Bem-vindo, ou, apenas entre

"Desculpe o Incômodo. Em Obras", 2014.

“Desculpe o Incômodo. Em Obras”, 2014.

Parou em frente à porta e pensou se não era melhor entrar pela janela. Pareceu-lhe estranho entrar por aquela porta, de novo e de novo. Olhou o tapete e seu dizer pareceu sarcástico: Bem-vindo. Seria melhor espalhar uma linha de sal grosso? – pensou o pobre homem de maleta nas mãos. As veias pulsavam no pescoço, era uma noite quente. Suas mãos pareciam tão cansadas que mal conseguia procurar as chaves. Não entendia por que tantas fechaduras acima daquele tapete. Repetia a frase baixinho, como que para convencer-se “Bem-vindo, bem-vindo, bem-vindo…”. Encontrou as chaves e abriu uma, duas, três fechaduras.

Entrou na sala. Jogou a mala na poltrona e pensou se acenderia a luz dessa vez. Afrouxou a gravata, imitando um estereótipo de empresário de sucesso, e disse para o vazio: “Querida, cheguei!”. Pensou até em abaixar e abraçar o vento sorridente, mas achou trabalhoso demais. Subiu as escadas, apoiando-se na parede. Realmente não queria acender a luz. Deitou-se na cama para ganhar um pouco de fôlego, antes de tomar banho e ajeitar-se para dormir. Subestimou seu cansaço.

Não sabia se estava sonhando ou se acordado. Virou-se na cama para confirmar. O barulho persistia. Virou-se para a direita, porque confiava mais no ouvido esquerdo. O barulho sumiu. Intuiu que era melhor olhar as horas, devia estar perto da hora de comer novamente. 6:00. Um suspiro lento e tedioso. Mais um dia começava. Era dia, mas era melhor acender as luzes. Não queria atrasar-se. Escovou os dentes com certa dificuldade. De fato, um espelho às vezes fazia falta para distraí-lo. Escolheu um novo terno, mais claro, com riscas de giz, porque acreditava que riscas davam sorte. Preferiu preparar o café antes do banho. Não sabia por que, mas sentia muita fome. Desceu as escadas, apoiando-se desnecessariamente na parede. Encontrou o tapete da sala cheio de pelos brancos. Enquanto a água do café aquecia, varreu o tapete. Retirou um tufo gigante de pelos sedosos, queria calcular, mas nunca soubera direito como fazer. Era um raio de 60cm ou a circunferência de pelos que media 60cm?. Não eram pesados, mas muito volumosos. Ao juntá-los, subiu pela sala um aroma gostoso, um tanto primaveril. As riscas de giz podiam estar certas.

Voltou para a cozinha, jogou no lixo os pelos e coou o café. Abriu o jornal para ler as notícias e instintivamente estendeu o braço com um pedaço de pão. Não pareceu ser suficiente. Foi até a despensa pegar mais. Comeu mais um pedaço e jogou o restante no chão. Sobre o jornal, dava para ver o relógio, que não o esperava. Abaixou-se para recolher as migalhas, mas o monte gigante de pelos foi mais rápido. O chão parecia brilhar, apesar de melado.

Subiu as escadas com um pouco de pressa. Tomou banho e vestiu suas riscas de giz. O tempo parecia alargado. Não se atrasara. Ainda dava para terminar de ler a reportagem que começou durante o café. Desceu as escadas, posicionou a maleta para a hora que fosse sair e sentou-se na poltrona. Abriu o jornal, relaxado, e entre uma página e outra estendia o braço para acariciar os pelos gigantes. Começou a pensar em como um cão tão grande cabia na sua sala e se era possível ele se locomover sem quebrar as paredes. Observou que durante o café da manhã, uma cadeira foi esmagada pelo rabo. Decidiu colocar um balde de comida do lado do tapete, para que ele não precisasse levantar novamente. Procurou nos classificados, com o tempo que restava, algum pedreiro que pudesse quebrar as portas e retirar uma parede da sala. Sabia que precisaria de espaço. Precisaria de mais comida. Precisaria de um aspirador. Mas naquele momento, só precisava sair de casa. Pegou o balde, juntou o que restava na geladeira, anotou “comprar ração” e deixou a comida do lado do cão que dormia. Abraçou-lhe parte do pescoço, ao menos o que conseguiu alcançar, e foi embora.

Esperou o dia passar, fixando os olhos no relógio, como se não tivesse trabalho a fazer. Só queria ir ao mercado. Só pensava naqueles pelos sedosos e em como daria banho no cão, para mantê-los como eram. Na banheira, seria impossível. Ele não conseguiria subir as escadas. Levá-lo para o quintal também parecia improvável, antes teria de aumentar a porta da sala em pelo menos mais dois metros, e o pedreiro para quem ligara durante o expediente, só estaria livre no próximo mês. Faltavam pedreiros na cidade, era mais um fato, depois do espelho e das riscas de giz. Não importava, precisava voltar para casa.

18:00. Finalmente! correu para o mercado. Parou na vaga que parecia a melhor do estacionamento, a porta automática enfim abriu para ele, reconheceu sua presença depois de anos. Era mesmo um dia de sorte. Resolveu comprar um espelho, mas teve dificuldades em encontrar a ração adequada. Não sabia de qual gostava, a qual estava acostumado, notara que não sabia nada sobre ele. “Não existe nada maior que porte grande?!” – pensou – “é um absurdo, uma falta de respeito com o consumidor! Preciso falar com o gerente. Não, preciso entrar em contato com a empresa e exigir uma ração melhor. Não, antes ainda preciso entender em que porte o cão se adéqua”. Comprou a maior que tinha e mais um balde para a água. Encontrou a furadeira, para instalar o espelho. Dirigiu-se ao caixa, pagou a conta, e voltou para casa.

Parou diante da porta. Procurou as chaves e enquanto as procurava, olhou para seus pés. O sapato batera secamente na soleira da porta. Notou a falta de um tapete. Precisava comprar um. “Uma casa não é casa sem um tapete de bem-vindo”. Voltou ao mercado. Conseguiu parar na mesma vaga e entrou pela porta do mercado junto de uma senhorinha sorridente. Encontrou a sessão de tapetes e ficou ali por cerca de meia hora. Capacho de fibras de coco ou tapete de tecido? 45, 60 ou 90cm? vermelho, azul ou tons mais terrosos? Demorou a decidir. Queria o tapete perfeito. “Este, meu filho, é mais resistente” – disse a senhorinha. “Obrigado”. “De nada, e bem-vindo”. Direcionou-se ao caixa com um tapete, sem saber de que material era feito, mas o importante era ser do tipo bem-vindo. Voltou ao carro e dirigiu-se para casa.

Estendeu o tapete, todo orgulhoso. Até teve mais forças para encontrar as chaves na maleta enquanto se deliciava na maciez do tapete. Abriu uma, duas, três fechaduras e entrou na casa. Acendeu as luzes. Deixou as sacolas na cozinha e subiu as escadas. Afrouxou a gravata, tirou o terno e desceu para pegar o espelho. Instalado, era hora de dormir.

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