Por detrás

.

O portão era adornado com elementos gregos. Alguns arabescos se aproximavam mais do ornamento românico. Uma mistura estranha de formas orgânicas e placas de cimento rígidas. Eu o abri. Dava em uma escada. Logo no primeiro degrau, ela pôs-se a subir sozinha. Achei que me deixaria para trás. Subimos. Subimos. Só depois de 30 minutos perguntei-me onde a escada daria e por que nunca chegava a lugar algum. Olhei para o lado e não conseguia ver qualquer coisa. É estranho pensar que poderia ver o nada. Subíamos, subíamos… até pensar que se não havia referencial externo, poderia muito bem estar descendo. Eu não queria descer. Nunca gostei dessa ideia. Sempre que me pediam para descer, era de algum brinquedo legal, de uma altura reconfortante.

Dia 17, 6:00 da manhã. Acordo cansada, com as pernas doídas. Lentamente desço as pernas da cama e procuro o chinelo. Não o encontro. Encosto os pés no chão gelado e me direciono ao banheiro. No espelho, um reflexo sempre indesejável. Pela manhã, nem todos são humanos. Minhas orelhas estavam mais pontiagudas que o normal e o tufo azul de cabelo crescera novamente. Os olhos tão vermelhos que qualquer místico teria visões apocalípticas. Disseram-me que era uma defesa natural e cada vez mais necessária contra a poluição. Escovo os dentes, utilizo a latrina e volto para procurar os chinelos. Nada, ainda. Um chá de camomila, pão integral com creme de ricota e uma fruta, melão. Sempre, para balancear a poluição. Visto-me, na esperança de ver os chinelos. Eles não apareceram. O ritual é demorado. Saio às 7:30. Desço a rua, como de costume. Não encontro ninguém, nem mesmo o senhor que varre a calçada. Talvez tenha morrido, ou perdido os chinelos. Espero o ônibus, que chega pontualmente às 7:45. Bom dia. Minhas primeiras palavras do dia. Com licença. Desculpe. Com licença. Ai!. 5 minutos até o metrô. Trocaram a placa amarela de lugar. Eu preferia que ela estivesse à direita, a troca deixou algumas pessoas perdidas. Com licença. Obrigada. Segure-se. Sim, você deve descer nessa estação. Com licença. Subo as escadas, sempre à esquerda, preciso estar subindo. 4 escadas e chego à rua. O movimento já é intenso. Piora se colocam o cone na esquina. Nunca entenderei aquele cone. Paro no sinal (aqui chamado de farol). Olho para cima. A senhora de veludo já começou a regar as plantas. Sempre joga água nos ornamentos da fachada, na esperança de que cresçam, talvez. Atravesso a rua. Mais uma reforma. Acho que é a terceira que iniciam nesse prédio. Bom dia. Bom dia. Bom dia… Sento-me à mesa e ligo o computador exatamente às 9:00. Acompanho o relógio, atentamente. 13:00! Graças! Estava faminta. Desço as escadas. Atravesso a rua. Boa tarde. Boa tarde. O de sempre. 14:00. Até mais. Atravesso a rua. Boa tarde. O almoço estava gostoso. Acompanho o relógio. 18:00, começo a juntar minhas coisas e lembro-me do meu chinelo. Os pés doem. 19:00, desligo o computador e desço as escadas. Volto ao metrô, volto ao ônibus, volto pra casa. A volta é sempre mais desesperada e sem muito diálogo. Apenas um Aish! Saia da esquerda!.

Dia 18. 6:00 da manhã. Acordo. Esqueci de procurar os chinelos. Deixo para lá e vou direto ao banheiro. Corto o tufo de cabelo azul, encolho as orelhas e uso colírio. Chá, pão e fruta. 7:30 saio de casa. 7:45 pego o ônibus. Bom dia. 7:55 pego o metrô. Hoje atrasou. Um carro quebrado em frente à estação. Com licença. Subo as escadas. 4 escadas e chego à rua. Tiraram o cone. A senhora boceja. O limo escorre pela fachada. Atravesso a rua. Observo o andamento da reforma. Bom dia. Sento-me à mesa e ligo o computador exatamente às 9:00. Acompanho o relógio, atentamente. 13:00, almoço. 14:00, retorno. 19:00, desligo o computador e desço as escadas. Saio do prédio, volto ao metrô, volto ao ônibus, volto pra casa.

Dia 19. 6:00, acordo. Banheiro. Chá, pão e fruta. 7:30 saio de casa. 7:45 pego o ônibus. 7:50, metrô. 9:00, ligo o computador. 13:00, almoço. 14:00, retorno. 19:00, desligo o computador e desço as escadas. Saio do prédio, volto ao metrô, volto ao ônibus, volto pra casa.

