histórico, provendo suporte para agirmos socialmente, passou dos limites da vivência para os limites da consciência. Somente desse modo podemos conceber e compreender as informações multidirecionais que cortam os ambientes culturalmente híbridos.

Já num segundo momento pode-se observar que em muitos grupos e em sociedades as mais diversas, tem-se a valorização (mesmo a iconização) do estereótipo de outras culturas. A palavra “muçulmano”, ao ser pronunciada ou escrita fora da cultura que indica, trás uma série de características, inclusive históricas, que traça uma linha em torno desta cultura. Não possui nenhum valor existencial nessa utilização. No entanto, pode ser transfigurada.

Tal processo encontra-se inserido dentro do hibridismo cultural e ao ser disposto para a discussão, apresenta grande utilidade na aceitação e compreensão de comportamentos atualmente vigentes.

Inicialmente ocorre a delimitação da superfície de uma cultura pelo olhar estrangeiro. Essa superfície é então transfigurada de sua base justificadora, seu suporte original, para ser usada como “título” que justifique comportamentos que sem esse “título” seriam ainda discrepantes mesmo em sociedades culturalmente híbridas. A transfiguração de superfície cultural mostra-se necessária, pois o comportamento provindo de outro ambiente (atual caos na transmissão de informações) é antes exemplificado, podendo assim, ser praticado, para posteriormente procurar justificativa.[2] Desse modo podemos encontrar comunidades budistas minimamente fechadas no interior do Brasil, ou a disseminação do pensamento de apoio a comunidades indígenas contra o avanço industrial, onde boa parte dos manifestantes apenas responde ao slogan desta cultura. Ainda é possível que um funcionário de um frigorífico se declare hindu, ou que um ente das citadas comunidades indígenas ingresse em uma tribo urbana com práticas célticas.

Tais comportamentos são aceitáveis e compreensíveis. Também questionáveis e capazes de complexificar a realidade da qual fazem parte. Dispondo o processo do qual fazem parte para a discussão, visualiza-se com melhor foco o avanço da transfiguração de superfícies culturais em sociedades culturalmente híbridas. Com esse avanço, a sobreposição de superfícies cria um quadro com linhas e cores difíceis de decifrar que nos levam tratar o quadro com certa insegurança. Aparentemente, tocar o quadro é fundamental.

CONCLUSÃO

O projeto “Seu Título” não cai na prepotente tentativa de propor uma tese sobre os processos do hibridismo cultural, apenas aponta uma linha para a qual direcionar os esforços de uma discussão. Compreender os movimentos de formação da realidade de sua época é tarefa dispendiosa e muitas vezes improvável de ser cumprida. O projeto “Seu Título” vem auxiliar nesse esforço indicando um caminho merecedor de atenção.

[1] Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade; Tradução de Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. 3. ed. São Paulo: Edusp, 2000 (Ensaios Latino-americanos, 1).

[2] Esse processo pode mostrar-se arriscado, pois, enquanto os hippies, nos anos 60, encontravam no momento historicamente vivido a base para uma superfície transfigurada de um conjunto de culturas orientais, o mesmo aparentemente não pode ser feito quando deixa-se a vivência pela consciência, pois esta responde socialmente, mas não mostra-se como um estímulo primeiro.

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