Dos paradoxos da figura

Sobre Didi-Huberman, Georges. Poderes da figura: exegese e visualidade na Arte Cristã. Tradução de Virgínia Andrade e Leonor Caroça. Revista Comunicação e Linguagens, Lisboa, n.20, p. 159-173, 1994.

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Fig 02

Altar Portátil, séc. XI, Museu de Cluny.

De uma porta a outra, tornamos presente aquilo que estava velado em nossa crença.

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É fascinante como escritores como Didi-Huberman e Sartre (aqui também podemos incluir Schopenhauer) conseguem nos bombardear com uma sincronia complexa de palavras que abrem a multiplicidade de sentidos e conteúdos e, ainda assim, no final do texto, deixam ressoar uma palavra, um cacoete ou um sentimento. Pode ser meu sintoma, pelo apego emocional aos livros… que seja. O fato é que da leitura de “A imaginação”, de Sartre, apesar da densidade do conteúdo tratado, de um passeio sintético e laborioso por pensamentos filosóficos sobre a imaginação, o que sempre me vem à mente quando falam desse livro? Folha branca. Intenção ou não do autor, é a imagem da folha branca que se multiplica na minha mente, por mais que eu nunca a tenha visto pessoalmente (mas tenho algumas sobre a mesa…).

Do texto “Os poderes da figura…”, de Didi-Huberman, se fosse possível encontrar uma palavra que espelhasse as aberturas pretendidas por ele sobre a ideia de figura (e que não seja a própria abertura), uma pequena palavra que persistisse num retorno à mente, como as folhas de Sartre, talvez nosso olhar se voltasse aos “paradoxos”.[1] Por mais que ele frise o uso de termos interessantes como desvio,[2] é no paradoxo que nos detemos. Todo o texto, senão em um aspecto mais amplo de seu trabalho, e do meu, consequentemente, gira em torno de paradoxos que dão origem à imagem cristã e sua disseminação. Trata-se principalmente do paradoxo da figuração cristã que altera a relação com o visível pelo mistério da Encarnação. Não é Deus que vem ao mundo visível em aparência, mas como presença. “[…] paradoxo absoluto de toda e qualquer figuração, que S. Bernardino de Siena, no século XV, exprimia dizendo que ‘o infigurável [surgia] na figura […], o incircunscritível no lugar, o invisível na visão’, etc.. Trata-se, de facto, de um paradoxo: qual poderá ser o aspecto congruente de um verbo, de uma simples palavra que se encarna? Porquê um homem[…]? Como conciliar a unidade imutável da pessoa divina com a diversidade e o contraste daquilo que deveríamos chamar a dramática das suas transfigurações, do belo jovem capaz de andar por cima das águas ao ser desfeito e ensanguentado […] e ainda desse corpo glorioso até à pura e simples superfície de pão ázimo consagrado, no qual o dogma cristão reconhece, no entanto, toda a ‘presença real’ do mesmo Verbo?” (p. 163). Contradições condicionadas em grande parte pelas heranças da Antiguidade Clássica: “Aquilo que o cristianismo realmente procurava, nesta aposta e neste paradoxo da figuração, era ultrapassar a oposição secular dos deuses demasiado visíveis do paganismo greco-latino e do deus demasiado invisível da religião hebraica” (p. 163). A figura cristã estaria paradoxalmente relacionada ao visível e ao invisível, mas nasceria de uma dupla ultrapassagem. Para tratar dessas ultrapassagens Didi-Huberman faz uso da expressão de Santo Agostinho videre verbi (“ver do Verbo”), usada em sua interpretação da passagem da “piscina probatória” (João 5, 1-9). “Porquê, e como, pode um verbo ser pensado, simultaneamente, como objecto e sujeito do ver?” questão teológica fundamental que Didi-Huberman quer estender para toda figura do divino na civilização cristã. Para responder a essa pergunta “[…] é necessário precisar (ou distinguir) os termos, determinar de que forma o ver aqui posto em jogo ultrapassa a ideia comum que temos do visível, e de que maneira o verbo aqui posto em jogo ultrapassa a ideia comum que temos do legível” (p. 163).

