[conto] Fora da Linha 13

"Esboço para o momento final", 2014.

“Esboço para o momento final”. Rodrigo Hipólito. Fotografia com intervenção manuscrita, 2014.

 

Texto de Rodrigo Hipólito

Veio em uma manhã de agosto. E veio para mudar tudo.

Talvez, se esperasse que alguém lhe falasse de fé naquela manhã, ou na noite anterior, poderia perdoar a ofensa e esquecer. Não poderia imaginar que antes do horário do almoço nada disso teria relevância. Todos os debates acalorados e as expectativas de que houvesse um futuro a ser montado como um quebra-cabeças de uma pintura do Francis Bacon, todas as noites mal dormidas e o arrependimento consequente pela sensação de ressaca sem álcool, todos os encontros de padaria e olhares desrespeitosos tornaram-se irrelevantes antes do horário do almoço.

Já havia presenciado essa chegada em sua antiga cidade e em outra antes dessa e ainda em mais uma antes das duas. Jamais adivinhava a hora certa e, assim, ao meio dia, comia um prato diferente daquele que iria pedir meia hora antes.

Sentada ao balcão por cinco minutos, olhou diretamente nos olhos do garçom. Ambos forçavam os lábios e cerravam os olhos.

– Biscoitos. Amanteigados.

– Sim. Café, sem açúcar, um pingo de leite.

– Sim. Frio.

– Frio?

– Frio.

Isso já era um indício. Mas não era capaz de sensibilizar-se nem pelo desconforto do garçom. O enfastiado e descorado rapaz trouxe a tigela de biscoitos e a cafeteira. Que esperasse o café esfriar. Alguns níveis de desrespeito devem ser mantidos frente a comportamentos incoerentes.

Poderia ter nascido um bebê mais atento, ativo, disposto para conhecer o restante do berçário. Isso provavelmente resultaria num número menor de repetições constrangedoras. Nos poucos campos da vida em que a precocidade funciona, deve-se exercitá-la.

Começava com um ligeiro aumento da temperatura e seguia-se uma queda abrupta. Os passantes abotoaram o colarinho e seguiram a passos rápidos para dentro dos prédios. O eco de alguns passos ainda era audível quando o vento soprou.

Sempre saía sozinha à rua no momento em que o céu passava do azul ao cinza e as folhas caiam como grãos pesados. Aos poucos, o tempo voltava sobre as próprias pegadas e a renda de galhos era novamente encoberta. Então as cores eram outras, o gosto do café era outro, o algodão da camisa aconchegava outra pele, as pernas tinham outro peso, a quantidade de ar nos pulmões era outra e voltar para casa tornava-se uma tarefa quase impossível. Sabia que havia perdido mais uma chance de ficar.

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