Fora da Linha 13

"Esboço para o momento final", 2014.

“Esboço para o momento final”, 2014.

Veio em uma manhã de agosto. E veio para mudar tudo.

Talvez, se esperasse que alguém lhe falasse de fé naquela manhã, ou na noite anterior, poderia perdoar a ofensa e esquecer. Não poderia imaginar que antes do horário do almoço nada disso teria relevância. Todos os debates acalorados e as expectativas de que houvesse um futuro a ser montado como um quebra-cabeças de uma pintura do Francis Bacon, todas as noites mal dormidas e o arrependimento consequente pela sensação de ressaca sem álcool, todos os encontros de padaria e olhares desrespeitosos tornaram-se irrelevantes antes do horário do almoço.

Já havia presenciado essa chegada em sua antiga cidade e em outra antes dessa e ainda em mais uma antes das duas. Jamais adivinhava a hora certa e assim, ao meio dia, comia um prato diferente daquele que iria pedir meia hora antes.

Sentado ao balcão, por cinco minutos olhou diretamente nos olhos do garçom. Ambos forçavam os lábios e cerravam os olhos.

– Biscoitos. Amanteigados.

– Sim. Café, sem açúcar, um pingo de leite.

– Sim. Frio.

– Frio?

– Frio.

Isso já era um indício. Mas não era capaz de sensibilizar-se nem pelo desconforto do garçom. O enfastiado e descorado rapaz trouxe a tigela de biscoitos e a cafeteira. Que esperasse o café esfriar. Alguns níveis de desrespeito devem ser mantidos frente a comportamentos incoerentes.

Poderia ter nascido um bebê mais atento, ativo, disposto para conhecer o restante do berçário. Isso provavelmente resultaria num número menor de repetições constrangedoras. Nos poucos campos da vida em que a precocidade funciona deve-se exercitá-la.

Começava com um ligeiro aumento da temperatura e seguia-se uma queda abrupta. Os passantes abotoaram o colarinho e seguiram a passos rápidos para dentro dos prédios. O eco de alguns passos ainda era audível quando o vento soprou.

Sempre saía sozinho à rua no momento em que o céu passava do azul ao cinza e as folhas caiam como grãos pesados. Aos poucos o tempo voltava sobre as próprias pegadas e a renda de galhos era novamente encoberta. Mas, então as cores eram outras, o gosto do café era outro, o algodão da camisa aconchegava outra pele, as pernas tinham outro peso, a quantidade de ar nos pulmões era outra e voltar para casa tornava-se uma tarefa quase impossível. Sabia que havia perdido outra chance de ficar.

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