Através dessa dupla ultrapassagem há uma dupla substituição, do visível pelo visual, do legível pela exegese, que resolvem as contradições postas em sua origem: “A solução destas contradições históricas só pode ser apreendida se tivermos em conta o intenso trabalho de substituição, de Aufhebung, de ultrapassagem dialética, aplicados pela doutrina cristã às categorias habituais da figura e da visibilidade. A nossa primeira hipótese será, portanto, que o mistério cristão da Encarnação exigiu e produziu um trabalho de substituição do visível, visando exigir e produzir o seu trabalho específico e extremo da figuração” (p.164).

A preferência pelo termo visual vem a frisar a fração da figura que não toca o invisível nem se pauta pela ordem clássica da imitação, mas que se expressa pelo “inconsciente do visível”, “[…] região da figura que teria o poder obsessivo dos fantasmas, a fatalidade dos sintomas, o valor de prazer dos ditos espirituosos, ou ainda o valor alucinatório das imagens do sonho… Em suma, a capacidade, o poder de constituir cada figura como dialética de desejo e como verdadeiro tesouro de sobredeterminações psíquicas e culturais” (p.160-161).

A segunda hipótese geral de Didi-Huberman, seguindo o exemplo de substituição do visível pelo visual pelo dogma da Encarnação, encontra-se no trabalho de substituição do legível exigido pela noção de Sagrada Escritura. “[…] proponhamos a noção de exegese que, etimologicamente nos sugere o movimento de avançar sempre “para além de”, isto é, de sermos sempre conduzidos para fora do sentido evidente que a Escritura propõe a princípio. Enquanto a ‘leitura’ encerra em si mesma o sinal de um vínculo que se estreita, a exegese, por sua vez, visa abrir o texto a todos os ventos do sentido latente.” (p. 165) – e daí e por muitos outros motivos pensarmos também na palavra abertura como “síntese” da leitura dos textos de Didi-Huberman.

O trabalho de substituição coloca o visual e a exegese como conceitos (e ações) que melhor atendem as novas exigências da figura, que abarca os mistérios teológicos, os sentidos latentes excluídos por uma leitura herdeira da cultura renascentista, que buscou atrelar o visual ao visível e a dimensão exegética a uma simples narrativa iconográfica (p. 167).

E qual o poder da figura a que se refere o título do texto? Didi-Huberman traça dez procedimentos, dez operações de trabalho que a figura cristã pode exercer:

  1. Translatio, o deslocamento: a figura ultrapassa o que ela representa, ela é o próprio percurso, a sua dinâmica. Não deter-se em um único ponto significa não permitir uma leitura em sequência de sentido linear.
  2. Memoria, a memória: a figura “[…] constrói para si própria uma temporalidade paradoxal, que consiste primeiro em trabalhar inteiramente no plano de uma memória virtual” (p. 169).
  3. Praefiguratio, a iminência: operação figural ligada intimamente à memória, na medida em que a figura possui a marca do passado e o destino prefigurado.[3]
  4. Veritas, a verdade: poder da verdade, verdade escatológica, verdade dogmática, verdade da fé. “Possuirás em ti uma verdade que no entanto te ultrapassa e só se compreende fora de ti”.[4]
  5. Virtus, o virtual: a figura guarda em si potencialidades de outras figuras.
  6. Defiguratio, a dessemelhança: Função de dessemelhança imposta pelo mistério teológico, em paradoxo a semelhança essencial das imagens (representação); “Afastar-te-ás do aspecto da coisa que queres significar” (p. 171).
  7. Desiderium, o desejo: função anagógica das imagens, de um desejo místico de elevação da alma em direção ao divino.
  8. Praesentatio, a presentabilidade: a figura vai além da representação (visto que não se limita ao visível), ela torna presente aquilo que significa. Como o grau máximo da figura na Encarnação, em que Deus torna-se presente e não aparente.
  9. Collocatio, o poder do lugar: “a figura não se encontra num lugar: a figura é o lugar enquanto trabalho dos espaços impossíveis.” (p. 173).
  10. Nominatio, o poder do nome: “o nome tem o poder de dar origem ao lugar, portanto à própria figura, que em muitos casos apenas glorifica, invoca ou desenvolve esse nome”. (p. 173).