Dia 20. 6:00, acordo. Chá, pão e fruta. Preparo-me para sair, quando vejo o meu recado na geladeira. Não saia! Certo. Como o previsto, esqueci-me de que hoje fui dispensada do trabalho. Um bônus por algo que não sei bem o que fiz. Decido voltar para a cama e dormir. 13:00. Acordo com fome. Almoço, o de sempre. 14:00, ligo o computador. Ana enviou-me um convite. Um passeio pelo centro. Não me sinto à vontade em passear do lado do prédio que trabalho, mas aceito o convite. Mudo de roupa, desligo o computador. Ônibus e metrô. Horários perdidos, não sei que ônibus peguei. Bom dia. Mesmo sendo de tarde. Uma tarde confusa. Achei estranho não pedir licença nem desculpa.

Chegamos a Galeria Olido. Assino uma folha, mostro minha identidade. Coloco um fone e uma moça me pede para sair da galeria. Estranhamente sou absorvida por seus comandos e sua história. Atravesso a mesma rua de todos os dias. Ela me conta histórias que não sabia. Olho para os ornamentos cheios de limo. A senhora não os está regando, mas eles existiam muito antes dela. Encontro mais prédios e detalhes que não imaginava existirem no centro. Eu, que sempre me julguei uma grande observadora do mundo, não tinha, até então, levantado a cabeça nessa esquina. Quando foi que colocaram aquela escultura ali?! ao lado da mesma escada que sempre subo.

Nossa presença, de Ana e minha, causa curiosidade. Andar pelo centro sem um destino e um objetivo óbvio é realmente incômodo aos outros passantes. A cada movimento de olhar, outros olhos se juntavam aos nossos. Somos guiadas e guiamos outros curiosos. O dia parecia mais cheio. Uma hora e 20 minutos de passeio e milhares de informações que não apreendi em 10 anos vivendo ali. Ou melhor, passando por ali. Prédios de mais de 50 anos eram novos para mim. Retornamos a galeria, extasiadas. O retorno para casa foi alegre. Apenas um ônibus. Preferimos voltar vendo a cidade.

240920141978b

Dia 21. 5:55. Acordo antes de ser acordada. Apenas abro os olhos. Desligo o despertador. Olho para minha estante. Alguns livros estão fora de ordem, algumas folhas jogadas sobre a mesa. Embalagens vazias pelo chão. O prato da janta encostado ao pé da cama. A mala ainda está aberta, com alguns lençóis e fronhas jogados. Deveria comprar logo um armário, já fazem 10 anos, afinal. Estendo os braços sobre a cabeça e sinto que o cabelo não cresceu essa manhã (apenas receio que esteja todo azul). As orelhas pareciam normais, um pouco ásperas, mas nada visível. Hoje é sexta-feira, dia de trocar os olhos, antes que explodam em vermelhidão. Talvez eu me atrase, preciso encontrar um ponto mais neutro de camuflagem. Talvez precise remodelar o nariz, antes que ele caia. Nunca precisei dele, de fato, mas a partir de hoje pode ser que seja necessário.

Um ponto mais neutro implica necessariamente, e desejosamente, um modo de andar sem ser visto, mas vendo. Talvez hoje eu encontre o senhor limpando a calçada. Preciso saber seu nome. E a senhora de veludo, bem, vou esperar com ela que a fachada tenha crescido. 6:30. Preciso levantar. Desço as pernas da cama, antes que as esqueça. Com os pés, afasto as páginas de jornais para a direita e calço, então, os chinelos, escondidos sobre as novidades do mês passado.[1]

.

.

.

[1]  Texto produzido a partir da experiência Território Ocupado.  Trata-se de uma das edições do projeto Audiotour Ficcional da Cia BiNeural – MonoKultur (Argentina / Alemanha) , com coprodução de Difusa Fronteira. “[…] é uma experiência sonora individual onde a cidade é tomada como cenário para um percurso ficcional. Com um tocador de mp3 e fones de ouvido o espectador percorre sozinho as ruas de uma cidade escutando uma história que mescla ficção com fatos reais-históricos.” [http://www.bineuralmonokultur.com/].  Na edição Território Ocupado, a viagem ficcional acontece no centro de São Paulo. “Nesta edição, os ‘audioturistas’ percorrem em duplas um trajeto desconhecido seguindo a jovem estudante Juliane por uma caminhada que modificará para sempre a relação dela com sua cidade. O formato Audiotour Ficcional põe o público em um lugar distinto: de espectador passivo passa a ter papel fundamental neste terreno limítrofe entre a intervenção, o documentário e a ficção. Uma experiência sonora que envolve todos os sentidos e propõe uma maneira inédita de percorrer as ruas centrais da urbe paulistana”. [https://www.facebook.com/events/548488751923693/?fref=ts] e [http://www.difusafronteira.com.br/noticia_mci.htm].

.

 

.

.

.

.

.

.

.

.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s