No Brejo da Arte

"Rãs e Carinatas", 2015.

“Rãs e Carinatas”, 2015.

– Você se lembra do pintassilgo e das rãs?

– Sem disposição para sarcasmos.

– Não é sarcasmo, devem ter contado essa história nos primeiros anos de escola. Você se lembra, mas pensa que esqueceu.

– Essa espécie de artimanha para dominar um debate é deprimente. Você pode não acreditar, mas, para algumas pessoas, esses são assuntos sérios.

– Já para outras pessoas não. Em todo o caso, a história do pintassilgo e das rãs é a mesma que ocorre conosco neste momento. Se não enxergamos é porque assumimos nossa natureza de rã e dela nos recusamos a sair. Poderia usar o mito da caverna de Platão. Mas, além de recair em uma citação já desgastada, realmente me parece que as histórias infantis funcionam melhor e, nesse caso, abrange horizontes mais extensos.

– Sinceramente, não tenho tempo para me deixar levar por chacotas.

– Certo. Você é uma rã que se recusa a ouvir qualquer informação que venha de fora do seu buraco brejeiro. Isso não é chacota.

– E você é o rei das carinatas?!

– Isso sim é chacota. Mas não, não sou. No máximo sou uma rã mais disposta a ouvir vozes estrangeiras.

– Não tenho problemas com vozes estrangeiras, apenas penso que se não mantivermos certo nível de especificidade nosso campo se desfaz em meio aos demais.

– O que seria muito positivo por sinal. Mas, na prática, essa não é uma transformação possível, pois já estamos dissolvidos nos demais campos. Assim também acontece com as outras áreas. Você vive uma ilusão de que exista um “campo da arte” e isso também ocorre por quase todas as paragens das humanidades.

– Certamente que possuímos nossos objetivos e podemos nos diferenciar das demais áreas. Do contrário, sequer teríamos essa discussão.

– Certamente que não possuímos objetivos Nossos e caso oberve com um pouco menos de humor de rã, perceberá que todos os nossos conceitos são provenientes de um limbo cuja definição tememos encontrar.

– Agora o assunto virou uma defesa do pluralismo!

– Eis mais um conceito proveniente de outra área. Não é uma defesa de qualquer ismo. Liberte-se desses vícios! Procure novas palavras! Abandone sua crença de que a arte nasceu sozinha como um milagre despropositado!

– Como se essa argumentação excluísse o fato de que possuímos temas atuais e ansiosos para serem tratados pelos pesquisadores da Nossa área.

– Um novo problema, que é o mesmo. Enquanto insistirem as rãs nessa ideia absurda de “pesquisadores da Nossa área” as pesquisas permanecerão no mesmo patamar de obviedade que exercitam há três ou quatro décadas. Não ouvir os profissionais sem estipular fronteiras disciplinares é alimentar a ação ruminante que executamos. Larguem esse chiclete!

– Isso que você chama de ruminar é parte da digestão que devemos fazer para trabalhar da maneira mais adequada. Isso é ciência, não circo!

– Já que você gostou da figura, podemos pensar em ruminar o próprio vômito, caso lhe seja mais adequado.

– Isso é inútil!

– Enquanto nós, rãs, nos consumimos na azia de nossa redigestão, muitas soluções possíveis ou caminhos frutíferos e saudáveis passeiam sobre nossas cabeças sem que acreditemos em sua existência. Enraizados na lama de nossa umidade confortável, alimentamos o medo de sermos invalidados e ficarmos órfãos caso pulemos pra fora de casa. O maldito “campo da arte” tornou-se uma família caxias que almoça e janta o mesmo grude todos os dias. Esse ódio do passado, esse muro entre arte contemporânea e todo o resto, esse medo de ser incorreto, de ser mal, sentimental e superficial, esse desprezo pelo que vem de fora, isso tudo cheira a naftalina da Tradição. Eis a nova tradição. Uma tradição bem conceituada, segura de si, sustentada pelos seus documentos cinquentões, pelas suas preocupações políticas. Ao mesmo tempo, treme nas bases só de pensar em tratar de assuntos que excedam sua “agenda”.

– Isso tudo são concepções suas, apenas suas. Não há qualquer dado nisso.

– Que seja! Esse parece ser sempre o ponto final da nova tradição: que se faça mais uma pesquisa sobre a arquitetura da política das artes! Pois ser chato não é o suficiente. Se quiser dados, pense em suas próprias práticas. Qual o último livro de teoria literária que você leu? Qual o último congresso de dramaturgia a que você compareceu? Quais as últimas revistas de antropologia, filosofia, história, música e cinema para as quais você escreveu? Ao menos leu algum artigo publicado nessas revistas? Sabe quais os gadgets emplacaram na comunicação móvel? Só falta agora você me dizer que não assiste novela!

– Ah essa última aí nem há condição de acompanhar!

– Verdade.

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