Todos os paradoxos apontados por Didi-Huberman e outros que podemos encontrar no aprofundamento das relações entre os 10 procedimentos do trabalho da figura, mostram a complexidade da cultura cristã. A figura refrata-se e cria relações ambivalentes no texto da Sagrada Escritura e na figurabilidade que dela, direta ou indiretamente, provém.

É pelo conceito de figurabilidade e pelos desvios reconhecidos e teorizados que se permite, hoje, tentarmos acessar o labirinto de relações indiretas a que o medievo estava submetido. É preciso distanciar-se para ver (infinidades e paradoxos…), afastar-se dos sentidos diretos de representação, de nossa cultura diretiva, para ver a “poética original, poética de encarnação do verbo”. Um trabalho laborioso, complexo, mas que pode nos tornar perdidos na “floresta das florestas” a que São Boaventura se refere. De ramo em ramo, dentro de cada folha que se refere à folha de outras árvores, os paradoxos tornar-se-iam presentes em cada desvio. Perdidos no labirinto, talvez assim, veríamos melhor.

Anônimo inglês. Altar portátil, primeira metade do séc. XI. Placa de pórfiro púrpura que presentifica Cristo (Praesentatio) e um círculo de prata que descreve a crucificação, os símbolos dos evangelistas, arcanjos e Agnus Dei. Museu de Cluny, Paris.

Anônimo inglês. Altar portátil, primeira metade do séc. XI. Placa de pórfiro púrpura que presentifica Cristo (Praesentatio) e um círculo de prata que descreve a crucificação, os símbolos dos evangelistas, arcanjos e Agnus Dei. Museu de Cluny, Paris.

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[1] Claro, não me esqueci de Schopenhauer, apesar de que ele não ficaria muito contente por ser jogado em nota de rodapé. Ele está aqui embaixo porque diferente de Sartre e Didi-Huberman, não consigo sintetizar uma palavra ou expressão, como Folha branca e Paradoxo. Schopenhauer está mais para um sorriso. Não precisam se espantar, sei que nem todos seus livros são provocadores de felicidades, alguns são realmente de dar mais uma volta no parafuso, mas “A arte de escrever” é um presente para todos aqueles com sintomas mínimos de TOC e que entendem o prazer do sarcasmo, da ironia e da implicância.

[2] O desvio também aparece em escritos bem anteriores, a que me recordo por Auerbach (“Figura”), em Quintiliano (Institutio Oratoria), mas de modo secundário, quando aborda a ideia de figura como forma de discurso que se desvia do seu uso normal e mais óbvio. O desvio referido por Didi-Huberman relaciona-se ao espelho de S Paulo (p. 166) pelo qual vemos o mundo em enigmas.  Certamente o desvio ganha maior visibilidade pelas novas inflexões apontarem na direção de outros sentidos latentes que mudariam a relação do cristão com a figura.

[3] Lembremos aqui, novamente, da obra “Figura”, de Auerbach, que tão bem lida com a definição da palavra figura dentro da exegese medieval, que está nas relações de prefigurações no Antigo Testamento de qualquer episódio no Novo Testamento.

[4] Didi-Huberman brinca com a ideia de conter nesses 10 poderes da figura 10 mandamentos da figura. Só fico me perguntando por que ele não aplicou a sentença para Praefiguratio, Desiderium, Praesentatio, Colltocatio e Nominatio

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AUERBACH, Erich. Figura. São Paulo: Ática, 1997 (Série Temas; v. 62).

DIDI-HUBERMAN, Georges. Poderes da figura: exegese e visualidade na Arte Cristã. Tradução de Virgínia Andrade e Leonor Caroça. Revista Comunicação e Linguagens, Lisboa, n.20, p. 159-173, 1994.

JAMES, Henry. Outra volta do parafuso. São Paulo: Abril, 2010 (Clássicos Abril Coleções; v. 21).

SARTRE, Jean-Paul. A imaginação. Porto Alegre: L&PM, 2011

SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de escrever. Porto Alegre: L&PM, 2011.

 

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